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29 outubro 2013

bruxas

eu tenho um amigo que não usa celular, nem facebook e que me escreve e-mails apenas para mandar uma música bonita ou um texto emocionante. esse mesmo amigo passa horas falando de uma única poesia, toma mais chá que o normal, gosta de andar a pé e se encanta com pequenos gestos de delicadeza. esse meu amigo tende a dar muita atenção às coisas intangíveis da vida.

e eu acho que as pessoas que têm essa tendência acabam encontrando pelos caminhos da vida outras pessoas que dispensam grande atenção às coisas sem valor material (mas que servem para enriquecer a alma).

por isso, uma vez esse meu amigo, durante uma viagem, acabou encontrando um senhor que além de fazer artesanatos se dizia criador de sacis. e meu amigo, por valorizar as pequenas histórias e delicadezas, parou para ouvir o homem.

entre outras coisas, o homem criador de sacis contou uma história sobre as bruxas. e todo ano nesta época de fim de outubro, dia das bruxas, um outro amigo que também gosta de coisas intangíveis faz questão de me lembrar e pedir para repetir a história.

o senhor contou que no brasil existe muito saci, mas não existe bruxa alguma. que a terra das bruxas é a europa, mas nesta época do ano elas pegam as vassouras e voam para cá. passam uns dias por aqui, depois voam de volta para casa.

o homem deu detalhes, e o mais surpreendente deles é o motivo que faz essas bruxas viajarem quilômetros sentadas numa vassoura. elas vêm até aqui para chupar cana. sim, porque as bruxas, de acordo com o criador de sacis, também dão mais valor às coisas pequenas e desimportantes.

23 janeiro 2013

caminho de girassóis

Eu perco fácil o fio do pensamento. Posso estar para concluir a frase, bate um vento e puf: esqueci.

Um dia, faz tempo, a gente andava de carro numa estrada cercada dos dois lados por plantação de cana de açúcar, e meu pai dirigia. Notei que ele cismou em olhar pra cima, quase perdendo rumo da estrada, que por sorte era vazia. Olhou bastante tempo, depois mostrou para mim que ia acompanhando com os olhos o voo de um passarinho, que parecia que seguia o carro. Vai saber quem seguia quem.

Outra vez eu ia de fusca com meu irmão por uma estrada que ele já conhecia, eu ainda não. Por uns 10, 12 quilômetros, ele foi apontando girassóis perdidos no acostamento: parecia que ele já tinha decorado a moradia de cada um. Avisou: vai ter mais uns dois no canteiro do meio, depois acaba. E assim foi. Daí ele falou da teoria que ele mesmo desenvolveu sobre um caminhão de sementes que passou derrubando os embriões de girassol. Quase todos voaram para o acostamento, e dois para o canteiro central da pista. Achei bonito porque quase ninguém que passa por aquela estrada nota os girassóis.

Eu sou muito desligada deve ser por isso: nasci numa família de poetas.

12 setembro 2012

iphone 5



Soube pelo twitter que lançaram ou vão lançar o iphone 5. Eu não sei muita coisa sobre isso, pra ser sincera não entendo quase nada, mas uma amiga minha comprou um iphone (não o 5, o 4 talvez) e vi que é muito bom para tirar fotos, baixar revistas e fazer um treino de corrida, além de telefonar. Achei ótimo porque são três coisas que me parecem bastante úteis, mais do que telefonar. Ainda assim, não me entusiasmei o suficiente para gastar boa parte do meu salário - se não ele inteiro - naquele aparelho bonitinho.

Quando eu li no twitter sobre esse mais novo lançamento do mundo das incríveis tecnologias, meu primeiro pensamento foi: se ele varresse a minha casa eu comprava um nem que tivesse que voltar a usar cartão de crédito e me endividar mais uma vez.

Deve fazer um mês ou mais que não varro minha casa. Virou um ciclo: tive uma semana muito cheia que coincidiu com o início da estiagem do nosso mês de agosto. Sem tempo para varrer, a poeira acumulou. Acumulou tanto que minha coragem sumiu, deve ter ficado soterrada pela camada de pó nos cantos da sala. 

Eu lembrei que sou livre para interpretar as coisas como bem entender, e então pensei que não sou o tipo de pessoa que varre a casa. De acordo com Jung ou algum desses testes de internet, tenho personalidade corajosa, com alto teor de desinibição, bastante criatividade, e agora também mais essa: pouca coragem para varrer a casa. 

Olhava para o tapete sujo quando notei uma coisa ainda pior: minha bolsa no chão. Minha mãe fala que deixar a bolsa no chão afasta dinheiro, então corri colocar ela sobre a cadeira, senão nunca terei dinheiro, um iphone e uma casa com o chão limpo. Sempre há uma esperança.

18 julho 2011

harry potter e o disco voador

Em 1997 meu pai falava pro meu irmão não ter medo porque extraterrestre não existe de verdade, só no filme; eu falava que existe sim; minha irmã tinha só um ano e Harry Potter era um livrinho aí sobre um menino bruxo.

Agora, Harry Potter acabou.

E o último filme chegou aos cinemas na mesma época em que meu pai fez seu primeiro contato com extraterrestres. Eu fui ver o último filme no cinema com a minha irmã que já leu todos os livros da série.

Minha irmã ainda é um pouco criança e chorou, além de que, ela lê Harry Potter desde pequena, deve ser mesmo um pouco triste ano que vem não ter Harry Potter. Eu não sou mais criança e não cresci lendo nem assistindo Harry Potter, então não chorei, apesar de ter ficado assim: fascinada. É emocionante sim, parem de bobagem.

Claro que meu pai não assume que era uma sonda alienígena e quer acreditar que é vagalume ou alguém com lanterna, mas se a gente manda satélites, robôs, sondas e Marcos Pontes pra lá, por que é que eles não podem mandar as inocentes sondinhas deles pra cá? Mas isso é outra história.

Eu sempre acreditei que existem extraterrestres, mas antes eu confundia um pouco as coisas. A primeira vez que vi uma nave eu era muito criança, e talvez nem fosse nave, bem possível que fosse só um balão ou uma asa delta, mas foi no mesmo dia que eu estava na casa de uma amiga e a mãe dela se arrumava para ir a um velório. A Juliana estava com medo de ficar sozinha em casa enquanto a mãe ia pro velório ver gente morta e como eu ainda não tinha medo de ver morrer gente, tive medo do disco-voador e achei que o medo da Juliana era isso também, e achei ainda que era assim: toda vez que morria gente passava disco-voador no céu. Como disse: eu era criança.

Falei pro meu pai que bem difícil aquela luz ser gente com lanterna ou vaga-lume. Meu pai começou a pesquisar sobre luzes e descobriu que algumas aparecem nos meses de junho, julho e agosto. De alguma forma, o ciclo de ceticismo do meu pai se encerrou na mesma época em que acabou o Harry Potter, o que não quer dizer absolutamente nada além de que: eu ando cada vez mais dada a misticismos.

Meu mapa astral de hoje disse que a criatividade estaria em alta e eu ia ter vontade de escrever; que ando com a cabeça nas nuvens sem motivo aparente; e que seria difícil me concentrar no trabalho, mas extremamente fácil perder tempo a pensar bobagens.

31 maio 2011

um post quem não é bem um post

Se você tem uma pessoa que gosta das mesmas cores que você, das mesmas músicas que você e tem os mesmos objetivos de vida que você, você tem sorte e pode ter alguém com potencial para ser um bom amigo seu.

Se você tem alguém que se irrita com você, que discorda de você, que te xinga e ri da sua cara, mas ainda assim está do seu lado, que discorda de uma bobeira ou outra que você faz, e então briga, mas ainda assim te liga, te chama pra sair e te dá um presente, você tem um amigo de verdade.

Meu nome ia ser Marília, e eu acho bem bonito. Mas aconteceu assim: cheguei antes da hora. Surpresas mudam o fluxo das coisas, vocês sabem, e deu na cabeça do meu pai de cantar que “lá fora amor, uma rosa nasceu”. Meu nome ficou Carolina.

Fosse Marília, o rumo seria outro e talvez eu não tivesse um dia encontrado por aí a dona das palavras que seguem:

Seus pais não podiam te acertado mais na escolha do teu nome. Só de pirraça virou o avesso da música. Vc se joga, espalha todo o amor que tem e inventa. Vê e aproveita cada minuto que passa, de fora da janela, de preferência. É quem samba e fica até o fim da festa...

Se é verdade eu não sei: só me vejo a partir do meu ponto de vista, limitado pela minha cabeça pequena de Carolina.

Ela, a dona do que foi dito acima, se irrita porque eu fico até o fim da festa, não é de hoje. E, ainda assim, ela está do meu lado não é de hoje.

Os cientistas dizem que nosso cérebro só é capaz de catalogar 5 amigos próximos (e, assim, considerá-los próximos: mais que isso é só amigo distante, colega, conhecido). Além dela, existem outros que são bons em ser amigos próximos, então, foi assim: ela foi promovida a irmã.


*e só pra lembrar: quem não votou no top blog pode votar, só clicar AQUI.

02 maio 2011

a benção, zé

minha mãe me liga chorando: zé mandioca morreu.

e quem é esse com apelido tão digno de conotações e denotações, me perguntam vocês.

era - agora - um bêbado, velho, sozinho no mundo. nos últimos tempos não passava disso. no mais, sempre desempenhou bem o seu papel de maluco de praça de cidade do interior, desses que cada qual cidadezinha tem o seu.

eu não sei porque minha mãe chorava, mas eu bem posso imaginar se tomar por base o que representou para mim o zé. eu me lembrava dele das épocas em que eu, lá com 5 ou 6 anos, ficava na varanda do sítio e ele aparecia para trabalhar daquele jeito de quem chegou da cidade com 'sangue nos zóio', como se diz: vinha de longe trançando as pernas.

meu vô (outro que já faz falta, menos por feitos heróicos, mais pela personalidade excêntrica e cativante) ralhava com o zé, mas ele não se importava e todo dia tratava de dar as caras no bar.

é certo que meu vô deve ter dispensado os trabalhos dele, porque não há patrão que aguente o bafo da cachaça e toda a indisciplina que com o tempo ela impõe ao peão.

o zé sumiu pra um lado, eu sumi pro outro, duartina virou um parênteses entre a minha vida e a vida do homem que usava chapéu de palha.

coisa de 18 anos depois eu voltei pra morar mais uma vez no sítio e o zé, quem diria, virou vizinho. arrumou ele também uma casinha no sítio ao lado e foi provar que há coisas que nunca mudam.

apareceu e eu reconheci de longe: chapéu de palha e o mesmo trançar de pernas. chegou pedindo café e logo foi mandando: 'como tá bonita a carolina'.

eu reconheci de longe mas duvidava que ele, com tantos anos e goles na cabeça, pudesse ainda lembrar de mim. pois lembrou.

cada um escolhe a forma que quer pra fazer as pessoas serem importantes pra vida delas. eu escolho essa: a poesia que elas têm sem saber quem têm.

o zé morreu sozinho, sem velório, sem padre, nem vela, mas com choro meu.

minha intenção é fazer aqui pelo menos um post por mês e eu peço desculpas por maio começar triste. mas é que o vinícius falou que pra se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza e eu digo que não é só samba não.


*a notícia da morte do zé veio no dia da morte do osama. o zé escolheu o dia certo, pois a mim só fez parecer mais desimportante o que já era duvidoso. meus dramas pessoais têm muita relevância.

02 março 2011

contratempos

Fiquei doente e não pude comprar remédio sem receita, e também não havia tempo para marcar hora com doutor pra então conseguir receita. O ex-namorado pediu o carro emprestado, que na verdade é da minha mãe. Emprestei e ele bateu: nada grave, por sorte. Ele aproveitou a hora de devolver o carro pra trazer as últimas coisinhas que ficaram perdidas nas gavetas, prateleiras e cantos do apartamento velho: roupas, um pôster do filme 'cidade dos homens', laço de vestido, toalha de rosto, 3 estatuazinhas, uma boneca, um porta-jóias, um vidro com as 3 derradeiras gotas de perfume, um gravador, uma presilha, um blush, 3 fotos, duas bandanas, 4 livros, um gato-chinês-da-sorte, uma caixa de óculos-de-sol, uma vida. Dolorida, com tempo chuvoso lá fora, sem poder sequer tomar um gole de vinho, arrumei todas essas coisas que estavam sobre a cama, acalmei minha mãe 'o carro tá ótimo', dei um jeito de arrumar um remédio, parei, escrevi. Porque a vida segue e depois de amanhã é carnaval.


*e quem me ajudou na arrumação foi ela:

09 fevereiro 2011

bittersweet

Os livros, o jornal, a cerveja, os amigos, o sono, os meninos, as músicas, a família, a vaidade e a preguiça dividem meu tempo com ainda outra coisa: as lagartas. Minha vida é um eterno fugir delas: não passar embaixo de coqueiro, cortar a goiaba em pedacinhos, fugir das borboletas. Eu tenho medo.
E eu tenho irmãos. Não existe relação mais ambígua, confusa, enlouquecida, do que a de irmão-pra-irmão. Uma vez meu irmão me jogou uma lagarta preta e laranja: coisa mais feia que eu já vi. Eu gritei, corri, chorei e tive pesadelo, nessa ordem. Ninguém pode falar mal dos meus irmãos, mas eu posso. Eu posso falar que a Helô é muito chata pra tudo: roupas, músicas, filmes. Eu posso falar que o Franco sabe ser insuportável. Vocês não podem. Nesse dia meu irmão foi a pessoa mais ridícula que eu já vi. Eu queria ficar 3 anos sem falar com ele: durou 3 horas. Hoje ele me irrita por ser mimado, e a gente briga rotineiramente.
Eu sempre corto a goiaba em pedacinhos, e sempre escolho as vermelhas que é pro bicho não se esconder no branco da goiaba branca. Já achei muitos bichos, mas sempre faço assim: jogo longe a goiaba, depois pego bem no cantinho e mando pro lixo. Acaba, o bicho some.
Hoje eu só cortei a goiaba em dois pedaços, e mordi: eu devia estar muito confiante – ou muito despreocupada. Mordi e logo vi ali pendurado um pedacinho branco de qualquer coisa que mal pude reparar no que era: sai correndo, e a única pessoa por perto era meu irmão. Ele confirmou: tinha mesmo um bicho lá, mas falou que eu não mordi não, estava inteiro. Cortou o resto da goiaba em 30 pedacinhos pra me mostrar que olha, não tinha bicho nenhum mais, eu podia comer tranquila. O meu irmão é mimado, ele não sabe se virar sozinho. Eu divido meu tempo ainda com outra coisa: implicar com ele. Ele não sabe se virar sozinho, mas sabe cuidar da irmã mais velha que ele tem.

22 dezembro 2010

E assim foi

Enganei-me e pensei que tivesse superado. Na euforia da certeza da superação, e na ansiedade do novo, resolvi mudar móveis de lugar, como é de praxe: cortar o cabelo e mudar os móveis de lugar. Escolhi tirar do quarto um velho armário e já na primeira gaveta, veio o tapa na cara: uma dobradura em forma de coração, uma carta escrita a lápis e revistas ainda embrulhadas, com a data de dias que foram só projeto de dias, por onde passei tentando reencaixar em mim aquilo que eu ainda sabia de mim mesma: um final de outubro de fins de tarde tristes e noites mal dormidas.

Percebi o óbvio: não se tira pessoas da nossa vida de um dia pro outro. É brega, mas: há todo um processo. Depois da decisão, do choro, e dependendo do caso, do porre, só então vem o fim. O verdadeiro fim é aquele que acontece depois do fim: quando você entra no apartamento vazio, junta as roupas, toalhas, travesseiros, sapatos, que ficaram nos cantos, jogados pelo quarto desde aquele momento em que seu pensamento divagava sobre o fim – naquele momento, possível mas distante.

É aquele aceitar doloroso, e não há nesse caso dor metafórica: dói na boca do estômago, e um pouco na mandíbula. Vos digo: vai doer muito mais.

Não se vive de verdade com alguém sem compartilhar coisas: roupas esquecidas, música, pacto, carinho, apelido, gemido e dor. Pois bem: não se separa de alguém sem, ao longo de todo o processo, reencontrar as coisas compartilhadas: um bilhete na carteira, uma mensagem no celular, um filme que era vontade de ver junto, uma carta, uma foto, um remédio. Não se constrói nada às pressas, ao brusco, ao calor da paixão. Não se desfaz nada sem pequenas surpresas quando tudo – que engano! - já havia sido passado, superado.

O fim não é o momento quando você, aos gritos, decidiu que era fim – ou que, aos prantos, aceitou. O fim é um dia-a-dia, que às vezes se disfarça de alívio e alegria – mas que só quer ver até onde você é capaz de ir.


*Para ler ao som de Adriana Calcanhoto, que dor é pra doer.

O texto não é de hoje, mas só agora – que penso que superei – é que pude reler e, por fim, postar.

12 dezembro 2010

xote das meninas




Uma amiga foi quem falou: "sou meio borboleta: felicidade se encontra em pequenos descuidos".


Não é?

17 novembro 2010

04 outubro 2010

Aquela nuvem que passa...


"Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu" é o título de uma historinha da turma da Mônica que eu lia muito quando era criança, na mesma época em que eu deveria ter começado a estudar inglês, como se faz hoje em dia.

A minha mãe mandava eu estudar inglês, mas eu só queria saber de aprender dança, depois teatro, inglês nada, já bastava a escola, aquela chatice, passar mais tempo sentada na frente de uma professora pra quê?

Hoje eu estudo inglês porque sei que é importante. Tenho prova quarta-feira, e ontem eu sonhei que pensei assim: "Carol, você precisa voltar no tempo para falar pra você estudar inglês".

Feito, voltei no tempo e lá estava eu grande, olhando pra eu pequena: uma nuvem!

Eu era uma nuvenzinha de rostinho cor-de-rosa e maria-chiquinha no cabelo, pequenininha, e ficava ali do lado dos pés da Carol grande.

A Carol grande deu o recado e a Carol-pequena-nuvem riu e se balançou, sem os pezinhos no chão, nuvem que era. É que ela não precisava de inglês, já que ia ser ajudante de mágico quando crescesse. E ajudante de mágico só precisa saber dançar e usar um maiô de lantejoulas.

Eu acordei e vim desenhar a nuvenzinha. Não adianta, criança sempre tem razão, eu que me vire com a prova de inglês.

18 agosto 2010

6 da tarde

Nos tempos em que eu dormia toda tarde às vezes acontecia de eu acordar já com o pôr-do-sol, ali pelas 6 ou 7, depende da época do ano. Levantava meio zonza, de cara amassada e demorava uns certos minutos para me localizar no espaço, no tempo e até naquela definição de quem sou eu.

Se fosse preciso ilustrar essa sensação de forma exata, hoje eu citaria o “sem ana blues”, do Caio Fernando de Abreu, na parte que ele fala do corredor do transatlântico, guardadas as devidas proporções, porque nunca um amor tinha ido embora, era só um acordar num fim de tarde.

Quando meu pai me via nesse momento, sempre, invariavelmente, dizia: “esse é o pior horário pra acordar. A gente fica meio besta”. Ele diz isso ainda hoje, mas eu não ouço mais porque não me ocorre mais de acordar nessas horas e porque, ainda que ocorresse, eu não moro mais com meus pais.

Eu não sei se foi de tanto meu pai repetir, ou se ele repetia de tão forte que é o sentimento, mas é uma verdade: o pior horário para se acordar é o fim de tarde.

Vou além. O fim de tarde – não o finzinho por volta das 5, esse é o desenho da tranquilidade; falo do quase-noite, de quando o céu sai do cor-de-rosa e o que resta de colorido é uma faixa de laranja, o resto é meio cinza, meio azul – é o pior horário para se viver.

Qualquer coisa fica mais triste por essas horas, é tudo mais dolorido. Pense pegar um ônibus às 6 da tarde, olhar pela janela e falar tchau. Lá longe, a noite chegando, e estrada que não acaba. A dor triplica. Pense acabar um livro, depois de um mês de leitura. Não há coragem que deixe terminar a última página, fechá-lo e colocá-lo num canto às 6 da tarde. Fazer comida às 6 da tarde não dá, passar um café não tem jeito, tudo vai cheirar saudade, tudo vai ser uma tristeza.

Deve haver explicação física ou astrológica para isso, deve ser a hora que as partículas de passado se assentam pra deixar o dia seguinte chegar, vai saber. Um coisa é fato: ninguém deveria ser sozinho ás 6 da tarde. Nas outras horas, dá-se conta.

05 agosto 2010

Das coisas que todos deveriam conhecer

O Bracin lançou a proposta e eu topei: responder à pergunta “o que é que todo mundo deveria conhecer?”. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a sarjeta, eu, menina do interior, romântica e ingênua que sou. Mandei a resposta e depois fiquei a pensar sobre ela. Segue aqui a explicação dessa minha tão simplória escolha – com alguns outros detalhes.


Não há no interior pessoa que nunca tenha sentado na sarjeta. Nas cidades bem pequenas, é hábito desses que ninguém sabe de onde foi que surgiu: senta-se com um sorvete ou uma mexerica nas mãos.

Surgem os vizinhos, juntam-se os familiares. É onde se vê o sol ir embora na tarde de verão. É onde, quando pequenos, vemos plantinhas crescendo ao lado dos nossos pés descalços e sujos de terra. Sua avó pode estar ao seu lado, contando uma história, uma fofoca, ou tranquilamente imersa naquilo que sobrou do dia: os últimos raios de sol. Sarjeta é lugar de contemplamento silencioso e de conversa amiga.

Deixemos de lado a má fama deste pedaço de concreto que fica entre a calçada e o asfalto, aquela má fama carimbada pela baba dos bêbados que amanhecem na rua: a sarjeta é ponto de momentos sublimes. É na sarjeta que fica a saudade.

Têm sorte aqueles que, numa madrugada depois de toda uma noite longa, uma festa ou um bar, talvez de cara cheia, puderam por horas sentar na sarjeta e ver o sol nascer. Sorte daqueles que, no silêncio da noite, tiveram a chance de apreciar aquelas últimas estrelas pingadas no azul escuro imenso.

Mesmo os bêbados e arruaceiros encontram nela um porto-seguro: é mais digno dormir na rua do que chegar em casa aos tropeços. Nesses casos, a sarjeta vira cama, vira abrigo, vira companheira e confidente.

Amigos das grandes metrópoles: a vida é linda, vasta, e cheia de lugares a se conhecer. Mas é na sarjeta que mora a paz.

06 junho 2010

Quem conhece a bela Olinda?


Murphy me adora, sempre me acompanha e daí, eu sempre fico muito tempo esperando ônibus e o meu nunca vem. Mas ali, na espera, eu leio os nomes dos outros ônibus, que sempre vão para uns lugares tão legais. O Nobuji Nagasawa, por exemplo, passa ao lado da feira de domingo para pegar todas aquelas senhorinhas japonesas simpáticas de lenços floridos no pescoço e carrinhos dourados cheios de frutas e, talvez, um pão caseiro. E todas as senhorinhas japonesas descem naquele bairro com casinha de telhado meio pontiagudo, triangular, com gramado em volta, onde tem uma padaria que vende manjus.

Mas o meu preferido é o Quinta da Bela Olinda, que chega naquele bairro com flores na entrada onde mora, claro, a bela Olinda, que nem é mais tão bela assim porque o tempo que alguém leva para fazer um nome que um dia mereça batizar um bairro é muito longo. Mas o fato é que a bela Olinda tem lá sua simpatia. Ela costura, pinta e canta na janela. Uma graça. Um beija-flor na porta da sala, sempre tem, porque a bela Olinda cuida de florzinhas daquelas pequenas que ficam no xaxim e se derramam todas em cachos laranja e cor-de-rosa.

E falando em beija-flor, esse é o ônibus que mais me instiga. Sempre que eu estou passando frio, ou fome (porque Murphy é um danado) no ponto de ônibus, vem o Beija-Flor e a minha vontade é esticar o dedo, subir, descer na casa de esquina que fica de frente com a pracinha do bairro, entrar, sentir cheiro do bolo no forno, sentar no sofá florido e esperar. Falar oi pra senhora que deve ser a minha avó e ver as fotos dos meus tios.

A grande frustração da minha vida é ser eu mesma todo dia. Todo dia.


02 maio 2010

Já era hora


Há tempos não escrevo, porque tanto coisa tem acontecido e eu estou esperando as coisas se ajeitarem. Mas hoje, na hora do almoço, pensei que preciso voltar a estudar inglês, mas logo em seguida, mais uma vez, pensei que é melhor esperar as coisas se ajeitarem e foi aí que compreendi: as coisas não vão se ajeitar nunca.

As grandes ideias e as melhores soluções - assim como os maiores problemas – surgem numa mesa de almoço de domingo, numa tarde ensolarada de terça-feira, ou antes de dormir, na segunda. É quando a gente não espera, e quando a gente não procurava nem problema, nem solução.

Pois foi hoje na hora do almoço que se resolveu uma grande questão da minha vida: as coisas nunca se ajeitam.

Talvez se ajeitem para você, que casou, teve filhos. Ou para você, que finalmente comprou aquela casa, fez aquela viagem. Mas somos todos diferentes, lembra? Não há fórmula de felicidade.

E ali, diante do filé à parmegiana, passou aquele filme mental, super clichê. Até hoje, foram 7 cidades, 20 casas, 9 escolas, 8 empregos, capoeira, tae kwon do, teatro, inglês, pedagogia, jornalismo, pintura, jazz, musculação e parapsicologia. 24 anos.

Era hora de aceitar: minha constância é a mudança. Eu não paro, eu não sei ficar quieta. E quando fico, sinto que não é por muito tempo.

Na infância, eu sempre soube quais eram as amizades que deveria guardar. Um dia chegava a hora de encaixotar as coisas, e aí, restavam dois endereços no fundo da mala. Pra elas eu escrevia. O resto ficava para trás.

Não há fórmulas, mesmo. Tem gente que espera a mudança acontecer para tomar uma atitude. Eu espero a mudança acabar.

Hoje foi o dia que eu aceitei que esperar não dá em nada. Vou seguir cá, mudando. Tenho é que encaixar as coisas definitivas no meio da mudança. Porque na minha coleção de coisas de outros lugares - e tempos - tem que caber as coisas de agora.

E se você está aí esperando uma mudança, entenda: talvez você seja de constâncias. Fica combinado assim: eu faço ser constante cá; e você, daí, faz mudar.

20 fevereiro 2010

Irrelevantemente relevante

São seis menininhas sentadas frente a frente, na grande mesa de madeira do pátio da escola. Três de um lado, três do outro. Cinco estão ansiosas e a sexta, ao meio, no lado direito, faz mistério. Não têm mais que seis anos cada. Todas já cantaram “meu lanchinho, meu lanchinho”, agradeceram ao papai do céu, tomaram o suco das garrafinhas coloridas e agora esperam pela revelação do segredo. Aquela que faz mistério segura uma caixinha de papelão. A outra, ao seu lado, pede: “abre”. Ela ri, como quem sabe de algo mais que as outras, e obedece. De dentro da caixa sai um ovo. Ela fala que não, não é um ovo: o nome daquilo e CA-SU-LO, olha só, é macio. E aperta um pouquinho. A que está sentada à sua frente faz o mesmo, com o dedo indicador. A dona do casulo manda um tapa na mão da amiga: não pode, só eu! E então avisa: olha só, vai sair, fica olhando. E acontece. Do pequeno buraco no canto do casulo surge o bichinho. Pequeno, branco, mole. A vida acontecendo diante do olhar curioso das menininhas. Duas se encolhem, segurando os joelhos, os pés sobre o banco. Uma, cotovelos sobre a mesa, se aproxima do bichinho. Outra coça a cabeça, de boca aberta. A dona do casulo sorri, observando as reações. A sexta menina, sentada no canto, no lado esquerdo da mesa, olha assustada: o bicho vai em sua direção. Ele segue, inocente e rastejante, enquanto cresce diante dos olhos da pequena menina. As outras estão admiradas. Ela olha para próprios pés, tira a melissinha e, num gesto ligeiro, antes que a dona do casulo pudesse interceder, esmaga a lagartinha. Levanta e vai brincar no balanço: coisa idiota que é bicho-da-seda.

***

Era isso que eu devia ter feito, 20 anos atrás, pra hoje não fugir que nem besta quando chega a época em que os coqueiros se enchem de lagartas.


*Depois que escrevi este post, minha tia (oh yes, a família lê) atentou para o fato de que o que sai do casulo é a borboleta, não a lagarta. Faz sentido. Porém, a cena é clara na minha memória: lagartinha saindo do casulo. Resolvi perguntar ao @MarkinDoMatto, que é veterinário e agrônomo e disse o seguinte: "ela entra no casulo como lagarta só sai qdo é borboleta... ela pode ter saido pq a menina estava manipulando um casulo que deveria estar paradinho enrolado numa folha...". Faz sentido, too. E sorte minha ser medrosa. Eu poderia ter matado uma pobre lagartinha prematura.

01 fevereiro 2010

Frio

Incrível o poder da nossa memória e o jeito como ela sabe usar um cheiro, um lugar, uma palavra, para nos levar para longe , nos fazer rir, chorar ou nos deixar de mãos atadas em certa situação. Já te ocorreu?

Hoje aconteceu comigo. Sentei no banco da rodoviária, com a bolsa no colo, esperando minha companhia comprar a passagem. A companhia não importa, porque o centro de todo esse fato, do começo ao fim, fui eu, e por certo seria menos doloroso se fosse diferente.

Ao meu lado estava a senhora. Magra e pálida, porém tranquila demais diante da situação que enfrentava, apesar de eu, até então, pouco haver reparado nela. Mas no segundo seguinte, a tranquilidade fez toda a diferença e me desencadeou a série de pensamentos. Uma moça surda-muda nos entregou aqueles panfletos que se pode comprar por um ou dois reais e ajudar a instituição de surdos-mudos. A senhora então, sorrindo, lamentou (e esse lamento foi direcionado a mim, que estava ali, inerte): “to com o dinheiro contado, não posso comprar. Vou ver meu sobrinho que morreu em acidente de carro”. Ela estava calma.

Me vi, então, anos antes, numa rodoviária, com dinheiro contado, esperando o ônibus para ir embora e ver alguém que, esse sim, havia ido embora de vez, pra sempre. O dinheiro contado no bolso da mochila, o vento cortando o rosto, arrepiando os pelos do braço. Sem blusa de frio, sem café da manhã, gosto de sono na boca. Não deu tempo de nada, a morte não espera.

Fiquei perdida nesse espaço-tempo: entre eu, anos atrás, mãos trêmulas e sem comida; e a mulher tranqüila e sem dinheiro.

Quando minha companhia voltou, não conseguia falar. Ninguém entende. Você tenta falar, a palavra não sai. Você tenta disfarçar, aceita um suco, uma água, qualquer coisa. A pessoa do seu lado desconfia, mas ela nunca pode entender que sua memória te arrastou dali. Cada palavra pesa 300 quilos, é uma pedra saindo da garganta. Você ri do que ela fala, mas não sabe o que foi que ela falou. Vêm então os gestos repetitivos: morder o canudo da coca-cola (não era suco?), abrir e fechar o zíper da bolsa, arranhar o polegar com a unha do indicador. Vem a azia, a ânsia, o mal-estar. E você insiste no gesto repetitivo, morde o canudo, debilmente, até ir, aos poucos, emergindo. O lugar é aquele, a rodoviária onde faz sol e calor. Sua viagem é curta e já é hora de ir. A pessoa ao seu lado conta uma história engraçada e ainda sem sentido, mas a pessoa é bonita, e fala daquele jeito só dela, mexendo um pouco as mãos. Você voltou. E você percebe que a vida é isso: uma coleção de lugares, pessoas, alegrias e traumas.