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02 novembro 2010

Belchior tinha razão




Alguns fatos me fizeram lembrar de uma aula que tive em 2005, ainda na sala da pedagogia.

A professora de história contou o seguinte: “Semana passado fui ao cinema com meu filho. Quando havíamos sentado, entrou um casal: dois meninos. E eles entraram de mãos dadas. Na mesma hora, um grupo de jovens que estava à minha frente começou a gritar 'bicha! Bicha!'. Eu pensei que Belchior tem razão: ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Evitei aqui falar de política, porque esse blog não foi feito para campanhas. O único intuito desse blog, aliás, é falar o que me vêm à cabeça. Mas agora que as eleições passaram, e que pude observar um comportamento estranho por parte de algumas pessoas, quero falar. Vamos lá.

Votei em Dilma, mas respeito aqueles que, durante os dias de campanha, me expuseram bons argumentos para votar em Serra. E isso, poucas pessoas com as quais conversei fizeram.

Por outro lado, recebi e-mails com argumentos pífios que, ao invés de tentarem me mostrar o lado bom do PSDB, só me faziam repudiar o remetente. “Dilma é lésbica”. “Dilma é satanista”. “Dilma é terrorista”. Eu me recuso a ensinar história àqueles que não sabem o básico a respeito de ditadura. E me recuso a explicar o significado de estado laico, ou a debater a questão vida pessoal x vida profissional.

Esses argumentos levados a sério mais uma série de acontecimentos me fizeram sentir confusa com o que eu imaginava das pessoas e o que elas realmente são. O natural é pensarmos em evolução e aceitação, maior respeito com o passar dos tempos, quebra de tabus e maior tolerância. Nada disso. Nada.

Ano passado, quando Geisy Arruda passou o que passou e todo mundo já sabe, pensei que algo de muito errado acontecia. Porque se vejo meu avô apresentar um comportamento moralista, é socialmente compreensível. Mas quando a coisa toda envolve jovens dos seus 20 e poucos anos, tem algo de errado. Depois, vieram os e-mails com a intenção de desqualificar Dilma ao chamá-la de lésbica ou afirmar que ela é favorável ao aborto, entre outros. Dia desses, a história do rodeio das gordas. Por fim, o preconceito explícito contra nordestinos que pudemos acompanhar no twitter, e se você não viu basta clicar AQUI.

Eu fico sem compreender o pensamento de quem se julga superior. Não consigo entender a linha de raciocínio de quem acredita que a opção sexual pode interferir na vida profissional, por exemplo. Homossexuais existem e é preciso conviver com isso, aceitar e respeitar, gostando ou não. Há que se entender que existem pessoas com necessidades diferentes, passados e bagagens culturais diferentes, mas umas não são menos humanas – e nem menos inteligentes - que as outras. O que eu não compreendo é como aqueles que se julgam no poder do intelecto, os que creem ser os seres pensantes e não influenciáveis, aceitam ignorar pessoas com as quais convivem e vão conviver, colocando culpa em raça, etnia, cultura ou opção sexual, e simplesmente reduzí-las moral e intelectualmente .

Não dá pra desqualificar pessoas por serem nordestinos (e AQUI tem um texto ótimo sobre o assunto), paulistas, gays, gordos. O que não faz sentido é o preconceito vindo de quem se supõe mentalmente evoluído: soa contraditório.

Belchior tem razão. E talvez por isso fez as malas e sumiu no mundo sem ao menos falar tchau.

27 outubro 2010

Tem alguma coisa errada



Tem alguma coisa errada aí. Rafinha Bastos se propõe a fazer um humor inteligente e daí vem com uma piadinha desse tipo. Mais uma. Além da falta de criatividade, do bater na mesma tecla, falta noção a um cara que assume a posição de “formador de opinião”. Rafinha Bastos, CQC e Pânico não formam a minha opinião, mas formam a de muita gente.

E num momento em que há um grupo de pessoas tentando acabar com a ditadura da magreza, é muito delicado fazer esse tipo de piada. Não é direta, mas todo mundo sabe que xingar Geisy Arruda e Preta Gil é coisa que sempre acontece. E funciona. Rafinha foi retuitado por mais de 100 pessoas.

Você não curte a Preta porque ela canta mal? Acha a moça arrogante? Acha que a Geisy foi oportunista ao ganhar espaço na mídia devido à situação que viveu? Justo. Acha legal esculhambar as meninas porque elas são gordas? Você é um babaca.

Não é que eu seja amarga, chata e não goste de humor. É que eu acho que tudo tem limites e quando há pessoas brigando para mudar uma situação, fica ridículo alguém que exerce certa influência continuar repetindo bobagens que desvalorizam a questão. Porque o Rafinha fez isso: ao transformar Preta Gil em piada, que contribuição ele dá aos movimentos em prol do plus size, da beleza natural, contra bulimia, conta anorexia, pelo bem-estar feminino, e tudo mais que isso envolve? Nada: sobra só o desfavor.

No dia em que vejo a notícia sobre o tal do “rodeio das gordas” fica inaceitável ver uma pessoa pública ainda bater nessa tecla. E tantas outras concordarem e acharem suuuper engraçado. Porque você pode não gostar de gordas, não gostar de magrelas, não gostar de baixinhas. É seu gosto, sua opinião. Mas existe uma coisa que se chama respeito, e transformar tudo numa grande piada uma hora perde a graça.

Daí surgem uns estudantes que acham legal humilhar as gordas. Por que não, se o cara faz isso na TV? E por que o cara da TV vai parar de fazer isso, se tem uns estudantes ae que tão achando isso tudo tão legal? Lamentável.

Se eu fosse a Preta Gil, processava mais uma vez, que é pra esse povo parar de ser besta: porque quem não pensa tem que aprender na marra.

18 março 2010

Envelhecer pode ser divertido

Na última comédia romântica que vi, não havia uma mocinha desajeitada que conquista o coração do capitão da equipe de baseball do colégio. Também não havia nenhum casal que, às vésperas de subir ao altar, vê seu romance abalado por uma nova vizinha ou um bonitão conhecido em uma viagem. Não houve nenhuma declaração de amor direto da arquibancada do estádio de futebol e nenhum casamento interrompido na hora do sim ou não. Não havia nenhum saradão charmoso, nenhuma gostosona sedutora e nenhuma maluca que foge no altar.
Ainda assim, foi a melhor comédia romântica que vi nos últimos tempos. E talvez esses sejam exatamente os motivos para fazer de It´s Complicated, ou Simplesmente Complicado, a melhor comédia romântica que já vi nos últimos tempos.
Ops, errei. No filme há sim uma mulher jovem e bela: a Agness, interpretada pela estonteante Lake Bell. Mas quem brilha mesmo é Meryl Streep, como a cinquentona Jane, que se vê disputada pelo ex-marido Jake (Alec Bladwin) e pelo arquiteto Adam (Steve Martin).
Romances à parte, o legal do filme é a ideia de que adultos também ficam confusos, também se apaixonam e também se divertem. Pessoas com a vida resolvida, com filhos e um trabalho estável podem sim curtir uma festa, ter um caso, encher a cara e se arrepender. Mesmo sem gostosonas e saradões, Simplesmente Complicado traz aquela ideia de que a vida pode ser divertida e que envelhecer não é ruim. Porque isso tudo é mesmo uma grande piada. E acaba.



Enjoy ;)

28 outubro 2009

Joga pedra na Geni

“Todo machista teve mãe”, disse uma vez uma menina na faculdade, com quem não tenho mais contato.
Essa frase veio a calhar quando fiquei sabendo do caso da menina que foi expulsa da Uniban por usar roupas muito curtas. A história vai além disso, mas como me deu preguiça de explicar, deixo aqui esse link. Lá tem um vídeo e a explicação do ocorrido.
Quando fiquei sabendo do fato, tremi, fiquei chocada, quase chorei e por fim tive vontade de chamar um por um dos caras que começaram com a cena toda de FILHO DA PUTA, em alto e bom tom. E não que eu acredite que as mães desses rapazes tenham sido putas - e caso tenham sido, isso não é problema meu. Eu só acho elas precisam de uma boa ofensa, para saberem que não tiveram sucesso algum ao educar seus filhos.
Eu sei que existem mulheres que não conseguem discernir muito bem uma roupa de trabalho de uma roupa de baile funk, mas penso eu que isso é um problema muito mais delas do que meu ou de qualquer outra pessoa. Eu sei também que um microvestido chama a atenção dos marmanjos na rua, que eles olham e assoviam. Isso é normal e toda menina que gosta de mini-saia sabe como funciona. Mas daí para os caras se juntarem e encurralarem a menina dizendo “vou te comer” há uma longa distância, que é mais ou menos a distância que separa a civilização da barbárie.
Eu penso que esses meninos que começaram com a palhaçada toda talvez, coitados, não tenham mães, nem irmãs e nem avós. Porque mulher é mulher, tem que ser respeitada como ser-humano, e não é porque ela está usando uma roupa insinuante que qualquer um tem o direito de estuprá-la.
A lógica desses rapazes – estudantes universitários! - é um tanto quanto equivocada. Assim fosse, um homem acusado de estupro poderia muito bem se safar da pena dizendo: “Mas a calça dela era tão justa. Ela mereceu”.
E então eu duvido que as mães, irmãs, tias e primas desses bons rapazes nunca tenham usado uma roupa que, pela lógica deles, justificasse um estupro.
Enfim, achei nojento, repugnante e revoltante a atitude daqueles meninos.
Mas o que realmente me causou revolta a ponto de criar este post é o fato de haver na cena muitas meninas gritando, rindo e chamando a garota de puta.
No momento em que as mulheres deveriam sentir nojo dos homens – homens que convivem socialmente com elas, homens que ameaçam estuprar uma menina que usa roupas curtas – elas se esquecem de que estão na mesma condição da acusada e se unem aos rapazes.
Eu não sei se tais garotas foram acometidas pelo instinto de demarcação de território – certamente muitas delas têm namorados, ficantes e paqueras ali na universidade – e por isso se comportaram como hipócritas inquisidoras.
Tenho certeza que qualquer mulher racional sentiu ódio daquela cena. São anos de luta pela igualdade jogados no lixo, porque se uma mulher não tem o direito de se vestir como deseja sem ser perturbada, então de nada valeu o que alcançamos até aqui.
E se mulheres, mesmo que instintivamente, apóiam atitudes machistas deste tipo, o que esperar dos filhos delas?
Eu já expliquei em um texto aqui nesse blog o que penso de mulheres que mostram o corpo. Acho que isso passa muito longe de subjugação ao sexo masculino. Penso que tem muito mais a ver com direito de escolha. Se a menina estava em trajes inadequados para aquele ambiente, caberia à direção da faculdade chamá-la para uma conversa. Isso é o máximo que se pode esperar de um caso desses. Nunca o que vi nos vídeos. Nunca por universitários, civilizados, que vivem no século 21. E jamais apoiado por mulheres que brigam por seus direitos e que desejam um dia ser respeitadas.
Precisa explicar porque o machismo – esse machismo sujo e nojento - está tão longe do seu fim?




Esse texto é um desabafo, cheio de indignação.O assunto rende muito mais, e pretendo escrever.

26 agosto 2009

Quem bebe sem brindar...


Acompanhei, dias atrás, uma febre que tomou conta dos blogs: as listas. Li muitas coisas legais, como listas de bons livros e de coisas para se fazer antes de morrer, mas nunca achei que listas combinassem muito comigo, que sou tão indecisa e volúvel. E daí que hoje, andando pela rua, reparei em uma coisinha em mim e tive uma idéia: vou listar as superstições que cultivo. Pois é, porque a ciência evolui, mitos são derrubados, mas tem coisas que a gente não larga nunca. E pode vir quem for pra dizer que trevo de 4 folhas na carteira não significa absolutamente nada, quero ver é nego tirar de lá. E o medo de, de repente, ficar mais pobre?
E aí que eu, que sou chegada num número ímpar, vou listar as 7 maniazinhas supersticiosas que levo comigo.

1. bater três vezes na madeira – sempre que penso em coisas ruins, como acidentes ou mortes, preciso “isolar” o pensamento. Se não tem madeira, serve qualquer outro material; o importante são as três batidinhas.
2. desvirar o sapato – não posso ver sapato com a sola pra cima que vou lá e viro para baixo, só não sei se é para evitar a minha morte, da minha mãe ou do dono do sapato.
3. cortar o bolo de aniversário de baixo pra cima – dizem que o primeiro corte tem que ser feito assim, senão o pedido do aniversariante não se realiza.
4. não usar anel no dedo do meio – diz a Kelly Key que isso faz a vida desandar. E eu acredito.
5. fazer pedido a São Longuinho – eu nem sei quem foi este bom homem que me ajuda todos os dias a encontrar celular, óculos ou carteira, mas tenho certeza que grande parte dos pulinhos que ele ganhou até hoje foram meus.
6. passar a mão na barriga de mulher grávida – essa serve para quem quer que os cabelos cresçam rápido. Eu, que cansei de cabelo curtinho, tenho usado deste artifício.
7. dar três pulinhos com o pé direito na virada do ano – essa eu faço todo ano à meia-noite. Se adianta, eu não sei, mas fico a pensar como poderia ser se não fizesse. Melhor não arriscar, né?

E esses dias adquiri, através da minha amiga Mônica, mais uma superstição: dizer “benza Deus” antes de elogiar uma planta, porque, caso contrário, a planta pensa que é inveja, capta a energia negativa e murcha. E não é que um dia chegou um senhor na casa da minha avó e disse “que avenca mais bonita”. No outro dia a planta, coitadinha, era só galho.

21 agosto 2009

Meu caminho pelo mundo eu mesmo faço


Hoje meu pai veio com aquele papo que muita gente já ouviu “pai não dura pra sempre, é importante aprender a ganhar dinheiro, um dia você vai querer ter um bom carro...”. É aquela velha conversa que, se retirarmos os eufemismos, quer dizer “quando é que você vai arrumar um emprego e parar de gastar o meu dinheiro?”.
E daí, ele emendou uma história de “direito é um ótimo curso, hoje um promotor ganha tantos mil...você escolheu uma carreira difícil, precisa ser muito boa no que faz...” , que quer dizer, em outras palavras “esse seu curso – jornalismo – é uma merda e você será pobre para o resto da vida”.
Meu pai é um tipo conservador cabeça-dura, o que pode ser explicado pelo seu signo – aquário – para os mais místicos; ou pelo fato de ele ter virado pai e marido quando era ainda jovem, sonhador e despreparado para a vida dura. Essa é a explicação que serve para os que não estão nem aí para astrologia. Eu gosto de unir as duas e entender que meu pai é um aquariano que, aos 21 anos, sentiu a água bater na bunda e teve que aprender a nadar rapidinho. E como ele não veio de berço de ouro, jogou de lado os sonhos e foi trabalhar. No fim deu certo e hoje ele paga muito bem as contas dos três filhos quem tem.
Mas, depois dessa conversa, ocorreu-me que, excetuando os casos como o do meu pai, é coisa muito triste escolher profissão pensando no dinheiro. Meu pai disse que, sendo promotor, mesmo que você não goste tanto assim, é só agüentar umas horinhas todo dia que no fim do mês seu salário – um gordo salário – estará garantido e que, assim, você – no caso, eu – poderia, em pouco tempo ter um carro zero e viajar para o exterior duas vezes por ano. Para finalizar o discurso de pai desesperado, ele citou uns dois exemplos de pessoas que escolheram a profissão por paixão e que hoje se arrependem.
Eu, que sou apaixonada por cada coisa que faço, temi por todas as vezes que isso foi dito e ainda será dito a alguém. Eu entendo a preocupação que meu velho tem com meu futuro, mas esse é um discurso que não se faz. Eu sou forte e resisti a cada palavra negando com a cabeça – não argumentei porque eu não tenho argumentos contra os burocratas – mas pensei em quantas pessoas mais fracas não tiveram os sonhos destruídos. Quantos escritores, músicos, atores, professores, não estão por aí escondidos atrás de ternos, gravatas e carros zero. Sem falar que deduzir que o sonho de todo ser humano é ter um carro zero e uma casa luxuosa é de uma ingenuidade que me deprime.
Então, pai, entenda que o que eu quero mesmo é poder fazer o que eu gosto em todas as horas do meu dia, mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena, como diria Ferreira Gullar. A minha grande ambição nessa vida é poder entrar em uma livraria e comprar o que quiser e isso é coisa que o pífio salário de jornalista pode pagar. Eu não preciso de 20 mil por mês. Não nego, claro; se vier é bem-vindo. Mas não abro mão das minhas paixões por míseros 20 mil. Elas valem muito mais.
Talvez eu seja agora ainda muito ingênua. Mas coisa que se aprende nessa vida é que conselho não se dá, a gente precisa é aprender sozinho, andar com as próprias pernas. Se for o caminho errado, depois se acerta. Se não tiver acerto, é só chorar, e rir no final. O que não dá é viver a vida do outro, realizar desejos do outro, seguir conselhos do outro, porque senão não sobra tempo de realizar aquilo que é seu. Coisa que ninguém deveria esquecer é que isso aqui é uma grande brincadeira e no final se morre sem levar nada – clichê, eu sei, mas tem gente que esquece.
Então, eu acho mesmo que cada um deve fazer o que tem vontade, porque realização não se encontra só em coisas materiais ou em sucesso profissional. Os tempos são difíceis para os sonhadores, já disse Amelie, mas se a gente não se apegar àquilo que gosta, o que sobra é muito superficial e é um risco muito grande morrer com a sensação de que não se fez nada nesse mundo.

14 agosto 2009

Saradona, #comofas?


O No Limite é uma afronta à minha boa forma. Eu até que me alimento bem, tirando os excessos de chocolate; não sou sedentária; gosto de me cuidar; estou dentro do peso e não me sinto incomodada quando coloco biquini. E então, ligo a TV e vejo uma mulher com sei lá, 50 cm de cintura, pernas duras, nada de celulite, cabelo bonito, pele boa...Poxa! E aí, aparecem mais 5 mulheres iguais a essa e eu penso que a Globo tem uma fábrica de mulheres para reality shows. Elas ficam lá, na cápsula do laboratório e então chega o No Limite e eles descongelam umas cinco. Depois, mais três pro BBB. Sustento essa minha teoria com base em duas observações: quantas mulheres perfeitas assim você vê na rua? Tudo bem que essas mulheres – alguns vão dizer – são as “melhores”, escolhidas entre milhões; mas considerando a quantidade de reality shows que vemos por aí e a quantidade de mulheres-perfeitas que aparecem, podemos concluir que a quantidade de mulheres-perfeitas dentre a população deveria ser, pelo menos, razoável. O outro ponto é: você vai lá ver o perfil dessas mulheres-perfeitas e descobre que elas são psicólogas, jornalistas, aeromoças. Tem uma ou outra modelo ou lutadora, e esses casos eu perdôo, mas me diz: que mulher - que trabalha, estuda ou cuida da casa - consegue malhar, ter uma alimentação extremamente saudável, cuidar do cabelo, da pele e estar sempre sempre linda, mesmo que seja no meio do mato e do calor nordestino? Porque, convenhamos, não dá pra manter abdome saradíssimo e zero de celulite comendo chocolate e tomando uma cervejinha. Já conheci mulheres lindíssimas, mas nunca vi uma que não tivesse uma gordurinha na cintura, uma celulitezinha ou, pelo menos, o cabelo meio oleoso. Pois as mulheres desse tal de No Limite não tem!
Não pense você, espertão, que isso aqui é inveja. Não é não. E também não estou estou usando essa bobagem toda que disse ai em cima pra criticar o exibicionismo presente nesses programas. Quem passa sempre por aqui sabe que eu não tenho nada contra mulher mostrar o corpo. Eu concordo é com a Suelen da novela, que diz que “a gente esconde o que tem defeito”. É que fiquei realmente intrigada com a capacidade dessas mulheres e aí pensei que faz todo sentido pensar que a Globo tem lá, em um departamento isolado por portas de metal e cadeados, suas mulheres-perfeitas.

09 agosto 2009

Yes, eu uso soutien

Quem tem twitter provavelmente ouviu falar do #lingerieday. Pra quem não sabe, vai aqui a breve explicação: três rapazes twitteiros resolveram jogar na web uma modinha e no dia 29 de julho as meninas deveriam colocar em seu avatar uma foto de lingerie. Eu fiquei sabendo, mas não aderi à campanha porque não dei tanta atenção assim e achei mais legal o #mussumday, em homenagem ao Mussum.
O #lingerieday passou quase despercebido por mim, não fosse um post que, dias depois, veio cair aqui na minha telinha. A garota, sem meias palavras, esculachou o movimento, apegando-se a um feminismo duvidoso e repressor. Os argumentos estão bem colocados, o texto é bom, mas eu, na minha condição de mulher e sujeito pensante tive que discordar.
Discordei aqui, na minha, fazendo sinal de negativo com a cabeça e fiquei com preguiça de vir a público dizer, entre outras coisas, que para mim o #lingerieday não passa de uma grande brincadeira e que não há motivo para alarde.
Mas aconteceu de eu ler essa matéria da revista Época e vi que as coisas estão ficando confusas. Aconselho vocês a lerem a matéria antes de continuar a ler esse post, pois não vou explicar o caso aqui.
Como é dito na matéria, desde a década de 60 parte da sociedade tenta anular as diferenças entre homens e mulheres. E eu acredito que essa necessidade de anular as diferenças surgiu, principalmente, como forma de diminuir a opressão existente sobre o sexo feminino. Isso é bom e já avançamos muito desde nosso ponto de partida. Hoje mulheres trabalham fora de casa, têm bons salários, assumem cargos antes predominantemente masculinos, fazem sexo antes do casamento e bebem cerveja. Mas uma coisa é preciso aceitar: homens e mulheres são diferentes sim. Os hormônios são diferentes, as reações são diferentes, o corpo é diferente. E isso reflete nas ações e comportamentos. Mas há uma parcela das feministas que prefere ignorar tudo isso que é facilmente observável, além de cientificamente comprovado e bate o pé para que mulheres e homens se igualem em tudo.
Este tipo de feminismo é, provavelmente, o mesmo que parte da premissa de que algumas atitudes femininas – posar nua, por exemplo - só são realizadas porque as mulheres estão subjugadas por uma sociedade machista. Este tipo de feminismo desconsidera que posar nua pode ser um desejo legítimo da mulher. Ela quis, ganhou um bom dinheiro, comprou carro e apartamento. Vai dizer que ela, coitada, é um ser não-pensante?
Duvido que o fato de uma mulher exibir o corpo vá anular sua capacidade intelectual. Desde que a garota tenha consciência de que na revista ou na TV ela será vista por homens apenas como um pedaço de carne, não há mal nenhum em tirar uma boa grana disso. Até porque, se ela tem consciência disso, é porque ela pensa.
A impressão que tenho quando vejo este tipo de crítica feminista é que para ser mulher respeitada é preciso manter a seriedade em todos os momentos e deixar a inteligência prevalecer sobre a beleza em qualquer situação, desconsiderando que há ambientes que permitem uma descontraída, como o twitter, por exemplo. É uma forma traiçoeira de se pensar: para ser respeitada, a mulher precisa seguir uma linha de comportamento, reprimindo qualquer outra atitude que possa prejudicar sua imagem de mulher inteligente. É como sair de uma prisão machista, que diz que mulher é objeto; e entrar em uma prisão feminista, que diz que mulher, para ser respeitada, não pode mostrar o corpo.
Tem ainda aquele argumento frouxo: “se fossem homens mostrando a cueca não haveria problema”. Para os homens não existe a questão do “mostrar meu corpo vai diminuir o que represento socialmente?”, porque os homens nunca tiveram que brigar por direitos e mostrar que são capazes de fazer coisas que vão além de cozinhar e passar. Mas é possível utilizar este argumento partindo do ponto de que se desejamos igualdade – guardadas as características de cada gênero, como eu disse no começo – devemos então considerar que se um homem de cueca não iria diminuí-lo, uma mulher de calcinha também não pode ser automaticamente transformada em objeto. As pessoas são muito mais do que um avatar e isso não deve interferir na função delas como sujeito, embora ali, naquela tela, ela figure como um objeto para quem vê.
E dizer que uma mulher que coloca na tela uma foto de soutien só o fez porque está subjugada a agir assim é jogar no lixo a capacidade feminina de pensar e julgar suas próprias atitudes. Soa quase tão machista quanto dizer quem mulher é objeto e ponto.
Pra finalizar, eu acho que se faz muito escândalo quanto a questões relacionadas a sexualidade, gênero e funções sociais. É um exagero não revelar o sexo do filho para deixar que ele escolha sozinho conforme for se desenvolvendo. Não há necessidade para tanto. Aborto ainda é tabu. Homossexualidade também, porque, por mais que você, seu amigo e seu vizinho aceitem, ainda tem muita gente que olha feio. Mas atualmente nossa sociedade anda muito mais aberta à essas questões polêmicas e se os pais da criança já entenderam que o que importa não é o sexo, mas a pessoa, eles poderiam simplesmente criar o filho como menino ou menina e, se um dia Pop não gostar da sua situação, terá liberdade para mudar. Afinal, os pais aceitam isso.
Enfim, falei tudo isso pra dizer que ser mulher e me vestir como tal não me incomoda em nada. E que duvido muito que uma foto minha de lingerie tenha o poder de anular tudo o que já li, estudei e conheci durante esses 23 anos . Para quem vê, posso ser só um pedaço de carne. Mas eu sei que sou mais que isso, e basta para que eu possa usar um salto alto sem me sentir apenas um corpinho que desfila para fazer a alegria dos marmanjos. Além de que, se estou tentando abrir um pote de azeitonas e um rapaz forte se dispõe a fazê-lo, não sou eu que vou recusar só pra provar que há igualdade entre homens e mulheres. Pra tudo nessa vida tem hora e local certo.

18 junho 2009

...ainda sobre o diploma...

O problema é que, no Brasil, o povo acha que Universidade é sinônimo de emprego garantido. Não é. Universidade é lugar de aprofundamento teórico, de busca de conhecimento. Quem gosta de estudar, de conhecer, de aprender sempre mais, deve ir para a Universidade. Mas quem quer só um emprego garantido, deve procurar curso técnico. Na Alemanha – exemplo de educação, convenhamos – é assim que funciona. As profissões clássicas (médicos, juízes e advogados, professores) têm curso universitário. Nos outros casos, basta um curso técnico. Inclusive jornalistas. É claro que não se compara Alemanha com Brasil. Mas é um exemplo de como brasileiro distorce a função do diploma universitário.
E por favor, nada de comparações do tipo “mas imagina se isso se estende para outros meios...”. Isso nunca esteve em discussão e nunca acontecerá. Não dá para comparar as conseqüências que um erro de um engenheiro civil pode trazer com as conseqüências de uma notícia errada. No caso do jornalista, é só mandar uma ERRATA e pronto. E se um engenheiro erra os cálculos de um prédio? E se um médico erra o diagnóstico? Nada de relembrar o caso da escola BASE. Foi um erro gravíssimo da imprensa, deixou seqüelas tão profundas quanto um erro cirúrgico. Porém, é um caso isolado.
Brasileiro tem que parar com essa mania de que só é intelectual quem está dentro da Universidade. Todo cidadão deveria ler, informar-se, conhecer história, artes, literatura. Erro estrutural, claro. Nosso sistema educacional é falho. Tudo o que deveria ser ensinado desde o pré-primário vai sendo jogado pra frente. Quem quiser ser inteligente que faça faculdade e pronto. E aí, as pessoas usam o argumento de que só alguém com curso universitário estaria apto a escrever notícias, pois tem técnica e embasamento teórico. Técnica jornalistica é algo que se aprende muito bem com dois anos de curso técnico. E embasamento teórico é coisa que todos deveriam ter – e mais ainda quem quer ser jornalista. Nas salas de aula das universidades há pessoas que nem sabem porque é que estão lá assistindo àquele professor que fala sem parar. Muitos alunos – vejo isso todo dia – preferem ler um livro a ouvir o que o professor fala. Porém, continuam dentro da sala de aula, para garantir a presença e ganhar o diploma no final.
Por um lado, é de se preocupar: se a chamada “elite intelectual” brasileira acredita que diploma é mais importante que conhecimento, o que pensar dos que não estão nas salas das universidades? É bom temer: eles podem roubar sua vaga.



E só mais isso:

Enquanto muitos vêem o fim do mundo com a nova lei da não-obrigatoriedade do diploma, eu vejo uma esperança. Abre-se a possibilidade de aqueles que não têm um diploma e sempre desejaram ser jornalistas irem em busca de conhecimentos para igualarem-se aos diplomados (pois, apesar da lei, o diploma ainda é uma vantagem a frente dos outros). E chega a hora de os jornalistas – essa classe desunida com o ego maior que qualquer visão que vá além do óbvio “ai, meu deus e meu emprego?” - unirem-se e, quem sabe, tentarem mudar alguma coisa.

17 junho 2009

E o canudo?

Sei que serei apedrejada por jornalistas e estudantes de jornalismo, mas eu concordo com a não-obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão.
Sou estudante de jornalismo prestes a me formar e um dia, talvez, eu mude de opinião, mas no momento, acho justo que pessoas de outras áreas possam trabalhar como jornalistas. E há motivos para isso.
Primeiro, desde que entrei na faculdade defendo que jornalismo deveria ser curso técnico. Qualquer um, em dois anos, aprende muito bem a fazer um lead, diagramar um jornal, tirar boas fotos e marcar entrevistas. Escrever bem, estar atento aos diversos conteúdos divulgados por aí e ler muito são coisas que não entram em discussão. Quem não faz isso, simplesmente não deveria pleitear uma vaga em uma redação. Nunca. É a coisa da vocação. E são coisas que ninguém vai aprender em uma sala de aula. O aluno entra na faculdade porque gosta de escrever, porque leva jeito, porque gosta de ler. Não o contrário. Então, boa escrita e facilidade de comunicação não são argumentos a favor do diploma.
Vejo também muitas pessoas que estudam jornalismo mas não servem para isso. Estudam porque vêem no curso um meio de conseguir ingressar em uma área para a qual elas simplesmente não nasceram. Se o curso de jornalismo fosse garantia de um futuro profissional na área, haveria (e haverá) péssimos profissionais por aí. Eu mesma, talvez não leve muito jeito assim.
Além disso, muita gente já entrou no curso sabendo do problema do diploma. A briga é antiga. Então, não adianta reclamar.
É claro que um sociólogo disposto a escrever em um jornal dificilmente vai saber o que significa a palavra retranca. Mas a não-obrigatoriedade do diploma não quer dizer que virou festa: “Pronto, agora ninguém mais contrata jornalista”. Não. Vai haver espaço para os bons, em todas as redações. Até porque, em toda redação, é preciso haver alguém que saiba o que é uma retranca. Nas entrevistas de emprego, os bons jornalistas (com diploma ou não) irão sobressair. Porém, sendo um bom jornalista com diploma, há uma vantagem a frente dos diplomados em outras áreas.
E, dificilmente uma pessoa formada em administração ou em sociologia irá desejar estar das 6 da manhã as 6 da tarde em uma redação, correndo contra o tempo por um salário que mal paga as contas do mês. Isso é pra quem escolheu há muito tempo. Quem não gosta da coisa, cai fora antes de ganhar o diploma, ainda que ele não valha muito. Um dia, talvez eu perca um emprego e no meu lugar contratem um professor, um advogado ou um estudante universitário qualquer. Daí, vai ser hora de chorar e maldizer a lei que apoia a não-obrigatoriedade do diploma. Ou de repensar se estou no lugar certo.




Só pra esclarecer: escolhi jornalismo porque gosto de saber de tudo um pouco (e muito de algumas coisas), gosto de ler e – dizem - levo jeito para a coisa. Se não fosse estudante de jornalismo, estaria cursando artes cênicas, mesmo que para ser atriz também não seja necessário ter diploma. Eu faço por amor, e não pelo canudo. ;)

19 maio 2009

A des-graça do humor

Eu ri muito quando vi, pelo youtube, o vídeo do Diogo Portugal no Programa do Jô. Achei ótimo o vídeo em que o Rafinha Bastos fala do casamento e gostei do Danilo Gentilli falando do papamóvel. Mas não vi graça alguma em uma das últimas apresentações de Rafinha, em que ele falava sobre os garçons. E concordei com a plateia, que permaneceu séria enquanto Oscar Filho contava piada atrás de piada no Programa da Hebe.
O stand up comedy, coisa que importamos dos EUA mantendo o nome original, existe por aqui há tempos. Pra quem duvida, vale ver o vídeo do Chico Anysio, em preto e branco, com direito a gravatinha borboleta. Mas em terras tupiniquins, esse tipo de humor tornou-se notável nos últimos 3 ou 4 anos. Surgiu um, dois, e de repente eram milhares de pessoas querendo arrancar humor de qualquer situação.
Os apaixonados pelos estilo irão discordar, mas eu acredito que o stand up entrou em decadência. E caiu de lá de cima, em pleno auge da popularidade. Teve por aqui carreira meteórica. Sei que muitas pessoas ainda idolatram os rapazes que, de microfone na mão, satirizam situações cotidianas.
Mas quem observa Rafinha Bastos há um ano e compara com suas piadas atuais há de convir: o stand up banalizou. E banalizou em dois sentidos: todo mundo quer fazer; e querem fazer sobre qualquer coisa.
Humor faz bem, alivia o peso do cotidiano, a preocupação com as contas, com os filhos, com a escola. Mas em excesso, cansa. E, se é feito por necessidade de contar uma piada, é superficial. Quando vejo um humorista fazendo piada sobre o modo como o garçon não entende os gestos que o cliente faz, penso que essa pessoa – a que criou a piada – é um pouco triste. Que tipo de pessoa, durante o jantarzinho romântico ou a cerveja com os amigos, fica reparando no modo de agir do cara da mesa ao lado para depois escrever um texto que será, um dia, um roteiro? Se não é uma pessoa triste, é com certeza muito chata. Quem tem capacidade de fazer piada sobre tudo é porque repara em tudo. E uma pessoa que repara em tudo não pode em hipótese alguma ser uma pessoa agradável.
Deixando de lado as impressões pessoais, é fato que o stand up comedy tem seus dias contados. E os próprios comediantes sabem disso e refugiam-se em programas de TV ou em grupos de teatro para garantir o ganha pão.
Porém, a culpa pela decadência do estilo não é somente dos artistas. É cultural: brasileiro gosta de humor escrachado. É a preferência nacional. Ninguém vive de stanp up comedy. Porém, Tom Cavalcanti vive, há anos, de seus personagens. Temos ainda Tiririca, Turma do Didi, a Praça é Nossa. Muitos dirão que é um humor duvidoso, feito de piadas prontas há anos e personagens exagerados. Porém, é o humor que sobrevive. E do qual muitos tiram o dinheiro do mês.
Tudo que é bom tem fim. E tudo que é ruim também. Com a onda do stand up, conhecemos pessoas talentosas e rimos de boas observações acerca do nosso cotidiano. O que é bom ficou lá registrado no youtube. E o resto, bem. É melhor que parem por aqui, porque tem muita gente começando a sentir vergonha alheia.

18 agosto 2008

É doce viver no mar

Esse tá na Revista Wave (www.revistawave.com/blog)


Hoje minha tarde ficou mais triste.
Anos atrás, minhas tardes passaram a ser mais felizes. Foi quando descobri que havia mais alguém no mundo que partilhava do meu encanto por pequenas cidades, e que falava da vida como se ela fosse o que realmente é: brisa.
Eu alimento uma paixão sanguínea por pequenas praças ensolaradas onde a vida passa devagar, e foi numa tarde que uma voz me falou de um bom lugar pra se amar em Copacabana. O Rio de Janeiro é grande, mas a paixão pelos detalhes – seja da pracinha ou do bar a beira-mar – é a mesma.
Depois, ouvi falar de Itapoã. E eu aqui, no interior de São Paulo, longe do mar e do sol, senti toda a paz que é ver a morena de Itapoã caminhando na areia, com uma flor nas mãos.
Fiquei feliz por saber que a minha saudade é a saudade dele, a saudade de Itapoã.
E foi numa tarde, descobrindo Caymmi, que eu fiquei feliz, como fui feliz em muitas tardes de sol, eu que sempre fui do interior, e como foi feliz o Caymmi em sua Itapoã.
Dorival falava da doce tristeza do mar e da saia da morena, com o privilégio de quem viu de perto, mas com a paciência de quem sabe que essa paz é para poucos. E com a compreensão que aqueles que estão longe da paz merecem.
Falava do tabuleiro da baiana e da ingenuidade da Marina, como se qualquer um pudesse ver. Cantava o “quê” da baiana como se ela dançasse bem em nossa frente, rodando sua saia e sorrindo. Ele universalizava o seu mundo de forma única, fazendo com que sentíssemos nos cabelos a brisa do mar.
É, em música, o que é Jorge Amado na literatura. Bahia e seus encantos, seus detalhes, seus mistérios. Vida fluindo e acontecendo em todo canto: na areia da praia e na briga de rua. No sorriso do menino e ou no olhar da morena.
Um violão que, mais que toca, seduz. Som pra se ouvir em rede. Um pedaço de sua paz assim, de graça para quem a ouve. E quem ouve quase o sente ali, sentado ao lado, num banquinho, sorrindo e cantando.
Caymmi me acalentou por vezes. Fez-me entender um pouco da paz e da paciência que, dizem, só os baianos têm.
E na tarde de hoje, com sol amarelando as árvores e brisa morna, eu fiquei um pouco mais triste. A notícia me pegou de surpresa, porque há pessoas que a gente imagina serem eternas, pela simplicidade com que vêem a vida.
Foi-se o poeta do cotidiano. Hoje, tenho certeza, o dia amanheceu mais triste em Itapoã.

28 dezembro 2007

Nostalgias minhas

Perdemos Ayrton Senna, Frank Sinatra, Paulo Autran, Chico Mendes.
Perdemos a malandragem carioca.
Perdemos o medo de assalto.
A vergonha na cara, também perdemos um pouco.
E perdemos um muito da floresta amazônica.
Mas uma das maiores perdas dos últimos tempos, em minha opinião, foi algo sutil, que aparentemente causou pouco abalo: o hábito de escrever cartas.
Eu, que passei pela transição carta/e-mail, não poderia deixar de sentir uma dorzinha nostálgica. Eu sei o que significa essa perda. Sei o que é errar e rabiscar, rasgar, beijar o papel, escolher selos e – alegria das alegrias – esperar ansiosamente pela chegada do carteiro.
Até meus quinze anos, sempre escrevi cartas. Tinha amigos distantes pois, devido ao trabalho do meu pai, mudávamos muito de cidade. Assim, amigos ficavam e saudades vinham. E, pelo que me lembro, até 2000, internet ainda não era tão comum. Pelo menos aqui nesses interiores.
Então, para matar a saudade, escrevíamos. Mandávamos fotos, presentes, lembranças, beijos de batom cor-de-rosa e marcas de lágrimas no papel. E aguardávamos ansiosos pela resposta.
Havia até – não sei se ainda há – nos gibis da Turma da Mônica, uma página cheia de endereços de leitores que queriam fazer novos amigos. Escrevíamos e eles respondiam. Lembro-me das inúmeras tardes que passei sentada em frente ao portão aguardando a ilustre presença do carteiro. E ele me trazia tantas coisas, tantas pessoas: letras corridas, redondas, rabiscadas, tintas coloridas, beijos, fotos, histórias.
Depois, eu respondia e, calculada a distância, sabia que teria entre uma e duas semanas de espera até a próxima carta.
Hoje é tudo muito rápido. Não há a ansiedade, a espera e a curiosidade. Tudo sana-se em uma página: de cara sabemos como é nosso novo “amigo”, de que gosta, o que faz, o que odeia, etc.
O contato com pessoas de longe virou coisa rotineira: estamos no orkut, de repente nos deparamos com um rosto conhecido perdido em página alheia, descobrimos o velho amigo, que alegria! Trocamos scraps e e-mails emocionados, cheios de novidades: “Como vai? E a família? Meu Deus, sua irmã ta enorme!”. Adicionamos o amigo no msn, conversa vai, conversa vem e um dia ele vira só mais um contato on-line. Você vê ele lá, mas não tem o que falar, porque já perguntou tudo o que tinha que perguntar e, como não participa da vida dele, vocês não tem mais assuntos em comum.
Eu mandei e recebi muita carta (e hoje ainda escrevo algumas!). Li muitas histórias, porque, entre a chegada de uma carta, a formulação da resposta, o envio e o recebimento de outra, muita coisa acontece.
Fico triste quando penso que meu irmão não vai saber o que é a emoção por trás de uma letra tremida, ou a alegria que é ver o rapaz de azul e amarelo dobrando a esquina. Acho que acabamos perdendo também um pouco do romantismo.
E quem quiser me escrever, que fique à vontade para pedir meu endereço. Eu juro que respondo. E com direito a letra emocionada, rabisco entre parênteses e beijo no final.