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03 março 2015

Estrada da vida



Quando uma pessoa morre, ela não morre uma vez só. Tem a morte de fato, que é quando a gente encara aquela face inexpressiva dentro de um caixão e entende o que as pessoas falam sobre “sentir um vazio no peito”. É o momento do baque, e a gente cai de cara na realidade de que tudo acaba; e é também o começo de um processo que pode durar todo o resto da nossa vida.


Depois que uma pessoa morre, seguem-se outras mil pequenas mortes. Faz dez anos que meu avô morreu. Era fim de verão, eu havia acabado de entrar na faculdade e deixar a casa dos meus pais. O mundo era um lugar perfeito, até que o telefone tocou e minha mãe, do outro lado da linha, quase não conseguiu terminar a frase: “o vô morreu. pega o ônibus amanhã cedo e vem pra casa”.

Eu não consegui arrumar a mala, e na manhã seguinte saí com a roupa do corpo. Passei frio na rodoviária e fiz uma viagem dolorosa. O mundo não fazia sentido, e naquele dia de vento eu me despedi, agoniada. Era março, mas parecia agosto. Eu não sabia que depois daquele adeus seguiriam-se outras tantas despedidas.

O segundo adeus aconteceu na primeira vez em que eu cheguei no sítio onde ele morava e vi na varanda a cadeira vazia. Depois, vieram outros tantos, cada vez que eu me deparava com uma coisa que nunca mais seria a mesma sem ele.

Hoje, já muitos anos depois e tantas mortes silenciosamente aceitas às vezes com amargura, muitas vezes com ternura, tivemos eu e ele mais uma despedida.

Morreu José Rico, o parceiro do Milionário. José Rico cantava na vitrola da sala daquela casa no sítio onde não há mais a cadeira de tirinhas de plástico verde na varanda.

Um dia, a dupla foi cantar lá na cidade e fomos juntos, eu e meu avô, ver o show. Com essas pequenas mortes que se seguem à morte de fato, vão sumindo aos pouquinhos as feições de quem partiu. Mas eu lembro com detalhes o sorriso dele olhando para o palco, admirando os homens que sempre cantaram na vitrola lá do sítio.

Se existe céu, hoje meu vô está sorrindo por lá. Eu, por aqui, chorei um pouquinho. É que essas mil mortes mexem com a gente. Mas eu estou feliz, como no dia em que fomos ver o show. Espero que José Rico tenha chegado lá em cima cantando uma bem bonita pra pôr de novo aquele sorriso no rosto dele.

13 agosto 2013

catchup

quando eu era criança queria uma barbie sereia, daquelas com cabelão que muda de cor de acordo com o ambiente. você coloca na água quente, por exemplo, e vão surgindo mechas alaranjadas. dai você seca e aparecem mechas cor de rosa. como fui uma criança pobre tive que me contentar com a barbie sereia das amigas.

o tempo passa, a gente supera os brinquedos que não teve (e também os que teve, tipo o fofão), arruma trabalho, se estressa, se matricula na ioga, tem filhos e começa a fazer cooper aos domingos de manhã. enfim, cresce. tem acontecido comigo, e embora eu faça coisas de gente grande o tempo todo, fico constantemente com a impressão de que a vida adulta é uma piada, um engodo. como se ninguém soubesse muito bem o que está fazendo, nem o porquê. a gente coloca uma gravata, dá ordens e fala difícil, sai da empresa e compra um notebook, enjoa da cor do cabelo e faz mechas loiras, porque viu que é assim que se faz. vai cumprindo uns protocolos, liga tudo no automático e aperta o play.

então, às 22h de uma segunda-feira, a vida mostra que sim: é tudo uma piada. pois eu estava de folga em plena segunda-feira, e resolvi ficar na casa da minha mãe. e como adulta estressada, achei justo tomar um banho de banheira. só que, como uma verdadeira adulta já não mais tão estressada, dormi na banheira.

quando sai, aconteceu a mágica. ou a piada. conforme meu cabelo foi secando, surgiram mechas verdes. não verde meio amarelado tipo o orelhão da telefônica. verde tipo trevo de quatro folhas, uma péssima comparação para situação tão ridícula.

e mais uma vez agindo como adulta, fiz uma pizza. depois, claro, procurei no google e nas redes sociais a solução para tirar a cor verde das mechas loiras.

a internet me sugeriu leite ou catchup; e depois lavagem com shampoo.

era então uma segunda-feira de folga, às 22h30, e eu estava debaixo do chuveiro com catchup e um copo de leite: "mãe, traz mais um sachê que só dois não vai dar".

enquanto mentalmente me comparava à barbie sereia.

06 março 2013

James Dean e Charlie Brown

Quando se tem 13 anos e nenhuma vocação para filhinha linda do papai, a gente vai buscar o caminho contrário, um jeito de se rebelar contra a família e mostrar que manda (ou pensa que manda) na própria vida. E em 1998 ou 99 isso significava matar aula, beber pinga escondido às 3 da tarde, fumar maconha, passar silvertape no tênis e perder horas tentando acertar uma manobra no skate. Tinta no cabelo, piercing na sobrancelha e um namorado tatuado, maconheiro e fedido também eram bem-vindos.

E num certo abril de 99, lá estava eu com minha calça rasgada gastando tempo na pracinha da igreja quando apareceu o príncipe encantado versão James Dean anos 90: alto, loiro, olhos azuis e cabelo bagunçado. O tipo perfeito pra se dar o braço numa festa e fazer pose de rebeldinha diante do mundo: o moço era sete anos mais velho e tinha fama de maconheiro.

Foi nessa época que a gente ouvia Green Day, Blink 182 e Charlie Brown naquelas festinhas de garagem com vinho chapinha e vodka barata misturada com fanta. Em cidade de 20 e poucos mil habitantes, esse era o auge da diversão nos fins de semana.

Então aconteceu dos caras do Charlie Brown invadirem a cidade vizinha e eu fui pro primeiro show da minha vida, o que aos 13 anos já é um arraso. O James Dean anos 90 estava lá e me deu um beijo na frente de todo mundo, dos amigos maconheiros dele e da minha amiga perplexa. Depois, ainda fotografou um sorriso meu. Vitória maior não havia.

Só que o James Dean não era só um maconheirinho que leva bronca quanto tira nota baixa, ele era errado de verdade. E meu pai era delegado. Um dia, numa batida policial na casa do James, a equipe da polícia encontrou na porta do guarda-roupas uma foto especial: euzinha sorrindo, com os olhos brilhando pro meu príncipe, ao som de Charlie Brown.

À frente da operação que derrubou o barraco do James estava meu pai. Claro que ouvi dele coisas que até hoje me lembro com frio no estômago e arrepios. Claro que fiquei dias sem sair de casa e meu romance com James afundou, tanto pela distância, quanto pela prudência de ambas as partes. Não é fácil ser filha de xerife.

Daí porque a morte do Chorão é uma coisa esquisita. Não tanto pelo cara, ou pela música, mas porque a gente vê que todo mundo cresceu mesmo, e que, de agora em diante é assim: perder coisas, próximas ou não.

13 novembro 2012

que se chama amor

Um tipo que sempre despertou meus sentimentos (aflição, curiosidade e ternura) é gente que chora em público. É ver gente chorando pela rua que me bate a vontade quase incontrolável de chamar pro bar mais próximo, perguntar o que aconteceu, saber o que foi de tão grave, tão urgente, que fez aquela criatura derramar as lágrimas ali mesmo, sem tempo de chegar em casa.

Até que hoje, a pessoa chorando pela rua era eu. O motivo eu sabia bem: o Espeto morreu. Espeto, o gato rueiro que adoeceu devargarzinho e foi embora antes da hora.

Caminhei e chorei esfregando o nariz vermelho, pensando em pegar todos os gatos de rua do mundo, levar todos pra casa e ver eles crescerem e subirem em árvores.

Dez anos antes morreu a Rami, uma cachorra também rueira. Eu gostava de sentar na porta de casa com ela do meu lado, deitada no tapete. Rami ficava ali, fazendo nada, eu também. Foi a melhor companheira de fazer nada que eu tive.

Um dia ficou doente. Foi piorando e parou de andar, quase não comia, só chorava. Não teve jeito: meu pai decidiu levar ao veterinário mas deixou avisado que talvez ela não voltasse. Eu lembro dela me olhando quando saí para trabalhar naquele dia. Foi o jeito que ela arrumou para me dizer adeus, com o queixo apoiado no chão e os olhos tristes. Quando voltei, só meu pai estava em casa. Ela não.

Naquele dia eu decidi - como faz muita gente - que não queria mais bicho de estimação. Meus pais arrumaram outros, vários. Eu nunca desgostei, mas não me envolvia.

Brincava vez ou outra, sem apego, pra não doer.

Até que chegaram os gatos, dois, da rua, que uma moça que trabalha comigo achou. Era para ficarem em casa até que arrumássemos um lar definitivo. Um dia eu estava sentada na sala e vieram os dois quietinhos, se aninharam cada um de um lado nas minhas pernas cruzadas e dormiram. Um jeito um tanto eficiente de disseminar amor: impondo-o a quem o rejeita.

No dia seguinte marquei veterinário, comprei caixinha de plástico pra pôr areia e joguei fora a de papelão. Eu, naquele dia, ainda não sabia, mas hoje sei que os gatos quebraram a barreira imaginária que eu havia colocado entre mim e os animais quando a Rami morreu.

Tem gente que prefere não ter mais bicho nenhum, nunca mais, depois que enfrenta a morte do primeiro. Eu já fui assim, hoje não sou. Não sei se é carência, maturidade, noção da finitude da vida e da efemeridade das coisas, desespero, chamem do que quiser. A dor é cruel, mas para mim é ainda melhor que dor nenhuma. E não há diferença alguma entre gente como eu e gente que escolhe o afastamento: inevitavelmente, estamos todos à beira do abismo.

11 novembro 2012

bolo de fubá

Estava num ônibus no caminho pra casa da minha avó quando li:

"Com massa simples, feita de ovos, manteiga e farinha – ingredientes que não envelhecem –, os bolos caseiros viraram febre em São Paulo. As casas especializadas no doce se multiplicam pela cidade com um esquema de venda parecido ao das confeitarias do passado: o cliente compra o bolo e o leva para comer em casa".

Achei bacana a ideia. Às vezes dá uma vontade de comer um bolo simples, de fubá ou de laranja, mas não sobra tempo pra fazer.

Só que o autor do texto da revista foi além:

"O sucesso das lojas tem a ver com o resgate dos alimentos com tradição, uma tendência no mundo gourmet. “As receitas retrô remetem ao conceito de comfort food, bastante em alta, que nos transfere a um ideal de ternura e de felicidade da infância”, afirma Sandro Dias, professor de história da gastronomia do Centro Universitário Senac".


Daí eu comecei a sentir peninha das pessoas. Imaginei um senhor de meia idade, de terno e barba feita, já meio careca entrando na confeitaria. Ele afrouxa o nó da gravata e pega sua porção semanal de ternurinha. Vai pra casa, come o bolo com café solúvel e pensa que é feliz.

Eu acho que o grande mal cotidiano é essa mania que a gente pegou de querer glamourizar tudo. Querer poetizar o que, por natureza, já é poesia.

Cerveja no fim de tarde de uma sexta-feira por si só já é uma coisa linda, digna de alegria. Não precisa ter notas suaves de café ou cereja, não precisa que alguém comente com que tipo de carne aquela cerveja vai harmonizar.

Bolo no café da manhã é gostoso. Feita pela avó, é um sonho. Se não tiver avó por perto e o bolo for comprado na padaria, também vai ser gostoso, com boa companhia então: só melhora. Daí os especialistas querem dizer que o bolo de fubá é um tipo de comfort food. Por favor, meu queridos, não estraguem a poesia. Não glamourizem a simplicidade.

Tive pena de quem precisa de "comfort food" para sentir a ternura da infância. Eu ainda fico na dúvida: estamos bobos a ponto de comprar essas ideias estranhas que as pessoas criam pra vender produtos, ou  os bobos são os que ficam tentando inventar história pra pôr mais poesia no cotidiano, talvez porque a eles ainda falte um quê de poesia? Relacionar bolo de padaria com ternura de infância, façam o favor meus senhores! Da minha ternura cuido eu, não me venham vender ideias.

Torci pro motorista do ônibus pisar fundo pra eu chegar logo na casa da minha avó, dar um abraço nela e ter certeza de que a simplicidade continua sendo uma coisa simples. Porque felicidade é igual bolo de fubá: bom mesmo é quando é feito em casa.

04 maio 2012

é triste a saudade

quando eu era criança minha mãe trabalhava no fórum municipal e, para minha sorte, a parte dos fundos do prédio dava bem na lateral da escolinha onde eu estudava. na hora do recreio eu corria para o lado da escola e minha mãe aparecia lá no fundo para me mandar um beijo. às vezes, quando a aula acabava, eu ia para o fórum esperar ela sair.

numa dessas vezes, ela contava para as colegas que um senhor famoso tinha ido lá. para mim, ela explicou: era um senhor que meu avô gostava de ouvir cantar. aquele senhor, que junto com outro, sorria na capa do disco que numa tarde eu, sentada no chão, coloquei na vitrola enquanto meu avô, sentado na cadeira, me observava.

eu não tinha mais que cinco anos. abri a gaveta do móvel de madeira escura da sala da casa dos meus avós e fiz o que criança gosta: bagunça.

meu avô, na cadeira, fez o que os avós gostam de fazer: olhar o neto fazer bagunça. era disco pra todo lado no chão da sala, no meu colo, nos sofás. eu colocava um, ele cantava. colocava outro, ele cantava também. quando coloquei o disco do homem que foi ao fórum, ele cantou "moreninha linda do meu bem querer" e eu ri: sabia que era para mim.

eu não tinha paciência. troquei o disco e ainda hoje eu ouço, bem baixinho, a voz dele: "viola está chorando. chorando está meu coração".

10 janeiro 2012

TV


Dessa vez quem fala não sou eu.

Que a televisão prejudica o movimento da pracinha Jerônimo Monteiro, em todos os Cachoeiros de Itapemirim, não há dúvida.

Sete horas da noite era hora de uma pessoa acabar de jantar, dar uma volta pela praça para depois pegar a sessão das 8 no cinema.
Agora todo mundo fica em casa vendo uma novela, depois outra novela.
O futebol também pode ser prejudicado. Quem vai ver um jogo do Cachoeiro F.C. com o Estrela F.C. se pode ficar tomando cervejinha e assistindo a um Fla-Flu, ou a um Internacional x Cruzeiro, ou qualquer coisa assim?
Que a televisão prejudica a leitura de livros, também não há dúvida. Eu mesmo confesso que lia mais quando não tinha televisão.
Rádio, a gente pode ouvir baixinho, enquanto está lendo um livro. Televisão é incompatível com livro – e com tudo mais nesta vida, inclusive a boa conversa, até o making love.
Também acho que a televisão paralisa a criança numa cadeira mais que o desejável. O menino fica ali parado, vendo e ouvindo, em vez de sair por aí, chutar uma bola, brincar de bandido, inventar uma besteira qualquer para fazer. Por exemplo: quebrar o braço.
Só não acredito que televisão seja “máquina de fazer doido”.
Até acho que é o contrário: ou quase o contrário: é máquina de amansar doido, distrair doido, acalmar doido, fazer doido dormir.
Quando você cita um inconveniente da televisão, uma boa observação que se pode fazer é  que não existe nenhum aparelho de TV, a cores ou em preto e branco, sem um botão para desligar. Mas quando um pai de família o utiliza isso pode produzir o ódio e o rancor no peito das crianças e até de outros adultos.
Quando o apartamento é pequeno, a família é grande, e a TV é só uma – então sua tendência é para ser um fator de rixas intestinais.
             - Agora você se agarra nessa porcaria de futebol...
             - Mas você não tem vergonha de acompanhar essa besteira de novela?
             - Não sou eu não, são as crianças!
             - Crianças, para a cama!
            Mas muito lhe será perdoado, à TV, pela sua ajuda aos doentes, aos velhos, aos solidários. Na grande cidade – num apartamentinho de quarto e sala, num casebre de subúrbio, numa orgulhosa mansão – a criatura solidária tem nela a grande distração, o grande consolo, a grande companhia. Ela instala dentro de sua toca humilde o tumulto e o frêmito de mil vidas, a emoção, o “suspense”, a fascinação dos dramas do mundo.
            A corujinha da madrugada não é apenas a companheira de gente importante, é a grande amiga da pessoa desimportante e só, da mulher velha, do homem doente... É a amiga dos entrevados, dos abandonados, dos que a vida esqueceu para um canto... ou dos que estão parados, paralisados, no estupor de alguma desgraça...ou que no meio da noite sofrem o assalto das dúvidas e melancolias... mãe que espera filho, mulher que espera marido...homem arrasado que espera que a noite passe, que a noite passe...
 "Ela tem alma de pomba", Rubem Braga

22 dezembro 2011

árvore de natal

Lá em casa era assim: meu pai colocava eu e meu irmão no carro e saia pelas estradas de terra. Quando via um pinheiro, parava, subia e a gente ficava lá de baixo dando as orientações: "esse aí", "não, aquele lá". Meu pai cortava o galho, levava pra casa e minha mãe enterrava num vaso. Depois, a gente ajudava a pendurar os mini-papai-noéis e estava pronta nossa árvore. Geralmente, ela morria antes do dia 25.

A Heloísa, minha irmã mais nova, nasceu bem no comecinho de janeiro de 1996. Então, no Natal de 1995 minha mãe tinha uma barriga enorme e todo aquele cansaço das grávidas em final de gestação. Foi nesse ano que ninguém saiu de casa pra cortar galho: minha mãe pegou um vasinho da varanda, enrolou os pisca-piscas e era aquela nossa árvore daquele 1995, de quando minha irmã estava para nascer.

Era época em que a gente morava na menor cidade que já vivi: seis mil habitantes. Eu não sei se vocês sabem como funciona isso, mas minha casa não tinha cadeado no portão, e o portão era só uma grade de frente com o gramado. O gramado ficava de frente com a varanda e na varanda ficava a arvorezinha improvisada com os pisca-piscas. A porta de entrada da casa estava sempre aberta: não tinha perigo de aparecer bandido, pensávamos nós.

Mas um dia minha mãe acordou e viu no chão da varanda só a marca do vaso da árvore de Natal. Pois sim, na menor cidade que nós moramos foi que roubaram a árvore de Natal mais mixuruca que já tivemos. Perguntamos pras crianças da rua, pro vizinho, pra empregada, pro dono da padaria, e nada.

O tempo não para por causa de árvore de Natal roubada e minha mãe foi trabalhar (pra quem não sabe, ela é professora). E foi lá, na única escola da cidade, ao lado da nossa casa, que ela encontrou a árvore, de pisca-pisca piscando em plena luz do dia, em cima da mesa da diretora, que já veio contando "Você viu que presente lindo eu ganhei!". Não era lindo e muito menos presente, explicou minha mãe, que no fim do dia chegou em casa com a árvore no colo. A gente soube, então, que quem deu o sumiço na árvore foi um vizinho nosso, que jogava video-game com meu irmão, que vivia no quintal de casa e que, na surdina, entrou lá de madrugada, o danado do menino.

Era fim de ano, época da escola fechar as notas, e daí ele quis fazer um agrado pra diretora. Criança é tão inocente que acredita em Papail Noel e rouba árvore da professora para presentear a diretora achando que nunca vai ser pega.

era mais ou menos assim, bem bonita.

27 setembro 2011

Com quantos anos você vai se casar?

Quando eu era criança existia entre as meninas da escola uma brincadeira assim: desenhávamos numa folha de papel um quadradinho. Dentro do quadrado, colocávamos a idade com que queríamos nos casar. Do lado de fora, rabiscávamos em cada lado três linhas perpendiculares ao quadrado e paralelas entre si. No lado esquerdo, colocávamos três adjetivos: bonito, gentil, educado. No direito, três opções de número de filhos: 1, 2 e 3, por exemplo. O número dentro do quadrado regia o resto da brincadeira. Se fosse 22, colocávamos a ponta da caneta no primeiro adjetivo e íamos pulando de um em um até chegar ao número 22. O adjetivo ou número de filhos sorteado era riscado, e então repetíamos o processo até que restasse de um lado somente um adjetivo, e dou outro apenas uma opção para o número de filhos. Pronto, estava desenhado no papel nosso futuro: aos 22 anos, a dona da brincadeira estaria casada com um homem bonito (ou gentil, ou educado) e teria 3 filhos (ou 2, ou 1).

No meu quadradinho, o número central era sempre 18. Às vezes, 20. Era assim que funcionava quando eu era criança: olhava para o futuro e me via aos 20 anos casada, grávida e feliz.  Hoje, quando me lembro disso, ficam claras para mim duas coisas: que meu espelho, naquela época, era minha mãe (que se casou aos 18); e que eu errei feio.

Aos 25, o mais perto que cheguei de um casamento foi um namoro de quatro anos com direito a escovas de dente compartilhadas; e o mais próximo de ter filhos foi uma pílula do dia seguinte comprada às pressas às onze da noite. Hoje eu sei que a vida que eu levo cabe perfeitamente naquilo que eu sou, e eu combino perfeitamente com a vida que eu levo.

Mas tem dias que eu fico pensando: será que a Carol com um marido bonito e um filho de 5 anos não seria feliz agora? Afasto bem rápido esse pensamento porque sei que é bobagem: essa Carol hipotética estaria agora imaginando se a Carol jornalista que considera maturidade poder comprar danoninhos e comer quantos quiser num mesmo dia não seria também feliz. E é. Ponto.

Longe das reflexões acerca de felicidade, eu vou agora escrever “80” no meio de um quadradinho, de um lado colocar número de netos, e do outro escrever: morte, Alzheimer e grupo de ginástica da terceira idade. Ver o resultado e torcer para que seja  diferente.

02 novembro 2010

Belchior tinha razão




Alguns fatos me fizeram lembrar de uma aula que tive em 2005, ainda na sala da pedagogia.

A professora de história contou o seguinte: “Semana passado fui ao cinema com meu filho. Quando havíamos sentado, entrou um casal: dois meninos. E eles entraram de mãos dadas. Na mesma hora, um grupo de jovens que estava à minha frente começou a gritar 'bicha! Bicha!'. Eu pensei que Belchior tem razão: ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Evitei aqui falar de política, porque esse blog não foi feito para campanhas. O único intuito desse blog, aliás, é falar o que me vêm à cabeça. Mas agora que as eleições passaram, e que pude observar um comportamento estranho por parte de algumas pessoas, quero falar. Vamos lá.

Votei em Dilma, mas respeito aqueles que, durante os dias de campanha, me expuseram bons argumentos para votar em Serra. E isso, poucas pessoas com as quais conversei fizeram.

Por outro lado, recebi e-mails com argumentos pífios que, ao invés de tentarem me mostrar o lado bom do PSDB, só me faziam repudiar o remetente. “Dilma é lésbica”. “Dilma é satanista”. “Dilma é terrorista”. Eu me recuso a ensinar história àqueles que não sabem o básico a respeito de ditadura. E me recuso a explicar o significado de estado laico, ou a debater a questão vida pessoal x vida profissional.

Esses argumentos levados a sério mais uma série de acontecimentos me fizeram sentir confusa com o que eu imaginava das pessoas e o que elas realmente são. O natural é pensarmos em evolução e aceitação, maior respeito com o passar dos tempos, quebra de tabus e maior tolerância. Nada disso. Nada.

Ano passado, quando Geisy Arruda passou o que passou e todo mundo já sabe, pensei que algo de muito errado acontecia. Porque se vejo meu avô apresentar um comportamento moralista, é socialmente compreensível. Mas quando a coisa toda envolve jovens dos seus 20 e poucos anos, tem algo de errado. Depois, vieram os e-mails com a intenção de desqualificar Dilma ao chamá-la de lésbica ou afirmar que ela é favorável ao aborto, entre outros. Dia desses, a história do rodeio das gordas. Por fim, o preconceito explícito contra nordestinos que pudemos acompanhar no twitter, e se você não viu basta clicar AQUI.

Eu fico sem compreender o pensamento de quem se julga superior. Não consigo entender a linha de raciocínio de quem acredita que a opção sexual pode interferir na vida profissional, por exemplo. Homossexuais existem e é preciso conviver com isso, aceitar e respeitar, gostando ou não. Há que se entender que existem pessoas com necessidades diferentes, passados e bagagens culturais diferentes, mas umas não são menos humanas – e nem menos inteligentes - que as outras. O que eu não compreendo é como aqueles que se julgam no poder do intelecto, os que creem ser os seres pensantes e não influenciáveis, aceitam ignorar pessoas com as quais convivem e vão conviver, colocando culpa em raça, etnia, cultura ou opção sexual, e simplesmente reduzí-las moral e intelectualmente .

Não dá pra desqualificar pessoas por serem nordestinos (e AQUI tem um texto ótimo sobre o assunto), paulistas, gays, gordos. O que não faz sentido é o preconceito vindo de quem se supõe mentalmente evoluído: soa contraditório.

Belchior tem razão. E talvez por isso fez as malas e sumiu no mundo sem ao menos falar tchau.

27 outubro 2010

Tem alguma coisa errada



Tem alguma coisa errada aí. Rafinha Bastos se propõe a fazer um humor inteligente e daí vem com uma piadinha desse tipo. Mais uma. Além da falta de criatividade, do bater na mesma tecla, falta noção a um cara que assume a posição de “formador de opinião”. Rafinha Bastos, CQC e Pânico não formam a minha opinião, mas formam a de muita gente.

E num momento em que há um grupo de pessoas tentando acabar com a ditadura da magreza, é muito delicado fazer esse tipo de piada. Não é direta, mas todo mundo sabe que xingar Geisy Arruda e Preta Gil é coisa que sempre acontece. E funciona. Rafinha foi retuitado por mais de 100 pessoas.

Você não curte a Preta porque ela canta mal? Acha a moça arrogante? Acha que a Geisy foi oportunista ao ganhar espaço na mídia devido à situação que viveu? Justo. Acha legal esculhambar as meninas porque elas são gordas? Você é um babaca.

Não é que eu seja amarga, chata e não goste de humor. É que eu acho que tudo tem limites e quando há pessoas brigando para mudar uma situação, fica ridículo alguém que exerce certa influência continuar repetindo bobagens que desvalorizam a questão. Porque o Rafinha fez isso: ao transformar Preta Gil em piada, que contribuição ele dá aos movimentos em prol do plus size, da beleza natural, contra bulimia, conta anorexia, pelo bem-estar feminino, e tudo mais que isso envolve? Nada: sobra só o desfavor.

No dia em que vejo a notícia sobre o tal do “rodeio das gordas” fica inaceitável ver uma pessoa pública ainda bater nessa tecla. E tantas outras concordarem e acharem suuuper engraçado. Porque você pode não gostar de gordas, não gostar de magrelas, não gostar de baixinhas. É seu gosto, sua opinião. Mas existe uma coisa que se chama respeito, e transformar tudo numa grande piada uma hora perde a graça.

Daí surgem uns estudantes que acham legal humilhar as gordas. Por que não, se o cara faz isso na TV? E por que o cara da TV vai parar de fazer isso, se tem uns estudantes ae que tão achando isso tudo tão legal? Lamentável.

Se eu fosse a Preta Gil, processava mais uma vez, que é pra esse povo parar de ser besta: porque quem não pensa tem que aprender na marra.

11 outubro 2010

No plan, no gain

Feriadão badalado, né? SWU num canto, Interunesp no outro, todo mundo curtindo uma festa, uma praia, um churrasco. Eu? Eu fiquei em casa.

Até o momento, foram 3 filmes e mais uns 4 ou 5 episódios de The Middle, minha mais nova série-vício.

E porque eu não estou lá, vertendo lágrimas no show da linda Regina Spektor ou vertendo cerveja pra dentro e pra fora de meu corpo no Interunesp? Porque eu não sei me programar. É isso.

Há anos alimento um problema (e que agora descobri ser também um prazer) que me impede de conseguir me programar para qualquer coisa, por mais divertida que ela seja.

O que vem a seguir parece frase de texto que recebemos por e-mail, assinados por Arnaldo Jabor, mas é sério: conversava esses dias com um amigo e concluímos que as melhores coisas da vida acontecem de maneira inesperada. Principalmente as festas.

Você compra ingresso com um mês de antecedência, compra roupa e sapato, combina com os amigos, separa câmera fotográfica. Pode crer: vai ser fiasco. No mínimo, vai ficar abaixo das expectativas.

E então, numa noite de quinta-feira, você está na sua casa e resolve comer um lanche no bar da esquina. Chega lá e encontra dois amigos que te chamam pra uma cerveja. As chances de você voltar pra casa no dia seguinte às 8 da manhã depois de ter bebido 15 cervejas numa festa de pessoas desconhecidas são muito maiores do que se você tivesse programado beber cerveja numa festa de gente desconhecida.

Quando tudo é programado as chances de algo dar errado, matematicamente falando, variam entre 99% e 100%. Vai chover, você vai pegar gripe, vai esfriar. Seu amigo vai desistir, o carro vai enguiçar, a bebida vai estar cara.

Na minha vida foi assim: uma série de festas decepcionantes e outras tantas noites malucas que eu não programei, então agora morro de preguiça de fazer planos antecipadamente. Reforço positivo, behaviorismo explica.

E isso tudo não tem nada a ver com o estilo 'livin la vida loca' pregado por Rick Martin e difundido por jovens estrelas hollywoodianas e estudantes universitários (sinal: piada interna). É que, pra mim, qualquer compromisso assumido antecipadamente toma um ar de obrigação, e acaba perdendo a graça. Nunca se sabe como estará nosso humor no dia do compromisso.

Além do mais, sem compromisso marcado, as chances de alguém me encontrar em casa às 2 da manhã e me chamar para uma balada onde a diversão é improvável são maiores. E, claro, vai ser muito divertido.

Fecho, então, com outra frase de texto fajuto do Jabor: o que vale nessa vida, meus amigos, é o imprevisível.


*E às vezes, tudo que se quer é um feriado em casa assistindo filmes e séries até enjoar.

18 julho 2010

Somos muitos severinos?

Então uma menina resolveu usar o blog para manifestar a revolta que ela sente ao ver o centro de sua cidade – São Paulo – sendo entregue a nordestinos que por não terem nascidos por lá não irão cuidar tão bem do lugar quanto ela, paulistana, cuida. Quando eu recebi o texto, que foi parar no twitter, tinha 20 comentários, e meia hora depois estava com mais de 200, e a maioria xingando a menina de fascista, xenófoba e tudo mais. Novidade para você? Nem pra mim.

Eu cresci em uma cidade onde, uma vez por ano, cerca de 300 nordestinos chegam em busca de trabalho. Eles deixam filhos, pais, irmãos, maridos e mulheres, para trabalhar na lavoura de cana-de-açúcar, ganhando o suficiente para comprar comida e pagar o aluguel de um quarto-e-banheiro. Só.

E lá, na minha cidade, acontece exatamente o que a Carla expôs no texto. Do mesmo jeito que ela expôs. O bairro mais feio da cidade é habitado por nordestinos. E é onde acontece grande parte dos problemas envolvendo a polícia.

Eles, os nordestinos, são tratados pelas pessoas da cidade como “cabecinhas”, e nenhum morador nascido no local hesita em falar mal de qualquer um deles, seja trabalhador, pai de família ou um bêbado caído na sarjeta. A culpa é sempre dos “cabecinhas”. Não é raro eles serem também motivo de piada.

Um dia, eu resolvi fazer uma reportagem sobre essas pessoas que rodam milhares de quilômetros em um ônibus sem banheiro e sem qualquer tipo de conforto, chegam sem cobertor, sem casa, sem comida, para pegar num facão às 5 da manhã do dia seguinte.

Entrei em muitas casas, conversei com jovens, velhos, crianças. Alguns haviam chegado há pouco, outros já tinham filhos nascidos na cidade, que já sabiam ler e escrever. Uns pretendiam voltar no final da safra, outros juntavam dinheiro para comprar uma casa por essas bandas.

Mas para qualquer um que perguntasse sobre “o que você acha daqui?”, a resposta era a mesma: “muito melhor do que lá”.

Quem pensava em voltar, era porque não via chances de conseguir se manter por cá depois que acabasse a safra. Alguns, porque deixaram noiva esperando casamento.

Lá, segundo eles, tem pouca escola. Quando tem, é longe. Falta água, falta saneamento básico. São cidades, de verdade, muito longe de qualquer cartão postal. É onde ainda impera o coronelismo, acreditem vocês ou não.

Eu, quando sai com meu gravador em mãos, esperava a visão romântica do João Cabral, do retirante que após alcançar a terra sonhada desilude-se com a selva de pedras e sente falta do sertão.

Dois Córregos não é uma selva de pedras. É uma cidade receptiva, pequena, aconchegante, apesar da hostilidade por parte dos nativos. Acontece. Não dá para comparar com São Paulo, mas os nordestinos de lá e de cá são os mesmos.

E quando eles chegam por esses lados, acabam – alguns – sem emprego. Sem casa, sem família, sem comida, sem escola. Alguns vão dormir na rua. Outros vão encostar na porta de um boteco, encher a cara, arrumar uma briga e dar mais um problema para a polícia. Mas muitos vão trabalhar das 5 as 5 todo dia.

A prefeitura local disponibiliza um centro de assistência social para quem vem de fora. Não sei se é assim em todo lugar. Só que é muita gente, pouco funcionário. Burocracia e tudo mais. Falta assistência, e então quando não se tem nem o que pôr no prato, é difícil pintar a fachada da casa e deixá-la bonitinha para quem vê.

Aí que sim, acontece de os nordestinos não cuidarem da cidade. Mas daí para dizer que a culpa é toda deles, pura inocência. Pensar que quem nasceu no lugar vai cuidar muito melhor do que quem veio de fora é um engano.

Muitas das pessoas com quem conversei – principalmente aquelas que já estavam estabelecidas no local – demonstravam carinho por aquela cidade que não era delas, mas que as acolheu.

Em um dos depoimentos, um senhor que estava lá há 7 anos disse que gostava muito de ir à praça aos finais de semana, para passear com a filha. Quando perguntei se ele sentia preconceito por parte dos moradores locais, ele disse que sim. “As vezes eles xingam, mas é porque não nos conhecem”.

Agora vem o clichê: existe todo um processo histórico por trás daquilo que é exposto no texto da Carla. A questão é cultural, política e social.

Quando eu saio pela cidade e vejo um 'playboyzinho' – provavelmente nascido na cidade -
jogando uma lata de cerveja pela janela do carro, penso: o que é que a gente está fazendo para melhorar?

Porque aí, no dia seguinte, o playboyinho vem e me diz que aqueles cabecinhas são um atraso para a cidade. Acontece.


*E aí que a Carla tirou o post do ar.

14 julho 2010

As horas que não foram


Não sei se vocês sabem porque é que existe o ano bissexto, e nem sei se esse nosso 2010 foi um ano assim, mas eu fiquei a pensar. E aí, como imagino que alguns saibam, outros não, ou que alguém aqui nunca se preocupou com isso, eu vou contar (e quem já sabe faz cara de surpresa, ok?).

Acontece que os sumérios – aqueles caras da Mesopotâmia mais antiga que já se viu - inventaram de dividir os dias desse jeitinho que hoje a gente conhece: com 24 horas. Só que na real, não é assim que a banda toca, e no final de 365 dias, ou de 8760 horas, sobravam uns quebrados.

Ficavam lá, perdidas na imensidão desse universo, seis horinhas que não podiam virar dia nem noite. Mas como não dá pra ir empurrando tudo com a barriga e usar essas horas todas juntas num final que não se sabe se existe (e se existir ninguém vai receber aviso prévio), alguém – e aí já não sei se é sumério, romano ou grego – fez o favor de deixar certo que de quatro em quatro anos juntaríamos as horas abandonadas: seis mais seis = doze, com outros doze = 24, e faríamos um dia.

Pois é, um dia a mais, ali, no finalzinho de fevereiro. E por que nem dezembro, nem janeiro, justo fevereiro? Porque fevereiro, reparem só, foi um mês que já nasceu perdendo. No começo, lá no calendário romano, o nosso mês do carnaval nem sequer existia e o ano, que maravilha, começava em março, mas isso é assunto pra outra história.

Assim ficou: de quatro em quarto anos fevereiro, o injustiçado, ganha um pouco de justiça e acaba mais tarde. Ganha um dia a mais. Mas não um dia qualquer, porque – e é aí que está o sentido dessa minha enrolação toda – é um dia feito de horas que esperaram quatro anos para acontecer. Um dia feito de horas que deram o lugar na fila e que por quatro anos deixaram as outras horas banais passarem na frente. Horas que ficaram guardadinhas num canto escuro do infinito, contando os minutos.

E aí, no meio do cotidiano todo, da correria do dia a dia, chega a hora daquelas horas serem passo a passo passadas pra trás e finalmente caírem na caixa mágica das horas já usadas. E você aí, achando que uma fila de banco é muito. Elas esperam quatro anos – umas menos, é verdade – pra poder fazer todo o sentido daquela efêmera existência. Afinal, horas só nasceram para isso: serem gastas, serem usadas, serem passadas.

Então, já sabem: no próximo 29 de fevereiro pensem bem no que vão fazer. Trata-se de lidar com alguém muito paciente. É um dia muito especial.



Esse texto foi todo feito com ajuda do Théo, que veja só, há quatro anos faz meus dias serem todos 29 de fevereiro.

05 julho 2010

eu bato palma pra louco dançar

Eu tenho muita sorte com cenas inusitadas, e esse mundo anda tão inusitado que eu não sei como pode haver gente que vive de mau-humor, olha só.

Hoje inventei de esperar o ônibus às 6 da tarde, e nesses horário sabe como é né, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que veio só olhar. E aí, do meio da multidão de trabalhadores, estudantes e mulheres com sacolas e bolsas surge ninguém menos, ninguém mais que o maluco. Toda cidade, toda vila e toda aglomeração tem o seu e eu dei muita sorte de hoje encontrar um dos bons.

Eu nem sei bem se era maluco, pois com a vida como tá quem sou eu para julgar lucidez, mas vamos lá. Magro, uns 30 anos, roupa suja, sandália de couro. Como maluco responsa – vou chamar de maluco, ok? - que é, já chega roubando a cena. Escolheu o ponto exato, aquele vazio no meio da multidão, e começou o espetáculo.”Se tem alguém aqui que fez aniversário hoje e não ganhou parabéns, não fique triste. Eu estou te dando parabéns. Desejo,do fundo do meu coração, que o seu dia seja lindo”. Depois, claro, pediu moedas. “Você, moça, parabéns. Agora pense em mim, que fiz aniversário hoje e não ganhei nada. Me arruma uma moeda pra comprar uma Tubaína”. E a moça fechava a cara, a outra também. Uma senhora dava dinheiro só para ele se afastar logo.

Eu me divertia muito com aquilo tudo, porque cada gesto e cada palavra eram teatrais, lembrando uma imitação muito bem feita – e não vou dizer exagerada, porque eles são naturalmente exagerados – de um pastor de igreja evangélica. “Deus te abençoe”, seguia ele. “Pensa no pobre irmão que nenhum presente ganhou”.

E aí, no meio do discurso – porque a vida imita a arte, sim senhor – encosta um ônibus com um rapaz careca sentado na janela, ao lado de uma moça que bem não pude ver. Justamente nessa hora - que o destino não é de pisar na bola - o maluco da calçada olhava para o ônibus que parou. Deixou os agradecimentos a Deus na metade porque na vida dele acontecia, naquele instante, algo mais importante.

Ele correu pra baixo da janela do careca, deu dois tapas na lataria do ônibus, jogou as mãos na cabeça, desacreditado “Saaapooo! Caaaaraaaalho, é o Sapo, velho. Casou, rapaz? Tá noivo? Tá noivo!” E compartilhava com as pessoas do ponto de ônibus, ainda que ninguém desse atenção: “O Sapo tá noivo, cês viram? Tá noivo, filhadaputa!”.

O ônibus partiu levando o Sapo e a noiva, e o maluco continuou, e contou para quem quisesse ouvir que o Sapo era o melhor traficante que ele conheceu, o Sapo não tinha medo de matar ninguém, e olha só, o Sapo tava noivo! O Sapo encontrou Jesus. Saiu olhando pro chão, sorriso no rosto, balançando a cabeça. “Jesus faz cada uma...E eu?”. No sentido contrário vem um homem sério, brusco tira o cigarro da boca e lança pra si mesmo, baixinho, mas eu ouvi “Você tá aqui enchendo o saco”. E continuou amargo.

21 junho 2010

Futebol é coisa de mulher


Eu queria gostar de futebol. Tem mulher que xinga, acha pura bobagem. Tem aquelas que falam que a única coisa boa daquilo tudo são as pernas dos jogadores. Eu concordo que isso é realmente relevante, belos meninos. Mas lamento não entender nada além do 11 de um lado,11 do outro, com o objetivo fazer gol; menos aquele que fica lá no gol, que tem, obviamente, o objetivo contrário do restante.

Queria eu, que esse dias aprendi o que significa impedimento, ter uma paixão igual essa que os homens têm, que os deixa cegos, surdos e mudos para qualquer outras coisa que não seja a disputa no gramado.

Eu deveria gostar de futebol. Mas o mesmo motivo que me obrigaria a gostar me fez estar nem aí pra coisa. Meu pai é um dos apaixonados, não perde uma partida, mesmo que seja entre XV de Jaú e o Pirapozinho.

Eu, com meus 7 anos, tentei impressioná-lo, e na aula de educação física, enquanto as crianças jogavam queimada, lancei a ideia: vamos jogar futebol. Juntei mais 5 ou 6 adeptos, delimitamos o espaço do gol com pedras, separamos os times. Já no primeiro tempo percebi que a coisa não é fácil assim. Fui mandar um pênalti, me preparei, respirei fundo, mirei, corri. Pisei na bola, ela me escapou de lado, toda vagarosa, para fora do campo e eu por pouco que não cai de bunda.

A falta de gol e o fiasco do meu pênalti não me abalaram. Achei um grande feito
organizar uma pelada em terras onde o único esporte era a queimada. Cheguei em casa orgulhosa e contei para o meu pai e ele, naquele senso comum que é bem típico de muita gente, me disse que futebol não é coisa de menina. Fim de jogo.

Eu nunca comprei a história de que futebol não é coisa de menina, mas o fato de meu pai ignorar meus esforços me fez deixar essa história de lado e ir me preocupar em ficar boa na queimada.

Só que aquilo que se ignora quando criança uma hora volta, diria Freud, ou algum desses caras aí que sempre jogam na infância a culpa dos desejos e frustrações da vida adulta. Pois bem, hoje tenho o desejo de entender lance por lance e a frustração de não ser parte da nação apaixonada pelo futebol.

É de causar inveja à mais apaixonada das mulheres o sentimento de um homem diante da partida do seu time de coração. Os mais exaltados xingam, puxam os cabelos, chutam, gritam. Os contidos roem as unhas freneticamente, engolem seco, comem compulsivamente quilos e quilos de azeitonas. Não há como esconder a emoção. E eu, como representante da espécie que - dizem - é, por excelência, a rainha das emoções, fico com inveja. Sinto-me desbancada do meu posto de birrenta, exagerada, apaixonada. São os 90 minutos em que nós, mulheres, meninas, senhoras, assumimos toda a racionalidade e frieza da situação. Mas quem disse que é isso que a gente quer? Meu pai, coitado, enganou-se. Futebol é emoção. Tem coisa mais feminina do que isso?

06 junho 2010

Quem conhece a bela Olinda?


Murphy me adora, sempre me acompanha e daí, eu sempre fico muito tempo esperando ônibus e o meu nunca vem. Mas ali, na espera, eu leio os nomes dos outros ônibus, que sempre vão para uns lugares tão legais. O Nobuji Nagasawa, por exemplo, passa ao lado da feira de domingo para pegar todas aquelas senhorinhas japonesas simpáticas de lenços floridos no pescoço e carrinhos dourados cheios de frutas e, talvez, um pão caseiro. E todas as senhorinhas japonesas descem naquele bairro com casinha de telhado meio pontiagudo, triangular, com gramado em volta, onde tem uma padaria que vende manjus.

Mas o meu preferido é o Quinta da Bela Olinda, que chega naquele bairro com flores na entrada onde mora, claro, a bela Olinda, que nem é mais tão bela assim porque o tempo que alguém leva para fazer um nome que um dia mereça batizar um bairro é muito longo. Mas o fato é que a bela Olinda tem lá sua simpatia. Ela costura, pinta e canta na janela. Uma graça. Um beija-flor na porta da sala, sempre tem, porque a bela Olinda cuida de florzinhas daquelas pequenas que ficam no xaxim e se derramam todas em cachos laranja e cor-de-rosa.

E falando em beija-flor, esse é o ônibus que mais me instiga. Sempre que eu estou passando frio, ou fome (porque Murphy é um danado) no ponto de ônibus, vem o Beija-Flor e a minha vontade é esticar o dedo, subir, descer na casa de esquina que fica de frente com a pracinha do bairro, entrar, sentir cheiro do bolo no forno, sentar no sofá florido e esperar. Falar oi pra senhora que deve ser a minha avó e ver as fotos dos meus tios.

A grande frustração da minha vida é ser eu mesma todo dia. Todo dia.


02 maio 2010

Já era hora


Há tempos não escrevo, porque tanto coisa tem acontecido e eu estou esperando as coisas se ajeitarem. Mas hoje, na hora do almoço, pensei que preciso voltar a estudar inglês, mas logo em seguida, mais uma vez, pensei que é melhor esperar as coisas se ajeitarem e foi aí que compreendi: as coisas não vão se ajeitar nunca.

As grandes ideias e as melhores soluções - assim como os maiores problemas – surgem numa mesa de almoço de domingo, numa tarde ensolarada de terça-feira, ou antes de dormir, na segunda. É quando a gente não espera, e quando a gente não procurava nem problema, nem solução.

Pois foi hoje na hora do almoço que se resolveu uma grande questão da minha vida: as coisas nunca se ajeitam.

Talvez se ajeitem para você, que casou, teve filhos. Ou para você, que finalmente comprou aquela casa, fez aquela viagem. Mas somos todos diferentes, lembra? Não há fórmula de felicidade.

E ali, diante do filé à parmegiana, passou aquele filme mental, super clichê. Até hoje, foram 7 cidades, 20 casas, 9 escolas, 8 empregos, capoeira, tae kwon do, teatro, inglês, pedagogia, jornalismo, pintura, jazz, musculação e parapsicologia. 24 anos.

Era hora de aceitar: minha constância é a mudança. Eu não paro, eu não sei ficar quieta. E quando fico, sinto que não é por muito tempo.

Na infância, eu sempre soube quais eram as amizades que deveria guardar. Um dia chegava a hora de encaixotar as coisas, e aí, restavam dois endereços no fundo da mala. Pra elas eu escrevia. O resto ficava para trás.

Não há fórmulas, mesmo. Tem gente que espera a mudança acontecer para tomar uma atitude. Eu espero a mudança acabar.

Hoje foi o dia que eu aceitei que esperar não dá em nada. Vou seguir cá, mudando. Tenho é que encaixar as coisas definitivas no meio da mudança. Porque na minha coleção de coisas de outros lugares - e tempos - tem que caber as coisas de agora.

E se você está aí esperando uma mudança, entenda: talvez você seja de constâncias. Fica combinado assim: eu faço ser constante cá; e você, daí, faz mudar.

07 abril 2010

Take it easy, man


Recebi por e-mail um protesto contra a Rede Globo. Mais um. O texto discorria sobre o seguinte ponto: “Acontece que a Globo, com todo esse poder de penetração na sociedade e dentro de nossas casas, vem introduzindo, silenciosamente, uma cultura de libertinagem, traição, adultério e rompimento com a célula familiar de forma sutil”. E utilizava exemplos de cenas de novelas e outros programas para defender o argumento. O BBB, obviamente, entrou na jogada. Eu já disse tudo que penso sobre o programa em outro texto. É vazio? É. É desnecessário? É. É responsável pelo incentivo à libertinagem, como diz o tal e-mail? Não mesmo.
O ponto de maior revolta do autor foi a questão do suposto beijo gay que rolou entre Serginho e Dicésar logo no início do programa. Minha avó estranhou, meu avô fez cara feia, mas quero que atire a primeira pedra aquele que tem menos de 30 anos e nunca presenciou cena parecida numa balada, festinha ou mesmo na rua. Ok, nem todo mundo frequenta os mesmos lugares, tem gente que nunca viu nada do tipo e eu não posso julgar pelo meu círculo de relações. Vamos lá: quem não tem um amigo, vizinho, colega ou conhecido gay? E essa pessoa, que talvez você só tenha ouvido falar, porque nem contato com gay você tem, ela faz o que? Ela beija pessoas do mesmo sexo, obviamente. Talvez você nunca tenha presenciado a cena – deus me livre de ver isso, diria você, talvez – mas isso acontece em todos os lugares. Em todas as cidades. Com pessoas que trabalham, estudam, vão à igreja, têm filhos, tomam sorvete e jogam futebol. E daí, você vai querer me dizer que é a Globo que força tal ato a ser aceitável?
Eu não defendo a Globo, nem acompanho a programação – apesar de ver sim o BBB, como já disse – mas será que a rede Globo, em certos momentos, não está apenas refletindo aquilo que acontece na sociedade? Veja bem: o elenco do BBB é formado por pessoas normais, que saem às ruas, que convivem com você. Gays se beijam na boca desde muito antes da Globo mostrar o tal do “beijo gay”, que nem conotação sexual teve e nem foi tão beijo assim. E não foi uma cena criada pela Globo para embutir nos seus telespectadores um valor distorcido: eles se beijaram porque quiseram.
Óbvio que falta conteúdo à programação da Globo, assim como à das outras emissoras. Óbvio que muitas vezes os valores presentes nos personagens das novelas são colocados de forma equivocada. Óbvio que a Globo, como a emissora de maior audiência do país, deveria se preocupar mais com o conteúdo cultural. Mas é muita ingenuidade pensar que vamos ficar mais libidinosos – oh meu deus do céu – e perder os valores da família por causa da programação da TV. O adultério existe desde que o homem é homem. A homosexualidade também. Morra agora se quiser com a declaração que vou fazer, mas é verdade: nós temos desejos! Para mim, o que aconteceu com o senhor que escreveu o e-mail e não quis se identificar é aquela reação ao novo, às mudanças, ao diferente. Aquilo tão natural no ser-humano, mas tão repudiável, se conduzido da forma errada. Aquilo que pode ser chamado de preconceito, em alguns casos. De hipocrisia, em outros.



Abaixo, o texto na íntegra:



A SILENCIOSA INVESTIDA DA REDE GLOBO

Saudações!
Dias atrás eu conversava com minha esposa sobre a programação da Rede Globo, do padrão de qualidade, da audiência, do investimento gigantesco em publicidade e das inúmeras repetidoras espalhadas no Brasil e no mundo.

Acontece que a Globo, com todo esse poder de penetração na sociedade e dentro de nossas casas, vem introduzindo, silenciosamente, uma cultura de libertinagem, traição, adultério e rompimento com a célula familiar de forma sutil.

Com o advento do BBB10 a Globo conseguiu o que ela vinha tentando há muito tempo, o beijo gay ao vivo. Em duas cenas do BBB 10 aconteceram dois beijos "Gay" e quando um deles foi "líder" a produção do programa teve o cuidado de colocar sobre uma estante a foto do beijo, com isso a Globo faz com que seus fiéis telespectadores vejam o beijo gay como algo comum e engraçado, ou seja, aceitável. Agora, nas novelas globais o beijo gay vai acontecer, induzindo esse comportamento aos jovens e adolescentes, induzindo legisladores a criarem leis que abonem tal comportamento.

No mesmo BBB 10 uma das participantes declarou-se lésbica e com essa declaração todas as demais mulheres do programa se aproximaram dela sendo protagonizado o selinho lésbico no programa e todos os demais a apoiaram sob o manto sagrado do não preconceito.

Na novela Viver a Vida o tema principal mostrado de forma engraçada e aceitável
é a da traição e do adultério. A Globo leva ao telespectador ao absurdo de torcer para que um irmão traia o outro ficando com sua namorada. A traição nessa novela é a mola mestra da máquina, todos os personagens se traem, e isso é mostrado de forma comum, simples, corriqueiro.

Mas talvez, a investida mais evidente e absurda esta na novela das 6h, Cama de Gato. A Globo superou todos os limites nessa novela ao colocar como tema uma música do grupo Titãs.
Na música, nenhuma linha de sua letra se consegue tirar algo de poético, de aconselhável pra vida ou de apoio. A letra da música faz menção discarada do Inimigo de nossas almas que deseja entrar em nossa casa (coração) e destruir tudo, tirarem tudo do lugar (destruir a célula familiar e nossa fé).

A música chega ao absurdo de dizer que devemos voltar à mesma prisão, a mesma vida de morte que vivíamos.

Amados amigos, fica o alerta, às vezes nem nos damos conta do real propósito de uma novela, de um programa, de uma música, e como Jesus esta às portas, as coisas do mal estão cada vez mais evidentes e claras. Até os incrédulos estão percebendo que algo esta errado.

Aproveito para trazer ao conhecimento a letra dessa música, cuidadosamente escolhida pela Globo para servir de tema da dita novela;

Música de abertura da novela.

Vamos deixar que entrem Que invadam o seu larPedir que quebrem Que acabem com seu bem-estarVamos pedir que quebrem O que eu construi pra mimQue joguem lixo Que destruam o meu jardim
Eu quero o mesmo inferno A mesma cela de prisão - a falta de futuroEu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Vamos deixar que entrem Que invadam o meu quintalQue sujem a casa E rasguem as roupas no varalVamos pedir que quebrem Sua sala de jantarQue quebrem os móveis E queimem tudo o que restar
Eu quero o mesmo inferno A mesma cela de prisão - a falta de futuroEu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno A mesma cela de prisão - a falta de futuro O mesmo desespero
Vamos deixar que entrem Como uma interrogaçãoAté os inocentes Aqui já não tem perdãoVamos pedir que quebrem Destruir qualquer certezaAté o que é mesmo belo Aqui já não tem beleza
Vamos deixar que entrem E fiquem com o que você temAté o que é de todos Já não é de ninguémPedir que quebrem Mendigar pelas esquinasAté o que é novo Já esta em ruinas
Vamos deixar que entrem Nada é como você pensaPedir que sentem Aos que entraram sem licençaPedir que quebrem Que derrubem o meu muroAtrás de tantas cercas Quem é que pode estar seguro?
Eu quero o mesmo inferno A mesma cela de prisão - a falta de futuroEu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno A mesma cela de prisão - a falta de futuro O mesmo desespero
Imaginem tudo isso entrando em sua casa...

Quando você liga sua televisão, você abre uma janela para entrar em sua casa coisas boas ou ruins - isso é uma questão de escolha.
Imaginem nossas crianças cantando isso? Trazendo isso pra dentro do coração e da alma delas? Imaginem você cantando isso?
Tente imaginar de onde o compositor dessa "pérola" tirou inspiração para compôr tamanha afronta?
Ai pergunto, pode porventura vir alguma coisa boa da Rede Globo?
Pensem nisso, anunciem isso, façam conhecer, livre malguns dessa humilhação, dessa opressão, dessa falta de futuro, dessa cela de prisão.
Se você ama a sua família comente isso com os seus filhos e não deixe os seus amigos de fora. Esta situação não pode continuar.

04 abril 2010

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Todo amor vira rotina. Fosse mentira, as capas da revista NOVA com 100 dicas para não deixar o romance esfriar não venderiam tanto e os livros de 203 maneiras de enlouquecer um homem – ou uma mulher – na cama não seriam sucesso. Ninguém precisa enlouquecer ninguém na cama quando tudo ainda é novidade; só o fato de tirar a roupa já garante mil e uma loucuras.
Mas um dia vira rotina, não tem jeito. Chega a hora em que toda noite tem “boa noite” e todo dia tem “bom dia”. Cada detalhe do corpo é decorado como mapa: nenhum arranhão passa despercebido. Todo final de ano tem a dúvida “minha família ou a sua?” e todo final de semana tem a correria para aproveitar o tempo juntos. E tem, toda semana, a reclamação da falta de atenção. É inevitável.
O romance caiu na rotina? Não se desespere: todos eles caem. Menos aqueles que terminam antes disso.
A rotina - acreditem - chega junto com o amor. É quando vocês, por fim, se conhecem, sabem das limitações um do outro e ainda assim se querem lado a lado.
Bobo é você que acredita que suar frio e sentir o coração na garganta é amor: isso é paixão. E bobos somos nós que temos mania de achar que a rotina é ruim.
Rotina é ruim pra quem é chato e não sabe ver beleza em coisas simples. É ruim pra quem não tem paciência de esperar o dia seguinte pra dizer mais um bom dia, olhar nos olhos e ver que bonito que é aquele sorriso. Quem ama de verdade sabe que o bom dia todo santo dia é essencial para o dia ser, de fato, bom. Quem ama não cansa com a repetição porque, afinal, se é repetição de algo que faz bem, é alegria garantida todo dia, mesmo que sem um furacão de emoções.
Então você me diz que rotina não é com você e não tem jeito. Eu entendo. Não existem regras nessa vida, e ter alguém do seu lado para sempre não é obrigação. As opções são muitas. Tem gente que nasceu para ser feliz no dia-a-dia. Tem gente que nasceu para não contentar-se nunca. (Mas isso é assunto para outro post)