
Alguns fatos me fizeram lembrar de uma aula que tive em 2005, ainda na sala da pedagogia.
A professora de história contou o seguinte: “Semana passado fui ao cinema com meu filho. Quando havíamos sentado, entrou um casal: dois meninos. E eles entraram de mãos dadas. Na mesma hora, um grupo de jovens que estava à minha frente começou a gritar 'bicha! Bicha!'. Eu pensei que Belchior tem razão: ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
Evitei aqui falar de política, porque esse blog não foi feito para campanhas. O único intuito desse blog, aliás, é falar o que me vêm à cabeça. Mas agora que as eleições passaram, e que pude observar um comportamento estranho por parte de algumas pessoas, quero falar. Vamos lá.
Votei em Dilma, mas respeito aqueles que, durante os dias de campanha, me expuseram bons argumentos para votar em Serra. E isso, poucas pessoas com as quais conversei fizeram.
Por outro lado, recebi e-mails com argumentos pífios que, ao invés de tentarem me mostrar o lado bom do PSDB, só me faziam repudiar o remetente. “Dilma é lésbica”. “Dilma é satanista”. “Dilma é terrorista”. Eu me recuso a ensinar história àqueles que não sabem o básico a respeito de ditadura. E me recuso a explicar o significado de estado laico, ou a debater a questão vida pessoal x vida profissional.
Esses argumentos levados a sério mais uma série de acontecimentos me fizeram sentir confusa com o que eu imaginava das pessoas e o que elas realmente são. O natural é pensarmos em evolução e aceitação, maior respeito com o passar dos tempos, quebra de tabus e maior tolerância. Nada disso. Nada.
Ano passado, quando Geisy Arruda passou o que passou e todo mundo já sabe, pensei que algo de muito errado acontecia. Porque se vejo meu avô apresentar um comportamento moralista, é socialmente compreensível. Mas quando a coisa toda envolve jovens dos seus 20 e poucos anos, tem algo de errado. Depois, vieram os e-mails com a intenção de desqualificar Dilma ao chamá-la de lésbica ou afirmar que ela é favorável ao aborto, entre outros. Dia desses, a história do rodeio das gordas. Por fim, o preconceito explícito contra nordestinos que pudemos acompanhar no twitter, e se você não viu basta clicar AQUI.
Eu fico sem compreender o pensamento de quem se julga superior. Não consigo entender a linha de raciocínio de quem acredita que a opção sexual pode interferir na vida profissional, por exemplo. Homossexuais existem e é preciso conviver com isso, aceitar e respeitar, gostando ou não. Há que se entender que existem pessoas com necessidades diferentes, passados e bagagens culturais diferentes, mas umas não são menos humanas – e nem menos inteligentes - que as outras. O que eu não compreendo é como aqueles que se julgam no poder do intelecto, os que creem ser os seres pensantes e não influenciáveis, aceitam ignorar pessoas com as quais convivem e vão conviver, colocando culpa em raça, etnia, cultura ou opção sexual, e simplesmente reduzí-las moral e intelectualmente .
Não dá pra desqualificar pessoas por serem nordestinos (e AQUI tem um texto ótimo sobre o assunto), paulistas, gays, gordos. O que não faz sentido é o preconceito vindo de quem se supõe mentalmente evoluído: soa contraditório.
Belchior tem razão. E talvez por isso fez as malas e sumiu no mundo sem ao menos falar tchau.



