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25 setembro 2012

Chokito



Acordo em mais um dia de chuva e penso que São Pedro usa os mesmos métodos educativos dos meus pais.

Quando era criança, minha irmã inventou de comer chokito (isso mesmo, o chocolate da lacta ou garoto, não sei). Não parava de falar de chokito, foi um dia inteiro primeiro pedindo, depois chorando e por fim esperneando. 

Dez anos atrás as coisas não eram fáceis rápidas e onipresentes como são hoje. Você não ligava o computador, digitava chokito e aparecia o mapeamento da cidade com todas as lojas onde vendem chokito, a variação de preços e as formas de entrega e pagamento. Além disso, as mães saiam cedo para trabalhar e quando ficavam em casa tinham que lavar e passar. Sobrava pouco tempo para fazer as outras coisas, como comprar chokito no dia que não era dia de supermercado. 

O tanque cheio de roupa suja e Heloísa chorando por chokito. Minha mãe deixou roupa de molho, louça na pia, mesa sem toalha e saiu sem falar nada. Voltou com uns dez, doze chokitos. Desembrulhou um por um, colocou sobre a mesa e chamou a menina: quer chokito? Pois vai comer. 

Até o terceiro, foi só alegria. O quarto já desceu mais devagar e o quinto ela empurrou de lado depois da segunda mordida: não quero mais.

Foi sob doces ameaças e palavras de carinho que minha mãe fez a menina comer pelo menos mais uns três.

É assim São Pedro. A gente pede chuva, reclama do tempo seco, faz reza, dança, grupo de oração, ele então cansa: é chuva que vocês querem? Tome chuva.
Claro que Heloisa continuou pedindo coisas, não mais chokito porque temos kit kat, alpino, suflair, kinder ovo. Claro que com mais dois dias assim, a gente começa a pedir por sol.

12 setembro 2012

iphone 5



Soube pelo twitter que lançaram ou vão lançar o iphone 5. Eu não sei muita coisa sobre isso, pra ser sincera não entendo quase nada, mas uma amiga minha comprou um iphone (não o 5, o 4 talvez) e vi que é muito bom para tirar fotos, baixar revistas e fazer um treino de corrida, além de telefonar. Achei ótimo porque são três coisas que me parecem bastante úteis, mais do que telefonar. Ainda assim, não me entusiasmei o suficiente para gastar boa parte do meu salário - se não ele inteiro - naquele aparelho bonitinho.

Quando eu li no twitter sobre esse mais novo lançamento do mundo das incríveis tecnologias, meu primeiro pensamento foi: se ele varresse a minha casa eu comprava um nem que tivesse que voltar a usar cartão de crédito e me endividar mais uma vez.

Deve fazer um mês ou mais que não varro minha casa. Virou um ciclo: tive uma semana muito cheia que coincidiu com o início da estiagem do nosso mês de agosto. Sem tempo para varrer, a poeira acumulou. Acumulou tanto que minha coragem sumiu, deve ter ficado soterrada pela camada de pó nos cantos da sala. 

Eu lembrei que sou livre para interpretar as coisas como bem entender, e então pensei que não sou o tipo de pessoa que varre a casa. De acordo com Jung ou algum desses testes de internet, tenho personalidade corajosa, com alto teor de desinibição, bastante criatividade, e agora também mais essa: pouca coragem para varrer a casa. 

Olhava para o tapete sujo quando notei uma coisa ainda pior: minha bolsa no chão. Minha mãe fala que deixar a bolsa no chão afasta dinheiro, então corri colocar ela sobre a cadeira, senão nunca terei dinheiro, um iphone e uma casa com o chão limpo. Sempre há uma esperança.

13 julho 2012

Louro

Quando eu era criança, no quintal da casa da minha avó tinha uma goiabeira. E a goiabeira existia desde antes de ela ser minha avó, desde muito antes. Já naquele tempo, acontecia às vezes de umas folhas da goiabeira se desprenderem, como acontece com toda árvore. Às vezes ventava e algumas folhas iam parar dentro da cozinha, pela janela. Daí, minha avó varria para fora outra vez.

Meu pai quando era criança nunca tinha comido feijoada. Um dia, a mãe dele (que coincidentemente é até hoje a minha avó) chamou toda a família para almoçar na casa dela e ele adorou aquela movimentação de tios, tias e primos, todos esperando pela feijoada.

Quando minha avó, que naquela época ainda não era minha avó, colocou a panela grande na mesa, meu pai correu olhar o que tinha dentro e foi bem ligeiro: logo tirou da panela alguma coisa e escondeu debaixo do prato. Depois de todas as visitas já terem ido embora, meu pai correu pro lado da mãe dele, com ares de heroi:

- Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu!

(Meu pai, que nunca tinha visto feijoada, também nunca tinha visto folha de louro).

14 outubro 2011

"encosta sua cabecinha no meu ombro e chora"

Quando era adolescente, eu tinha uma mania esquisita: eu chorava todo dia. Às vezes, dia sim, dia não. Era uma coisa muito natural, como quem escova os dentes ou espirra: antes de dormir, chorava um pouquinho. Em público sempre foi outra coisa, eu sempre tive mania de ser a mais forte da família, e sabem como é, choro significa fragiliade, por mais que não seja bem assim a situação, por mais que a gente esteja bem e o choro seja só uma mania ou birra. Então, na frente de pai e mãe, só chorava em caso de necessidade ou urgência. E na frente de amigo, só quando não dava mesmo pra segurar, porque tem isso ainda: a gente constrói uma imagem pros amigos, e nenhum deles pode ter arma pra destruir. Eu nunca saberia reagir se um dia um amigo falasse: lembra quando você chorou na festa da Ana?, orgulhosa que sou. Principalmente porque quando a gente chora na frente de amigo, normalmente é por culpa de um terceiro que causou mágoa, ciúme ou raiva, e eu jamais aceitaria que fizessem isso comigo. Mas sozinha, chorava. Depois, dormia.

Daí fui crescendo e parando de chorar, e assumindo que chorava, do jeito que as coisas não devem ser, mas acho que é como na verdade são:  a gente vai assumindo as coisas quando elas já não pesam tanto na gente. E já nessa vida adulta, teve duas vezes que tive que chorar dentro do supermercado, e uma vez na escada do prédio. Mas isso de chorar sozinha em casa nunca mais aconteceu, e eu comecei a sentir falta, porque não era ruim, era só um hábito bobo. Hoje eu cheguei meio cansada, um pouco de mal com as coisas, porque ser adulto ainda tem dessas: a gente tem que assumir a culpa das coisas que faz. Fiquei assim, umas horas incomodada, li umas coisas, falei com umas pessoas,  mas nada desse incômodo passar, e eu pensei “é TPM” e também “é inferno astral”, e lembrei que a gente é tão ridículo, e tão desamparado, que precisa ficar arrumando coisas fora da gente pra justificar o que acontece dentro da gente,  e pra justificar aquilo que a gente faz. Resolvi dormir, e daí, quando fui fechar o facebook resolvi ler esse texto aqui, e chorei. Eu precisava era disso, de uma coisa na medida, com beleza e melancolia, pra me fazer chorar. Porque tem mais essa ainda: a gente cresce e fica precisando de motivo pras coisas que faz.

*Combinahttp://www.youtube.com/watch?v=UZdLI9bLaZA&feature=related

27 setembro 2011

Com quantos anos você vai se casar?

Quando eu era criança existia entre as meninas da escola uma brincadeira assim: desenhávamos numa folha de papel um quadradinho. Dentro do quadrado, colocávamos a idade com que queríamos nos casar. Do lado de fora, rabiscávamos em cada lado três linhas perpendiculares ao quadrado e paralelas entre si. No lado esquerdo, colocávamos três adjetivos: bonito, gentil, educado. No direito, três opções de número de filhos: 1, 2 e 3, por exemplo. O número dentro do quadrado regia o resto da brincadeira. Se fosse 22, colocávamos a ponta da caneta no primeiro adjetivo e íamos pulando de um em um até chegar ao número 22. O adjetivo ou número de filhos sorteado era riscado, e então repetíamos o processo até que restasse de um lado somente um adjetivo, e dou outro apenas uma opção para o número de filhos. Pronto, estava desenhado no papel nosso futuro: aos 22 anos, a dona da brincadeira estaria casada com um homem bonito (ou gentil, ou educado) e teria 3 filhos (ou 2, ou 1).

No meu quadradinho, o número central era sempre 18. Às vezes, 20. Era assim que funcionava quando eu era criança: olhava para o futuro e me via aos 20 anos casada, grávida e feliz.  Hoje, quando me lembro disso, ficam claras para mim duas coisas: que meu espelho, naquela época, era minha mãe (que se casou aos 18); e que eu errei feio.

Aos 25, o mais perto que cheguei de um casamento foi um namoro de quatro anos com direito a escovas de dente compartilhadas; e o mais próximo de ter filhos foi uma pílula do dia seguinte comprada às pressas às onze da noite. Hoje eu sei que a vida que eu levo cabe perfeitamente naquilo que eu sou, e eu combino perfeitamente com a vida que eu levo.

Mas tem dias que eu fico pensando: será que a Carol com um marido bonito e um filho de 5 anos não seria feliz agora? Afasto bem rápido esse pensamento porque sei que é bobagem: essa Carol hipotética estaria agora imaginando se a Carol jornalista que considera maturidade poder comprar danoninhos e comer quantos quiser num mesmo dia não seria também feliz. E é. Ponto.

Longe das reflexões acerca de felicidade, eu vou agora escrever “80” no meio de um quadradinho, de um lado colocar número de netos, e do outro escrever: morte, Alzheimer e grupo de ginástica da terceira idade. Ver o resultado e torcer para que seja  diferente.

11 abril 2011

Brigadeiro

A Aparecida falava que pro olho mudar de castanho pra azul é só pôr chá de camomila e que tomar água depois de comer brigadeiro dá diabetes. E a Aparecida não sabia fazer brigadeiro, mas ela sempre falava isso quando me via tirando do microondas a tigela de brigadeiro, e isso acontecia com muita frequência quando eu morava na casa da minha mãe. Aparecida lavava louça, passava roupas, cozinhava, costurava e vendia avon, mas não sabia fazer brigadeiro, até que um dia eu ensinei e anotei o passo a passo – que eu inventei na hora, porque eu fazia 'de olho', como dizem.

Foi o que eu deixei pra ela quando sai da casa da minha mãe: a receita de brigadeiro de microondas. Eu não sabia que iria sentir saudades dela, até hoje quando meu telefone tocou. “Carol, vem pro aniversário do Vitor, fiz um monte de brigadeiro. Lembrei de você”. E eu, que virei adulta: “Não posso, vou trabalhar. Olha. Tô com saudades”. “Eu também. Nunca mais te vi, só vejo a sua cama desarrumada quando chego na segunda e você já foi embora”. Chorei. “Oh. Guarda uns brigadeiros pra mim, semana que vem tô aí”. “Mas Carol, até lá vai estar tudo duro”. “Tem problema não, Aparecida, guarda pra mim”. Desliguei antes que ela percebesse minha voz assim, meio trêmula.

A Aparecida não vai perceber nunca que a gente cresceu.

02 março 2011

contratempos

Fiquei doente e não pude comprar remédio sem receita, e também não havia tempo para marcar hora com doutor pra então conseguir receita. O ex-namorado pediu o carro emprestado, que na verdade é da minha mãe. Emprestei e ele bateu: nada grave, por sorte. Ele aproveitou a hora de devolver o carro pra trazer as últimas coisinhas que ficaram perdidas nas gavetas, prateleiras e cantos do apartamento velho: roupas, um pôster do filme 'cidade dos homens', laço de vestido, toalha de rosto, 3 estatuazinhas, uma boneca, um porta-jóias, um vidro com as 3 derradeiras gotas de perfume, um gravador, uma presilha, um blush, 3 fotos, duas bandanas, 4 livros, um gato-chinês-da-sorte, uma caixa de óculos-de-sol, uma vida. Dolorida, com tempo chuvoso lá fora, sem poder sequer tomar um gole de vinho, arrumei todas essas coisas que estavam sobre a cama, acalmei minha mãe 'o carro tá ótimo', dei um jeito de arrumar um remédio, parei, escrevi. Porque a vida segue e depois de amanhã é carnaval.


*e quem me ajudou na arrumação foi ela:

08 novembro 2010

Well, well, Gabriel

Vocês que me perdoem, mas vou contar e fazer inveja.

O Gabriel tem 5 anos e os olhos azuis mais espertos do mundo. No começo do ano, fui morar uns meses com ele, na casa da minha avó, no único lugar onde chove e faz sol com arco-íris tudo junto em fim de tarde.

Quando cheguei pra ficar, meses atrás, ele perguntou por quanto tempo era e eu disse "é até você enjoar". Quarenta dias depois eu fui embora.

Hoje a tarde estive lá, e ele mentiu dor-de-cabeça pra não ir à escola. Tomou remédio pra dor-de-cabeça e daí mentiu dor-de-barriga. Ele queria era ficar comigo mais um pouquinho, e com tanta tia e avó e prima, ganhou a causa.

Deitou do meu lado no sofá pra ver desenho, mas eu sou adulta e não posso mentir dor-de-cabeça mais: chegou a hora de ir embora. Dei um beijo nele e daí ele me quebrou a razão: "Carol, por que você não vem ficar aqui de novo igual da outra vez: até eu enjoar e eu não enjoei!".



*Sobre o título: well, well, Gabriel.

11 outubro 2010

No plan, no gain

Feriadão badalado, né? SWU num canto, Interunesp no outro, todo mundo curtindo uma festa, uma praia, um churrasco. Eu? Eu fiquei em casa.

Até o momento, foram 3 filmes e mais uns 4 ou 5 episódios de The Middle, minha mais nova série-vício.

E porque eu não estou lá, vertendo lágrimas no show da linda Regina Spektor ou vertendo cerveja pra dentro e pra fora de meu corpo no Interunesp? Porque eu não sei me programar. É isso.

Há anos alimento um problema (e que agora descobri ser também um prazer) que me impede de conseguir me programar para qualquer coisa, por mais divertida que ela seja.

O que vem a seguir parece frase de texto que recebemos por e-mail, assinados por Arnaldo Jabor, mas é sério: conversava esses dias com um amigo e concluímos que as melhores coisas da vida acontecem de maneira inesperada. Principalmente as festas.

Você compra ingresso com um mês de antecedência, compra roupa e sapato, combina com os amigos, separa câmera fotográfica. Pode crer: vai ser fiasco. No mínimo, vai ficar abaixo das expectativas.

E então, numa noite de quinta-feira, você está na sua casa e resolve comer um lanche no bar da esquina. Chega lá e encontra dois amigos que te chamam pra uma cerveja. As chances de você voltar pra casa no dia seguinte às 8 da manhã depois de ter bebido 15 cervejas numa festa de pessoas desconhecidas são muito maiores do que se você tivesse programado beber cerveja numa festa de gente desconhecida.

Quando tudo é programado as chances de algo dar errado, matematicamente falando, variam entre 99% e 100%. Vai chover, você vai pegar gripe, vai esfriar. Seu amigo vai desistir, o carro vai enguiçar, a bebida vai estar cara.

Na minha vida foi assim: uma série de festas decepcionantes e outras tantas noites malucas que eu não programei, então agora morro de preguiça de fazer planos antecipadamente. Reforço positivo, behaviorismo explica.

E isso tudo não tem nada a ver com o estilo 'livin la vida loca' pregado por Rick Martin e difundido por jovens estrelas hollywoodianas e estudantes universitários (sinal: piada interna). É que, pra mim, qualquer compromisso assumido antecipadamente toma um ar de obrigação, e acaba perdendo a graça. Nunca se sabe como estará nosso humor no dia do compromisso.

Além do mais, sem compromisso marcado, as chances de alguém me encontrar em casa às 2 da manhã e me chamar para uma balada onde a diversão é improvável são maiores. E, claro, vai ser muito divertido.

Fecho, então, com outra frase de texto fajuto do Jabor: o que vale nessa vida, meus amigos, é o imprevisível.


*E às vezes, tudo que se quer é um feriado em casa assistindo filmes e séries até enjoar.

04 outubro 2010

Aquela nuvem que passa...


"Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu" é o título de uma historinha da turma da Mônica que eu lia muito quando era criança, na mesma época em que eu deveria ter começado a estudar inglês, como se faz hoje em dia.

A minha mãe mandava eu estudar inglês, mas eu só queria saber de aprender dança, depois teatro, inglês nada, já bastava a escola, aquela chatice, passar mais tempo sentada na frente de uma professora pra quê?

Hoje eu estudo inglês porque sei que é importante. Tenho prova quarta-feira, e ontem eu sonhei que pensei assim: "Carol, você precisa voltar no tempo para falar pra você estudar inglês".

Feito, voltei no tempo e lá estava eu grande, olhando pra eu pequena: uma nuvem!

Eu era uma nuvenzinha de rostinho cor-de-rosa e maria-chiquinha no cabelo, pequenininha, e ficava ali do lado dos pés da Carol grande.

A Carol grande deu o recado e a Carol-pequena-nuvem riu e se balançou, sem os pezinhos no chão, nuvem que era. É que ela não precisava de inglês, já que ia ser ajudante de mágico quando crescesse. E ajudante de mágico só precisa saber dançar e usar um maiô de lantejoulas.

Eu acordei e vim desenhar a nuvenzinha. Não adianta, criança sempre tem razão, eu que me vire com a prova de inglês.

05 julho 2010

eu bato palma pra louco dançar

Eu tenho muita sorte com cenas inusitadas, e esse mundo anda tão inusitado que eu não sei como pode haver gente que vive de mau-humor, olha só.

Hoje inventei de esperar o ônibus às 6 da tarde, e nesses horário sabe como é né, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que veio só olhar. E aí, do meio da multidão de trabalhadores, estudantes e mulheres com sacolas e bolsas surge ninguém menos, ninguém mais que o maluco. Toda cidade, toda vila e toda aglomeração tem o seu e eu dei muita sorte de hoje encontrar um dos bons.

Eu nem sei bem se era maluco, pois com a vida como tá quem sou eu para julgar lucidez, mas vamos lá. Magro, uns 30 anos, roupa suja, sandália de couro. Como maluco responsa – vou chamar de maluco, ok? - que é, já chega roubando a cena. Escolheu o ponto exato, aquele vazio no meio da multidão, e começou o espetáculo.”Se tem alguém aqui que fez aniversário hoje e não ganhou parabéns, não fique triste. Eu estou te dando parabéns. Desejo,do fundo do meu coração, que o seu dia seja lindo”. Depois, claro, pediu moedas. “Você, moça, parabéns. Agora pense em mim, que fiz aniversário hoje e não ganhei nada. Me arruma uma moeda pra comprar uma Tubaína”. E a moça fechava a cara, a outra também. Uma senhora dava dinheiro só para ele se afastar logo.

Eu me divertia muito com aquilo tudo, porque cada gesto e cada palavra eram teatrais, lembrando uma imitação muito bem feita – e não vou dizer exagerada, porque eles são naturalmente exagerados – de um pastor de igreja evangélica. “Deus te abençoe”, seguia ele. “Pensa no pobre irmão que nenhum presente ganhou”.

E aí, no meio do discurso – porque a vida imita a arte, sim senhor – encosta um ônibus com um rapaz careca sentado na janela, ao lado de uma moça que bem não pude ver. Justamente nessa hora - que o destino não é de pisar na bola - o maluco da calçada olhava para o ônibus que parou. Deixou os agradecimentos a Deus na metade porque na vida dele acontecia, naquele instante, algo mais importante.

Ele correu pra baixo da janela do careca, deu dois tapas na lataria do ônibus, jogou as mãos na cabeça, desacreditado “Saaapooo! Caaaaraaaalho, é o Sapo, velho. Casou, rapaz? Tá noivo? Tá noivo!” E compartilhava com as pessoas do ponto de ônibus, ainda que ninguém desse atenção: “O Sapo tá noivo, cês viram? Tá noivo, filhadaputa!”.

O ônibus partiu levando o Sapo e a noiva, e o maluco continuou, e contou para quem quisesse ouvir que o Sapo era o melhor traficante que ele conheceu, o Sapo não tinha medo de matar ninguém, e olha só, o Sapo tava noivo! O Sapo encontrou Jesus. Saiu olhando pro chão, sorriso no rosto, balançando a cabeça. “Jesus faz cada uma...E eu?”. No sentido contrário vem um homem sério, brusco tira o cigarro da boca e lança pra si mesmo, baixinho, mas eu ouvi “Você tá aqui enchendo o saco”. E continuou amargo.

20 fevereiro 2010

Irrelevantemente relevante

São seis menininhas sentadas frente a frente, na grande mesa de madeira do pátio da escola. Três de um lado, três do outro. Cinco estão ansiosas e a sexta, ao meio, no lado direito, faz mistério. Não têm mais que seis anos cada. Todas já cantaram “meu lanchinho, meu lanchinho”, agradeceram ao papai do céu, tomaram o suco das garrafinhas coloridas e agora esperam pela revelação do segredo. Aquela que faz mistério segura uma caixinha de papelão. A outra, ao seu lado, pede: “abre”. Ela ri, como quem sabe de algo mais que as outras, e obedece. De dentro da caixa sai um ovo. Ela fala que não, não é um ovo: o nome daquilo e CA-SU-LO, olha só, é macio. E aperta um pouquinho. A que está sentada à sua frente faz o mesmo, com o dedo indicador. A dona do casulo manda um tapa na mão da amiga: não pode, só eu! E então avisa: olha só, vai sair, fica olhando. E acontece. Do pequeno buraco no canto do casulo surge o bichinho. Pequeno, branco, mole. A vida acontecendo diante do olhar curioso das menininhas. Duas se encolhem, segurando os joelhos, os pés sobre o banco. Uma, cotovelos sobre a mesa, se aproxima do bichinho. Outra coça a cabeça, de boca aberta. A dona do casulo sorri, observando as reações. A sexta menina, sentada no canto, no lado esquerdo da mesa, olha assustada: o bicho vai em sua direção. Ele segue, inocente e rastejante, enquanto cresce diante dos olhos da pequena menina. As outras estão admiradas. Ela olha para próprios pés, tira a melissinha e, num gesto ligeiro, antes que a dona do casulo pudesse interceder, esmaga a lagartinha. Levanta e vai brincar no balanço: coisa idiota que é bicho-da-seda.

***

Era isso que eu devia ter feito, 20 anos atrás, pra hoje não fugir que nem besta quando chega a época em que os coqueiros se enchem de lagartas.


*Depois que escrevi este post, minha tia (oh yes, a família lê) atentou para o fato de que o que sai do casulo é a borboleta, não a lagarta. Faz sentido. Porém, a cena é clara na minha memória: lagartinha saindo do casulo. Resolvi perguntar ao @MarkinDoMatto, que é veterinário e agrônomo e disse o seguinte: "ela entra no casulo como lagarta só sai qdo é borboleta... ela pode ter saido pq a menina estava manipulando um casulo que deveria estar paradinho enrolado numa folha...". Faz sentido, too. E sorte minha ser medrosa. Eu poderia ter matado uma pobre lagartinha prematura.

13 fevereiro 2010

Mais de mil palhaços no salão

Quando eu tinha dois anos me pintaram de oncinha, me jogaram em cima de um caminhão e falaram “dança, Carol, é carnaval”. Eu não lembro de nada disso, mas as fotos não me deixam mentir.
Desde então, eu sou do carnaval. Apesar da paixão que vem de longe, tive minha fase de ódio pelo feriado da alegria. Com ódio ou com amor, sempre aproveitei para cair na farra ou dormir muito e tomar um solzinho. Acontece que esse ano fui, ai sim, surpreendida: estou trabalhando em pleno carnaval. Não posso dormir até ter dor nas costas, nem tomar sol e muito menos cair na farra. Resta-me o que? Vir aqui e escrever bobagem. Vá lá:



Cinco motivos para amar o carnaval:

1.É feriado
2.Há festas em todos lugares: clube, rua, chácara, praia.
3.As mulheres podem usar microshort e os homens podem se vestir de mulher que ninguém vai falar nada
4.Bebidas, pessoas, farra, bebidas, tudo liberado, uhuuu!
5.Acontece uma vez por ano e – com exceção da Bahia – dura só quatro dias.


Cinco motivos para odiar o carnaval
1.As lojas estão fechadas, os ônibus mudam de horário, as pessoas desaparecem. Um saco.
2.Em qualquer festa que você vá, vai tocar axé.
3.As pessoas teimam em se vestir de modo ridículo.
4.Carnaval é coisa de gente reprimida que não pega ninguém o ano todo e aproveita a desculpa da “liberação total” pra ver se sai da seca.
5.Dura QUATRO infinitos dias.

Tá, e nessa categoria tem mais uma: carnaval da Globo na TV. Carnaval este que eu estou sendo obrigada a assistir todos os dias. Maldita a hora que eu, quatro anos atrás, assinalei na ficha de inscrição: COMUNICAÇÃO SOCIAL COM HABILITAÇÃO EM JORNALISMO.

Beijos e juízo, crianças.

27 dezembro 2009

Feliz 2010

Toda vez que alguma coisa dá merda – família, trabalho, gripe, falta de grana - a primeira coisa que vem na minha cabeça é aquela frase do Scar (isso mesmo, o tio do Simba, de O rei Leão) “a vida não é justa, não é mesmo?”. Ouço a voz dele, cínica e sarcástica, a ressoar dentro da minha cabecinha confusa. E agora que 2009 está pra acabar, eu lembro em quantas vezes essa frase apareceu nas minhas noites, nos meus dias. Mas hoje, não sei se é porque o ano está acabando e a gente sente uma obrigação de colocar tudo em ordem pra começar de novo, essa frase não faz sentido algum e depois dos quase 365 dias que passaram, eu agora me sinto extremamente confortável para sentar na sacada e cantar piña colada song. Por que é um puta de um clichê, mas é verdade que no fim dá tudo certo. Mesmo que seja mais clichê ainda acreditar que todo fim de ano é necessário fazer um balanço do ano todo. E, se no início do ano eu, do alto do meu desespero, fiz uma lista de coisas que queria para 2009, sinto que deu certo.
Então, como estou feliz – e desejo que todos vocês também estejam – vou deixar aqui um presentinho:

Receita de Piña Colada

Ingredientes:
1 dose de rum claro
gelo triturado
2 colheres (sopa) de creme de leite
2 colheres (sopa) de leite de coco
1 dose de suco de abacaxi
Junte tudo e bata na coqueteleira, mas pode ser no liquidificador também.

Bebam e andem na chuva, porque a vida às vezes não é justa, mas sempre dá pra se divertir. Que venha 2010.

21 dezembro 2009

George Orwell falou, George Orwell avisou

Em 1948 um cara chamado George Orwell escreveu um livro imaginando como seria nossa sociedade no ano de 1984. Ele chutou que o futuro não seria uma coisa muito divertida. Viveríamos sob a vigilância de um governo totalitário que estenderia seus olhares para o interior de nossas casas, através de grandes telas penduradas nas paredes. Nunca saberíamos se a tela nos vigiaria o tempo todo ou somente nos momentos em que o nosso grande chefe político apareceria para fazer pronunciamento e, assim sendo, acabaríamos nos autovigiando.
Eu não sei como era a sociedade em 1984, porque nasci em 1985 e só comecei a reparar nas coisas lá por 88. Mas afirmo uma coisa: com relação à vigilância, o senhor Orwell errou por uns anos e isso não é novidade pra ninguém. Hoje todos sabem que vivemos em uma sociedade vigiada. Há cidades com câmeras em praças públicas e há os malditos celulares com câmera. A discussão sobre segurança x privacidade, que parecia coisa tão moderna, hoje já está bem batida.
Mas eu acho que há uma nova discussão, que sei não se alguém já parou pra pensar: essa tal de sociedade vigiada pode ficar muito chata.
Veja só o caso da dona Ione:



Certeza que você já viu esse vídeo. Se não viu, ouviu falar. Se não, olha só, ta vendo agora. A Ione, assim como todo filho de Deus, saiu pra tomar um chopinho. Tomou um, dois, dez. Tanto faz. E daí, talentosa que é, resolveu mostrara a todos o que sabe fazer. Fosse há 10 anos, os amigos comentariam, a galera da banda chegaria em casa e falaria que uma louca subiu no palco e fim. Mas hoje a Ione está aí, em blogs e twitters, fazendo a alegria da galera.
Tem também a ex do Pedro, que quis armar um barraquinho básico (quem é que não tem vontade de vez em quando?) e nem preciso falar no que deu, né.
Eu sei que todo mundo curte essas coisas porque nos faz sentir mais normais. Faz ver que todo mundo é meio maluco e tal.
Mas eu, que sou super entusiasta da piração esporádica, vejo um grande problema nessa mania de cinegrafar tudo. Todo mundo ai – ou quase – tem família, amor, trabalho, nome pra zelar. Com o perigo de virar o novo ‘mais acessado’ do youtube, as pessoas vão enlouquecer menos. Cantaremos menos, beberemos menos, não correremos pelados. Sobrarão os exibicionistas, que sabem que estão sendo filmados, e isso não tem graça nenhuma.
Seremos todos muito comportados e com uma enorme energia de piração acumulada.
George Orwell sabia o que dizia quando falava da vigilância e do comportamento extremamente regrado. Por isso, queridos, se não querem viver num lugar chato, deixem as câmeras em casa e esqueçam os celulares. Ninguém tem obrigação de ser correto o tempo todo. Todo mundo tem o DIREITO de enlouquecer de vez em quando.

24 novembro 2009

Padrão de beleza, #comofas?

Homens, preparem o sorriso para o que vão ler agora: eu não entendo as mulheres!
Isso mesmo, não entendo. Sou uma delas, mas ouço umas coisas por aí que simplesmente não fazem sentido. Elas sofrem com dietas e sapatos de salto e reclamam que o mundo é mau e só as magras têm vez.
Então, aparece uma mulher-fruta ou uma Priscila Pires – quem mede 1,60 e é beeem cheia de curvas – e a mulherada olha feio, desdenha e diz “gorda”. E depois reclamam que a mídia só quer saber de mulher gostosa, que é o império da boa forma, que gordinhas não têm vez e blá blá blá.
Daí aparece a Preta Gil, se orgulhando das gordurinhas e todo mundo avacalha com a auto-estima da menina. Confuso, né?
Mas, na verdade, eu também não entendo os homens. Até certo ponto, eles são mais coerentes do que as mulheres. Uns dizem: gosto é de carne; e pode aparecer Melancia, Melão, Priscila, o que for, que eles estão babando. Outros dizem: gosto de mulher magra e então admiram-se por Deborah Secco, Ana Hickman e Gisele Bundchen. Homens gostam e pronto. Não questionam, não inventam história. E também não se preocupam se o que está na moda é ter o físico do Rodrigo Lombardi ou do Humberto Martins, porque são questões irrelevantes para o universo masculino. Não vamos entrar no mérito do profissionalismo de cada uma das mulheres citadas neste texto, porque é certo que algumas estão na mídia por motivo duvidoso. A questão é forma física.
Então aparece a Preta Gil e eles - contradizendo todo o bom-senso (ou a falta de critério) masculino - chamam de gorda, de baleia e fazem piadinhas – e aqueles que não fazem, riem das piadinhas dos outros. As meninas concordam, riem e chamam a moça de ridícula.
Eu penso que mulheres iguaizinhas a Preta Gil existem aos montes nesse nosso brasilzão. Eu mesma posso citar umas 5 conhecidas sem precisar forçar a memória. O corpo da mulher brasileira, em geral, está muito mais para cheinho do que para modelo de passarela. Magras e altas são exceção. Então você, rapaz, me diz: com quantas modeletes você já ficou nessa vida? Tenho certeza que muitos desses rapazes que fazem piadinha já ficaram com vááárias menininhas à lá Preta Gil. E duvido que tenham feito piadinha no dia seguinte. Ao contrário, se falaram alguma coisa, foi que a menina era bem gostosa.
Ou seja, Preta Gil tem aos montes por aí. E rapaz nenhum para pra fazer piada. Só posso concluir que o que incomoda na moça é a auto-estima elevadíssima que ela tem e não faz questão de esconder. Porque homem, sabe como é: bicho meio inseguro.
Já as mulheres, não há explicação. Elas são confusas por natureza.




*Como escrevi esse texto faz tempo, as referências e exemplos são bem do "semestre passado". Fiquei com preguiça de pesquisar quem tá na moda agora, sorry. (:

25 outubro 2009

Lições de picaretagem para manter a casa em ordem

Depois de uma semana cheia, quando finalmente pude parar para comer, respirar e voltar a viver, tive que procurar a minha cama em meio a todas aquelas roupas, livros e sapatos. Quando recobrei a consciência - porque se tem uma coisa que me faz perder a cabeça é falta de tempo -, percebi que era hora de arrumar o quarto. Perdi uma tarde dobrando, guardando, varrendo e separando: isso vai pro lixo, isso não.
É que nessa minha semana caótica, eu simplesmente ignorei coisas que aprendi nesses três anos de vida em república. Nesse meu tempo de vida longe da casa da mamãe desenvolvi técnicas de como manter uma casa arrumada para poder adiar a grande faxina.
Então, achei legal colocar aqui umas dicas da mais pura picaretagem: como fazer sua casa parecer que está arrumada.

1. Tenha tapetes. Pelo menos um na entrada da casa e outro na frente da porta do banheiro. Um em frente a pia também pode ser muito útil. Eles evitam que você leve sujeira ou água para o resto da casa depois de chegar da rua, lavar a louça ou tomar banho.

2. Mantenha o hábito de tirar o lixo da sacolinha antes de transbordar. Uma vez que a sacola – ou o cestinho – está cheia, a tendência é que o lixo acabe caindo no chão. E quanto mais lixo no chão, maior a preguiça de limpar e aí, mais lixo no chão.

3. Aprenda a jogar fora coisas inúteis. Se você nunca irá pedir uma pizza de atum que custa 35 reais, pra que guardar o panfleto daquela pizzaria?

4. Entre deixar o tênis no meio do quarto ou embaixo da cama, fique com a segunda opção. Em um dia que você trocar de sapato 3 vezes, isso vai fazer toda a diferença.

5. Aprenda a tirar os restos de comida do ralo da pia. Deixar a sujeira acumular ali é a pior coisa que você pode fazer. Acredite: desentupir uma pia não é nada agradável.

6. Se não dá tempo de lavar a louça, vai a dica: brinque de encaixar. Isso mesmo. Coloque o copo menor dentro do maior. O copo maior dentro do pote e o pote dentro da panela. Sobrou um cantinho na panela? Coloque a xícara. E os garfos e facas você já sabe: é só colocar dentro do copo. Pronto! Guarde essa obra de arte na pia – mas não em cima do ralo, senão a água não desce e você cria uma piscininha.
Assim, fica parecendo que sua pia está limpa e que só tem umas coisinhas ali no canto pra lavar mais tarde.

7. Tenha um cesto de roupas no seu quarto. De preferência, um colorido, bontinho. Essa é uma dica que eu ainda não coloquei em prática, mas quando vejo minha cama coberta de vestidos e camisetas, penso no quão útil isso seria. E colorido e bonitinho porque, né, deixa tudo mais alegre.

8. Essa serve para as meninas: tenha um mancebo. E não, não estou falando de um belo rapaz guardado embaixo da cama, todo disposto a aliviar sua tensão. Mancebo, para quem não sabe, é esse objeto aqui, coisa que no tempo da sua avó servia para pendurar chapéus, mas que hoje é ótimo para pendurar bolsas, mochilas, casacos, colares e ainda sua toalha de banho. Chegou cansada e quer cair na cama? Joga a jaqueta lá! Sua cama e seu chão ficam lindos. O mancebo também pode substituir o cesto de roupas sujas em alguns casos, mas não recomendo se você demora muito para lavá-las: ele pode ficar muito cheio e tombar.

9. Arrumar a cama é total perda de tempo, eu sei. Mas que dá uma impressão de quarto arrumado, isso dá. Então, pra quem não curte muito ficar dobrando e guardando, a dica é: quando acordar, estenda seu edredom sobre todas as outras coisas: lençol, travesseiro, pijama. Vai parecer lindo e à noite é só entrar embaixo.

10. Mantenha o tapete e as almofadas da sala no lugar. Mesmo que o chão esteja sujo e os móveis empoeirados, vai parecer que as coisas estão onde deveriam estar, tudo lindo e bem organizado.


Aceito outras sugestões porque atualmente tempo é o que me falta e preguiça é o que me sobra.

22 outubro 2009

Shit happens


Peguei uma gripe, fiquei sem dinheiro e descobri que o TCC é pra ontem. Fui até o assentamento fazer as entrevistas que faltam e, no meio do caminho, choveu. Tudo virou lama, me molhei e passei frio. Um caminhão, em alta velocidade, por 10 centímetros não me mata. Chegou o dia de pagar aluguel e nada de dinheiro na minha conta. E falando em conta, a de luz chegou e veio cara. Somado a tudo isso, estou de TPM.

Não precisei quebrar a cabeça para entender: parabéns, garota, é o seu inferno astral! Para os menos ligados em astrologia, inferno astral é o mês que antecede o seu aniversário. É a época em que você tem grande tendência de se afundar numa depressão ou de entrar de cabeça numa maré de azar. Ou entrar de cabeça numa maré de azar e então se afundar na depressão!

Como depressão é coisa que não me pega, restou a falta de sorte. E ela veio toda acumulada em uma semana. Uma terrível semana.

Tudo deu errado e, pra piorar, meu quarto virou uma bagunça devido à minha falta de tempo, resolvi arrumar hoje e sinto que ganhei uma hérnia de disco.

Mas quem me conhece sabe que sou uma pessoa que tem fé na vida, e aí, eu que curto astrologia mas não sou nenhum João Bidu, lembrei que uma vez ouvi a expressão “paraíso astral”. Criei esperança, dei um google nela e descobri nisso aqui: “Paraíso Astral é o oposto de Inferno Astral, quando tudo parece funcionar perfeitamente bem, ou pelo menos em um nível melhor “.

E aí, no mesmo sitezinho bacana que me forneceu essa informação, coloquei o dia do meu aniversário e descobri que meu paraíso astral vai de 03 de abril a 03 de maio. Foi então que tive certeza que estou mesmo no inferno astral, porque até o meu paraíso astral resolveu me sacanear e aparecer SÓ NO ANO QUE VEM!
Ou seja, as coisas, pelo visto, só andarão bem em 2010. Pois bem. Tratarei de arrumar dinheiro – manhê! -, terminarei até amanhã meu TCC, lavarei meu tênis que antes da lama era branco, comprarei chocolate e mandarei o paraíso e o inferno à merda. Logo mais é meu aniversário, o inferno vai passar e mesmo que não venha o paraíso, as coisas vão ficar bem. Aconselho aqueles que passam pelo inferno astral que façam o mesmo: mandem-no à merda. E aqueles que estão prestes a entrar no maledeto período, que se previnam com guarda-chuvas, chocolates e atenção ao atravessar a rua. E à todos, deixo a dica válida para o dia 03 de novembro: chocolates me apetecem.

07 setembro 2009

Salve, salve a pátria amada

Ontem vi aquela senhorinha amiga do rei Roberto Carlos, a dona Vanusa, no programa do Gugu, explicando porque errou a letra do nosso tão poético hino nacional. Ela falou dos remédios que toma, da ansiedade, do problema com os óculos e arrematou com uma frase enfática: “Ninguém sabe cantar o Hino Nacional. Ninguém!”.
Pois eu venho falar em defesa de todos aqueles que sabem que o belo, forte e impávido colosso não tem nada de risonho.
Durante 4 anos da minha vida – da quinta à oitava série – fui obrigada a cantar o hino nacional diante da bandeira. Toda quarta-feira era a mesma história: chegávamos na escola, deixávamos o material escolar na carteira e íamos para o pátio. Lá ficávamos, remelentos e sonolentos, em filas diante da bandeira do Brasil. A professora responsável por cada sala caminhava ao lado da fila observando se havia algum aluno mascando chicletes, cochichando ou dormindo em pé. E a diretora nos observava do alto da escada, rabugenta e orgulhosa.
Então hoje as pessoas dizem que as escolas não são mais as mesmas, que com o tempo as coisas só pioram e que não há mais respeito. E aí que, depois do episódio da dona Vanusa, eu fico na dúvida, porque pelo visto a escola onde ela estudou anos e anos atrás não ensinava o hino aos seus alunos, nem mesmo na semana da pátria. Porque a letra é difícil sim, mas pelo menos o ritmo todo mundo sabe; até os jogadores de futebol. Só a dona Vanusa é que não aprendeu. Ou então, coitadinha, foi pega pelo tal do Alzheimer – que é o que eu penso toda vez que vejo aquele vídeo, ela lá, com penas rosas no cabelo, cantando linda, loura – e louca.