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19 fevereiro 2015

preta, pretinha



eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.


fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.


eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição. 

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

.

(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

04 fevereiro 2015

helô



Uma vez eu postei no facebook uma foto minha de quando era criança. Meu irmão, quatro anos mais novo que eu, comentou "que coisa linda". Respondi que eu tinha uma vantagem sobre ele: eu pude vê-lo daquele tamanho, ao vivo e a cores. Ele não pôde me ver. 

Um dia, falei para minha irmã que eu sabia como era minha vida sem ela, mas ela não sabia como era a vida dela sem mim. Foi para reforçar a minha importância na vida dela. O que ela não sabia é que tal constatação na verdade reforça a importância da vida dela na minha. 

Eu sei o que foi minha vida sem ela, e sei o quanto minha vida melhorou depois da chegada daquela menininha de olhos tristes.

Hoje minha mãe mandou pelo whatsapp a foto de uma estrada, vista pela janela do carro. No canto, pude ver o braço do meu pai, e perguntei para onde iam. Ela me contou que estavam indo até Londrina - quilômetros e quilômetros distante da casa deles - para encontrar um lugar para minha irmã morar. Minha mãe me respondeu como quem conta que vai a feira. Eu fiquei em choque, e quis saber onde, quando, como e com quem. Eu quis dar conselhos. Eu, se pudesse, não deixava ir.  

Eu estou orgulhosa. Contei pra todo mundo que minha irmã passou no vestibular. Mas aqui de longe, ando rezando e roendo as unhas. Eu ouvi as primeiras palavras, vi os primeiros passinhos. Dei o primeiro livro, contei histórias, ví os primeiros rabiscos. Sei que fiz um bom trabalho. Vai dar tudo certo, mas é impossível evitar a comoção. 

Minha mãe já conhece essa história. Para mim, ainda é novo. É a primeira vez que minha pequena sai de casa. 

25 janeiro 2015

je suis adele



de março de 2014:

"Existe um termo, não sei em qual língua ou origem - na verdade, estou com preguiça de pesquisar - enfim, o termo é serendipity, que deve ter uma história bem empolgante e pode valer a pena pesquisar, já que ele traduz em apenas uma palavra o conceito de encontrar as coisas sem estar procurando. É algo como a capacidade do encontro, sem que haja a necessidade louca e ansiosa da procura. Ou, em termos bem chulos, estar de bobeira e encontrar do nada uma coisa bem bacana, tipo 'como eu fui viver tanto tempo sem isso'. Mas o termo é ainda mais fascinante porque faz a leitura de que para este encontro acontecer é preciso uma pré-disposição das pessoas, que se manifesta independente da nossa vontade. Tipo encontros inevitáveis. Acho que por isso, por conter um significado tão difuso e belo, que o termo não tem tradução boa para o português, ou se tiver perde a sua força. Assim como a palavra saudade, que dizem, não existe em nenhuma outra língua, a não ser no português"

esse é um trecho de um e-mail que recebi, e este e-mail chegou na minha caixa de entrada no exato momento em que eu pensava em te escrever o que vem a seguir.

ontem assisti "azul é a cor mais quente", e o filme fala sobre relacionamentos e sobre as coisas inevitáveis da vida, como se apaixonar, se envolver ou, eventualmente, sofrer. eu passei a noite pensando em você, e no quanto aquele filme falava sobre mim, em quantas vezes eu chorei as mesmas lágrimas de adele, em quantas vezes eu fui adele e quantas vezes não quis mais ser e em como estou aqui, novamente (e felizmente) sendo, mas desta vez vivendo a parte feliz e acreditando que ela pode durar para sempre. 

hoje apareceu aqui um texto que você curtiu ou comentou, algo assim, sobre a busca pela felicidade, e eu voltei a pensar nisto tudo que tenho vivido. eu fiz algo que, de longe, parecia grandioso. deixei emprego pra lá e vim morar no lado de cá por um tempo. agora, tudo parece bastante claro. eu sou feliz quando acordo às 7h da manhã no sítio, aí no interior do estado de São Paulo, e tomo café. sou feliz quando estou deitada no sofá e o gato vem deitar no meu colo. e sou feliz quando ouço uma música deitada ao seu lado num dia quente de verão. por aqui as coisas são boas, mas eu entendi que felicidade não mora em grandes atos. eu já desconfiava, agora ficou claro. 

então, já no fim do texto, apareceu isto aqui: "Se a felicidade se tornar o grande objetivo a ser alcançado em sua vida, então ela será para você um verdadeiro pesadelo. Mas quando, para você, a felicidade está nas pequenas coisas, na forma pela qual você as vive (…) sua casa torna-se um templo, seu corpo se torna a morada de Deus, e, para onde quer que você olhe e qualquer coisa que você toque, se torna imensamente bela, sagrada – então, a felicidade é liberdade". 

serendipity é isso tudo que aconteceu hoje, esses mil encontros e coisas fazendo sentido e completando o que eu queria te dizer. 

estava olhando o passado nos e-mails e me deparei com este aqui. achei que valia guardar. 

12 janeiro 2015

Mes chagrins, mes plaisirs



Eu estou triste por passar 2015 longe do Brasil. Já não bastassem os vários feriados e a reprise de “o rei do gado” no vale a pena ver de novo, tem também turnê da Maria Bethânia. E é turnê da Maria Bethânia cantando “je ne regrette rien”, uma das músicas mais bonitas que alguém (no caso, o francês Michel Vaucaire) já escreveu. 2015 vai ser um ano gostoso para se estar no Brasil, e eu estarei longe.


Tem feito calor todo dia, tem praia, tem piscina, tem os amigos e a família e todo o amor do mundo nos braços deles. Lá do outro lado faz frio, o dia dura poucas horas, a comida não me agrada e tem saudades. Eu poderia ficar por aqui, cancelar a passagem, pedir aos amigos de lá que me enviassem as tralhas que deixei, procurar um emprego no Brasil, voltar para o jornalismo, começar de novo, alugar apartamento, ser feliz. Mas eu me apaixonei.


Toda vez que estou de partida eu me apaixono. Aconteceu quando eu me despedia do Brasil. Aconteceu agora, na minha despedida da Irlanda.


Eu sou racional para muitas coisas, como não comer doce de barriga vazia porque sei que me faz mal, ou não tomar sol no rosto apesar de amar o sol. Mas a gente sabe que razão e paixão - dessas que envolvem uma outra pessoa que meio que se encaixa naquilo que a gente sonha - são antônimos.


E então eu, que estava vindo sem passagem de volta para lá, que deixaria para decidir depois, que iria inconscientemente esperar que o Brasil me convencesse a ficar, eu que deixei tudo meio no jeito para o caso de alguém precisar vender as minhas roupas de frio, eu vou voltar.


Tenho um amigo que também está de mudança. Nos encontramos no fim de semana e ele falou: tô igual você, resolvi arrumar um amor por aqui bem agora que vou embora. Ele me mandou o vídeo da Bethânia cantando je ne regrette rien. Ele vai vê-la, eu não. Mas ele sabe que ela canta para nós.

Para a gente que se apaixona e faz tatuagem, que abandona faculdade, troca de emprego, larga família, cria desafetos, bebe demais, escreve cartas, textos, mensagens, compra passagem, a gente que não se arrepende de nada, mesmo.

13 novembro 2012

que se chama amor

Um tipo que sempre despertou meus sentimentos (aflição, curiosidade e ternura) é gente que chora em público. É ver gente chorando pela rua que me bate a vontade quase incontrolável de chamar pro bar mais próximo, perguntar o que aconteceu, saber o que foi de tão grave, tão urgente, que fez aquela criatura derramar as lágrimas ali mesmo, sem tempo de chegar em casa.

Até que hoje, a pessoa chorando pela rua era eu. O motivo eu sabia bem: o Espeto morreu. Espeto, o gato rueiro que adoeceu devargarzinho e foi embora antes da hora.

Caminhei e chorei esfregando o nariz vermelho, pensando em pegar todos os gatos de rua do mundo, levar todos pra casa e ver eles crescerem e subirem em árvores.

Dez anos antes morreu a Rami, uma cachorra também rueira. Eu gostava de sentar na porta de casa com ela do meu lado, deitada no tapete. Rami ficava ali, fazendo nada, eu também. Foi a melhor companheira de fazer nada que eu tive.

Um dia ficou doente. Foi piorando e parou de andar, quase não comia, só chorava. Não teve jeito: meu pai decidiu levar ao veterinário mas deixou avisado que talvez ela não voltasse. Eu lembro dela me olhando quando saí para trabalhar naquele dia. Foi o jeito que ela arrumou para me dizer adeus, com o queixo apoiado no chão e os olhos tristes. Quando voltei, só meu pai estava em casa. Ela não.

Naquele dia eu decidi - como faz muita gente - que não queria mais bicho de estimação. Meus pais arrumaram outros, vários. Eu nunca desgostei, mas não me envolvia.

Brincava vez ou outra, sem apego, pra não doer.

Até que chegaram os gatos, dois, da rua, que uma moça que trabalha comigo achou. Era para ficarem em casa até que arrumássemos um lar definitivo. Um dia eu estava sentada na sala e vieram os dois quietinhos, se aninharam cada um de um lado nas minhas pernas cruzadas e dormiram. Um jeito um tanto eficiente de disseminar amor: impondo-o a quem o rejeita.

No dia seguinte marquei veterinário, comprei caixinha de plástico pra pôr areia e joguei fora a de papelão. Eu, naquele dia, ainda não sabia, mas hoje sei que os gatos quebraram a barreira imaginária que eu havia colocado entre mim e os animais quando a Rami morreu.

Tem gente que prefere não ter mais bicho nenhum, nunca mais, depois que enfrenta a morte do primeiro. Eu já fui assim, hoje não sou. Não sei se é carência, maturidade, noção da finitude da vida e da efemeridade das coisas, desespero, chamem do que quiser. A dor é cruel, mas para mim é ainda melhor que dor nenhuma. E não há diferença alguma entre gente como eu e gente que escolhe o afastamento: inevitavelmente, estamos todos à beira do abismo.

27 fevereiro 2012

O que fica

Por mais que a gente enlouqueça e queira fingir que é para sempre, e deseje agarrar, segurar, prender no porão ou num potinho, ou adie mil vezes o fim quando ele está em nossas mãos, não tem jeito: as pessoas passam. Falo com certa sanidade que em verdade não me pertence: sofro cada vez que lembro que nada é para sempre.

Mas em pequenos descuidos, quando a alma está acalmada, percebo o que de bom fica de quem foi. Outro dia comprei um CD do ACDC, e estranhei. Quatro anos antes eu não faria isso. Lembrei-me do menino que fez-me interessar por ACDC, pegar gosto por pipoca e ver filmes de Wes Anderson.

Hoje janto pipoca sempre que posso, e os filmes de Wes Anderson são dos meus preferidos.

Quando relacionamentos acabam, a gente tende a pensar em tudo que perdeu: tempo, dias, planos, amor. Mas tão bonito é descobrir, nos entraves do dia-a-dia, as coisas que ficaram, e que somaram ao que éramos, e que fazem o agora.

19 agosto 2011

Presente

"Você é a mulher mais linda de Bauru. E Bauru é a cidade mais linda do Brasil. Então pode-se concluir que ou eu sou um doido idealizador, e, na minha cabeça, você é a mulher mais linda de Bauru e Bauru é a cidade mais linda do Brasil; ou de fato você é a mulher mais linda de Bauru e Bauru é de fato é a cidade mais linda do Brasil. Ou ainda, quem pode saber ?, pode ser que Bauru seja meio chinfrim, mas você, ai de mim !, ser a mulher mais linda do Brasil...

A meteorologia deu ventos moderados para hoje. Os analistas acham que o preço do barril de petróleo vai continuar instável com tendência de alta e que o governador do Rio, Sérgio Cabral...

Apesar de tudo, o Rio ainda é uma bela cidade. Talvez não tanto quanto Bauru, mas...

...a vida continua. Não é assim que tem que ser?"


Ganhei há tempos esse presente, e achei que poderia colocar minha modéstia de lado por uns instantes, além do medo que me deu de um dia o facebook sumir com ele. O poeta é o Dedé.

11 junho 2011

amor é coisa simples



Toda sala de primeira ou segunda série tem aquele menino loirinho dos olhos azuis ou moreninho do sorriso lindo que vira logo o namoradinho de todas as meninas. Menos o meu. Eu sempre escolhia os das sardinhas no rosto, magrinhos, de óculos. Os que eram amigos do namoradinho-de-toda-menina, e que não recebiam tanta atenção assim daquelas menininhas. Os que faziam coisas esquisitas, como o japonesinho que passava cola verde nos dedos e eu ficava a aula inteira parada, olhando, até a professora dar uma bronca e ele guardar a cola, esperar ela virar as costas e continuar.

Eu tenho poucas lembranças do meu primeiro namorado: o cabelo cortado em formato de tigela, os dentes tortos e o shorts azul. Chamava Leandro e não sabia escrever. Era só a primeira série.

Era dia do mingau cor-de-rosa na escola, eu entrei na fila, peguei meu prato de plástico azul cheio de mingau cor-de-rosa e sentei sozinha na mesa de madeira. Eu era sempre a aluna nova, e naturalmente acontecia de uns dias ficar sozinha até encontrar amigas novas na escola nova. Ele sentou do meu lado, ficou mudo me olhando comer o mingau rosa. Eu permaneci muda comendo o meu mingau rosa, olhando para o prato e brincando de raspar a colher no fundo. Quando acabou, fomos para a sala de mãos dadas e eu sabia: agora ele era o meu namorado.

Passou uma semana e nosso relacionamento estava tão bem que meu namoradinho chamou a professora. Ela abaixou e ele falou no ouvido dela. Do fundo da sala, eu prestava atenção. A tia olhou pra mim e sorriu. Depois, escreveu alguma coisa em um papel e entregou para o meu namoradinho. Ele abriu a mochila, tirou de dentro outro papel. Pegou o lápis da tia e o papel dela. No papel dele, copiava o que ela tinha escrito. Depois, me entregou. Abri o cartão com flores amarelinhas desenhadas e lá dentro estavam as letrinhas tremidas, todas de forma, à lápis: Carol, eu te amo. Ass: Leandro.

Mingau cor-de-rosa e meu primeiro “eu te amo” também são coisas que me lembram o meu primeiro namorado.


*quem me inspirou esse post foi o marquinho, por causa dessa histórinha aqui.

09 fevereiro 2011

bittersweet

Os livros, o jornal, a cerveja, os amigos, o sono, os meninos, as músicas, a família, a vaidade e a preguiça dividem meu tempo com ainda outra coisa: as lagartas. Minha vida é um eterno fugir delas: não passar embaixo de coqueiro, cortar a goiaba em pedacinhos, fugir das borboletas. Eu tenho medo.
E eu tenho irmãos. Não existe relação mais ambígua, confusa, enlouquecida, do que a de irmão-pra-irmão. Uma vez meu irmão me jogou uma lagarta preta e laranja: coisa mais feia que eu já vi. Eu gritei, corri, chorei e tive pesadelo, nessa ordem. Ninguém pode falar mal dos meus irmãos, mas eu posso. Eu posso falar que a Helô é muito chata pra tudo: roupas, músicas, filmes. Eu posso falar que o Franco sabe ser insuportável. Vocês não podem. Nesse dia meu irmão foi a pessoa mais ridícula que eu já vi. Eu queria ficar 3 anos sem falar com ele: durou 3 horas. Hoje ele me irrita por ser mimado, e a gente briga rotineiramente.
Eu sempre corto a goiaba em pedacinhos, e sempre escolho as vermelhas que é pro bicho não se esconder no branco da goiaba branca. Já achei muitos bichos, mas sempre faço assim: jogo longe a goiaba, depois pego bem no cantinho e mando pro lixo. Acaba, o bicho some.
Hoje eu só cortei a goiaba em dois pedaços, e mordi: eu devia estar muito confiante – ou muito despreocupada. Mordi e logo vi ali pendurado um pedacinho branco de qualquer coisa que mal pude reparar no que era: sai correndo, e a única pessoa por perto era meu irmão. Ele confirmou: tinha mesmo um bicho lá, mas falou que eu não mordi não, estava inteiro. Cortou o resto da goiaba em 30 pedacinhos pra me mostrar que olha, não tinha bicho nenhum mais, eu podia comer tranquila. O meu irmão é mimado, ele não sabe se virar sozinho. Eu divido meu tempo ainda com outra coisa: implicar com ele. Ele não sabe se virar sozinho, mas sabe cuidar da irmã mais velha que ele tem.

12 janeiro 2011

Entre aspas

'eu vou comprar a revista que tem a menina que é a sua cara. vou colar na porta do quarto, no caderno, na agenda, dobrada carteira. vou fugir correndo do trabalho e comprar a revista da menina que é é a sua cara. só te vi uma vez mas eu lembro, embora houvesse tanta vodca, e vinho, e cigarro, e música e gente. embora ela seja só uma menina de uma revista, e talvez possa até ser mais interessante que você, mais esperta que você, mas eu não quero saber. embora ela não tenha a sua voz e o cheiro do seu cabelo ela ainda é a sua cara. embora ela não seja você, é melhor do que seguir sem nada seu (ou que eu tenha inventado que é um pouco de você)'.

14 julho 2010

As horas que não foram


Não sei se vocês sabem porque é que existe o ano bissexto, e nem sei se esse nosso 2010 foi um ano assim, mas eu fiquei a pensar. E aí, como imagino que alguns saibam, outros não, ou que alguém aqui nunca se preocupou com isso, eu vou contar (e quem já sabe faz cara de surpresa, ok?).

Acontece que os sumérios – aqueles caras da Mesopotâmia mais antiga que já se viu - inventaram de dividir os dias desse jeitinho que hoje a gente conhece: com 24 horas. Só que na real, não é assim que a banda toca, e no final de 365 dias, ou de 8760 horas, sobravam uns quebrados.

Ficavam lá, perdidas na imensidão desse universo, seis horinhas que não podiam virar dia nem noite. Mas como não dá pra ir empurrando tudo com a barriga e usar essas horas todas juntas num final que não se sabe se existe (e se existir ninguém vai receber aviso prévio), alguém – e aí já não sei se é sumério, romano ou grego – fez o favor de deixar certo que de quatro em quatro anos juntaríamos as horas abandonadas: seis mais seis = doze, com outros doze = 24, e faríamos um dia.

Pois é, um dia a mais, ali, no finalzinho de fevereiro. E por que nem dezembro, nem janeiro, justo fevereiro? Porque fevereiro, reparem só, foi um mês que já nasceu perdendo. No começo, lá no calendário romano, o nosso mês do carnaval nem sequer existia e o ano, que maravilha, começava em março, mas isso é assunto pra outra história.

Assim ficou: de quatro em quarto anos fevereiro, o injustiçado, ganha um pouco de justiça e acaba mais tarde. Ganha um dia a mais. Mas não um dia qualquer, porque – e é aí que está o sentido dessa minha enrolação toda – é um dia feito de horas que esperaram quatro anos para acontecer. Um dia feito de horas que deram o lugar na fila e que por quatro anos deixaram as outras horas banais passarem na frente. Horas que ficaram guardadinhas num canto escuro do infinito, contando os minutos.

E aí, no meio do cotidiano todo, da correria do dia a dia, chega a hora daquelas horas serem passo a passo passadas pra trás e finalmente caírem na caixa mágica das horas já usadas. E você aí, achando que uma fila de banco é muito. Elas esperam quatro anos – umas menos, é verdade – pra poder fazer todo o sentido daquela efêmera existência. Afinal, horas só nasceram para isso: serem gastas, serem usadas, serem passadas.

Então, já sabem: no próximo 29 de fevereiro pensem bem no que vão fazer. Trata-se de lidar com alguém muito paciente. É um dia muito especial.



Esse texto foi todo feito com ajuda do Théo, que veja só, há quatro anos faz meus dias serem todos 29 de fevereiro.

04 abril 2010

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Todo amor vira rotina. Fosse mentira, as capas da revista NOVA com 100 dicas para não deixar o romance esfriar não venderiam tanto e os livros de 203 maneiras de enlouquecer um homem – ou uma mulher – na cama não seriam sucesso. Ninguém precisa enlouquecer ninguém na cama quando tudo ainda é novidade; só o fato de tirar a roupa já garante mil e uma loucuras.
Mas um dia vira rotina, não tem jeito. Chega a hora em que toda noite tem “boa noite” e todo dia tem “bom dia”. Cada detalhe do corpo é decorado como mapa: nenhum arranhão passa despercebido. Todo final de ano tem a dúvida “minha família ou a sua?” e todo final de semana tem a correria para aproveitar o tempo juntos. E tem, toda semana, a reclamação da falta de atenção. É inevitável.
O romance caiu na rotina? Não se desespere: todos eles caem. Menos aqueles que terminam antes disso.
A rotina - acreditem - chega junto com o amor. É quando vocês, por fim, se conhecem, sabem das limitações um do outro e ainda assim se querem lado a lado.
Bobo é você que acredita que suar frio e sentir o coração na garganta é amor: isso é paixão. E bobos somos nós que temos mania de achar que a rotina é ruim.
Rotina é ruim pra quem é chato e não sabe ver beleza em coisas simples. É ruim pra quem não tem paciência de esperar o dia seguinte pra dizer mais um bom dia, olhar nos olhos e ver que bonito que é aquele sorriso. Quem ama de verdade sabe que o bom dia todo santo dia é essencial para o dia ser, de fato, bom. Quem ama não cansa com a repetição porque, afinal, se é repetição de algo que faz bem, é alegria garantida todo dia, mesmo que sem um furacão de emoções.
Então você me diz que rotina não é com você e não tem jeito. Eu entendo. Não existem regras nessa vida, e ter alguém do seu lado para sempre não é obrigação. As opções são muitas. Tem gente que nasceu para ser feliz no dia-a-dia. Tem gente que nasceu para não contentar-se nunca. (Mas isso é assunto para outro post)

03 março 2010

Sobre amor


Você liga, ela atende, avisa que está na academia e desliga. Mal conversam: ela tem mais o que fazer. A noite, você sabe, ela vai te procurar, dizer que ama e que já está cheia de saudades. Ela está longe, mas vive tão bem, a danada, sem você. Ainda assim, você sabe que ela faz o que pode para passar um fim de tarde ao seu lado.

Se você cansar e pedir um tempo ela não vai parar de comer, não vai ameaçar suicídio, não vai escrever cartas e cartas, tampouco precisará de antidepressivos. Ela vai chorar, mas vai sobreviver. Bem, muito bem, ao lado de amigos, família, novos conhecidos. Vai sentir sua falta quando ler um poema, quando for ao cinema e acompanhar na tela a história de um amor sem fim. Mas vai continuar vivendo e continuará sendo feliz.

Ela não precisa de você na vida dela. Ela almoça sozinha, faz compras sozinhas, faz sexo e planos sozinha. Sem você na vida dela, ela pode viajar mais, pode dormir na casa de uns amigos distantes que você, ao lado dela, jamais permitiria, pode ler mais, pode conhecer outras pessoas, pode ir a mil festas, pode voltar a conversar com aquele ex, pode usar saias curtas, pode estudar mais, pode pintar o cabelo de preto. Sem você ela pode tanta coisa! E ainda assim, ela quer você na vida dela. Ela sabe dos seus planos, conhece seus gestos e seus olhares, sabe das suas paixões e seus ódios, sabe das suas músicas preferidas e conhece o cheiro das suas camisas, conhece a cara que você faz quando assiste filme de terror, comédia ou quando faz sexo, sabe como você age quando está nervoso e quando tem um pesadelo, sabe seu modo de pedir desculpas e sua maneira de mostrar que ama, viu fotos de quando você era criança, sabe do seu passado e sabe o seu jeito preferido de arrumar o cabelo. Ela te conhece. E ainda assim, ela te quer. É POR ISSO MESMO que ela te quer. Quando o caminho se divide em dois, ela sabe soltar a sua mão e, ainda assim, continuar caminhando ao seu lado.

Amor é isso: não precisar.

04 junho 2009

Orgulho

Quando ele me falou que estava indo, eu juro que não liguei. Hoje mulher nenhuma precisa de homem pra viver. A noite, na cama vazia, derrubei umas lágrimas que era pra não passar em branco. Lembrei de tirar a aliança .As vezes até ia brincar com ela, como se ainda estivesse lá. Senti por umas horas a mão vazia e, por fim, mais leve.
Dois dias depois, cismei de ver um filme. Eu não sabia o que fazer sem ter com quem comentar uma cena, uma roupa, uma atriz. Chorei de raiva.
Outro dia, fazia compras quando senti um frio na espinha: era falta daquela mão áspera na minha cintura. Eu estava ali, na sessão de congelados e só ele sabia que lá eu sempre sentia frio. A saudade daquela mão me matava: encaixava tão certo na curva da minha cintura. Encaixava tão certo em mim quando eu sentia frio, medo ou desespero. Comprei uma lasanha para dois e chorei de arrependimento pois ia ter que comer sozinha.
Cansei de chorar por bobagem e resolvi arrumar de vez minha vida: limpei os armários. Mas lá no fundo, num cabide misturado aos meus vestidos, estava a camisa azul. Velha, surrada, suada. Eu não preciso de homem, mas precisava ter motivos pra pôr aquela camisa e ir cozinhar uma coisa gostosa pra dois. Peguei a camisa, pra rasgar e jogar no lixo. Chorei de raiva por ele ser tão esquecido e não ter levado aquilo embora. Chorei de raiva por eu não ter verificado no mesmo dia se aquele maldito não havia deixado nenhum vestígio. Chorei de saudade das noites em que aquela camisa foi meu pijama e que aquela mão áspera se aconchegava na curva da minha cintura.
Hoje eu olho essa marca branca onde antes ficava a aliança. Tudo que faço é chorar

24 novembro 2008

TPM ou é só amor mesmo?

Justo hoje. Justo hoje que eu tomei coragem e pedi pra você não vir, tudo desequilibrou. Essa coisa de hormônio, de TPM, de remédio. Essa coisa de saudade, de final, de quase Natal.
Eu penso que quando eu penso, faço bobagem. Ser racional não dá sempre certo. Não comigo. Eu pensei: hoje não. E agora nem me concentrar eu consigo.
Eu tento, porque preciso. Mil coisas pra ler e aí, pedi pra você não vir, pra eu poder me concentrar. E você não veio. E agora, o barulho do carro que passa lá embaixo me desconcentra. Eu tenho certeza que se você estivesse atrás de mim, sem falar nada, estaria tudo bem. Mas você não está e eu fico parada, olhando pro nada, pra folha que só fica branca, pras letras que nunca vão formar frases sem você por aqui pra fazer algum sentido em alguma coisa.
Fica tudo sóbrio demais sem seu cheiro quente no ar. E se agora eu fizer um café, só vai me dar um tormento, um tremor, talvez. Café é coisa tão sozinha. É tanta solidão. E eu sei que não vou fazer café que é pra não assumir que fui eu que quis ficar aqui sozinha hoje.
Vem a fome e me desconcentra. Culpa minha, outra vez, mas não vou assumir isso. Eu poderia fazer um lanche, mas lanche essas horas sem você, pra quê? Nunca fiz, isso é coisa de depois de você na minha vida.
Você poderia agora colocar a mão na minha cintura e me acalmar. Mas eu, hoje, não quis.
Eu quis ficar sozinha pra poder escrever. E agora tô aqui escrevendo sobre você. Justo hoje, que tenho tanta coisa pra fazer. Justo hoje, a madrugada tá passando muito rápido. E, ainda bem.

24 maio 2008

Sempre que penso em escrever sobre ele, nunca sei. Nunca tenho palavra ou pensamento concreto pra sentimento tão grande.
É quem me faz passar por dores, e quem depois as alivia .
Eu olho pra ele e penso que é tudo que eu queria, e nem acredito que isso existe, isso de se ter tudo que um dia a gente quis: choro de madrugada e desculpas. Beijos de despedida e saudades. Bombons em dias comuns. Sintonias de pensar junto na música ou na cor.
É como no dia que ele cismou de ir embora pra sempre, e eu nem pra pedir pra ficar tive forças. Chorei sozinha, e quando vi que era tudo brincadeira dele, pensei: esse menino me ama. Ele me fez acabar por uns minutos, e tudo que eu pensava era amor.
É tanta dor, e tanto amor, e no fim é tudo junto e eu já nem sei mais, e prefiro só ficar calada, sorrindo e chorando, o que merecer o momento.
Toda vez que eu acordo de manhã e vejo ele dormir me dá vontade de mudar de vida, morar na praia e dormir em rede. Com ele, e só.
Daí que eu sei que isso é amor, essa coisa com ares de fim de tarde, que é leve e pesado, depende de como está nosso coração. É nunca de manhã, tão puro. E nunca de noite, tão pesado. Um e outro, sempre junto. Ciúmes de rasgar a pele e carinhos dos mais tranqüilos. Medos incertos e vontades de cinco filhos. Adeus pra sempre e adeus nunca mais. Me deixa só e me leva embora.
É meu paradoxo e meu complemento. É aquilo que eu sempre quis, é a palavra que eu nunca vou saber dizer.


[E se desconfiar da minha alegria excessiva, saiba que a culpa é toda sua.]

16 abril 2008

...mas o seu amor me cura de uma loucura qualquer...

O amor dói. Um dia você desconfiou de mim. Um dia eu errei. Um dia foi cada um para um lado.

Foram então portas batidas, cartas rasgadas, telefones desligados, costas viradas sem adeus, sem palavra.

Me doeu no peito, na garganta, na barriga, o fim do amor. Deu vontade de vomitar todo o amor engolido, todo o desespero guardado. Deu vontade de rasgar a roupa, quebrar o espelho, fugir de mim. Deu vontade de chutar a porta, bater o carro, pra extravasar a dor. Sair sem rumo, pra deixar pra trás o fim.

Veio dia de chuva e eu chorei. Veio dia de sol e eu nem vi.

Um dia você voltou atrás, me olhou nos olhos e me abraçou. Deu vontade de chorar, de ser criança, de ver o pôr do sol, de deitar na cama e me deixar só, com você.

O amor cura a dor.

21 fevereiro 2008

nuvem

"...e até quem me vê
lendo o jornal
na fila do pão
sabe que eu te encontrei..."
(los hermanos)


E nem a tolha jogada no chão me incomoda: é evidência da presença dele, assim como aquele cheiro que fica no ar, cheiro doce e atraente, misturado com cheiro que tem o rosto da gente quando acorda.

É a presença silenciosa que me acalma e nunca me irrita ou cansa, por mais que tenha gestos com intenção de irritar. A gente finge irritação, que é porque encaixa com a brincadeira. Aquelas brincadeiras tão intimas que só quem está na cena entende, mesmo sem assumir que está brincando. Joguinhos de amor.

E quando ele faz coisinhas como cuidar da flor, ou trocar a TV de lugar, ou então lavar a louça, é aquele encanto silencioso, aquela vontade de: parar o tempo, congelar a cena, abraçar pra sempre, deitar no colo e sorrir, aconchegada.

Aquela presença tranqüila e alegre, de meias jogadas pelo chão, é que traz do fundo a vontade de ser criança pra não ter que fazer coisa alguma e só ficar por ali, olhando e inventando assuntos passageiros que duram toda uma tarde.

E quando ele aparece com sorrisos fazendo mil surpresas no meu dia, eu ai, nem sei o que dizer. E são supresinhas-chocolate, ou susto com beijo depois.

Quando ele diz que vai me fazer companhia, eu sei que é mentira: vai nada, vai encher meu dia de pequenas felicidades, borboletinhas coloridas.

É rotina que nunca cansa, porque a rotina se engana e se inventa o tempo todo. É sempre outra coisinha surgindo, às vezes briga, às vezes beijo, às vezes bolo de chocolate. Detalhes que vão garantindo que toda noite vai ter beijo e eu te amo, por telefone ou não.

Por isso que toda vez quando eu penso em fugir, paro, dou um passo pra traz e volto com os braços abertos. Ele me recebe e sempre me promete um fim de tarde lindo. E o fim de tarde sempre vem.


"...que pra nós dois
sair de casa já é
se aventurar..."

02 novembro 2007

Depois

E depois da despedida foi que tudo lhe caiu sobre os ombros, a cabeça. É assim que acontece, às vezes não é bonança que se segue à tempestade, mas sim uma leve tormenta, talvez uma nuvenzinha preta fique lá no céu, incomodando. E assim foi. Passada a tempestade, pensava em como seria amanhã. Acordar sem ele ao lado. Não beijar, não dizer oi, não perguntar se sonhou. Sobraria mais tempo para o café da manhã. Talvez nunca mais chegasse dois ou três minutos atrasada no trabalho. Sobraria tempo no dia, poderia ler, caminhar, voltar para a academia. Poderia dormir mais ao invés de passar tardes conversando ao pôr do sol. E os filmes, como é mesmo ver um filme sozinha? Nem se lembrava mais. E sexo? Como serão os outros? Há anos era aquele o único homem de sua vida. Como beijar outro agora? Os olhares, ah, os olhares dele...E então pensou nas suas unhas que agora certamente voltariam a ser curtas, roídas, pois teria que se preocupar muito mais com o trânsito ou o trabalho do que com a música de hoje, ou onde almoçaremos amanhã, ou se ele fica melhor de vermelho ou azul. Teria que voltar às antigas preocupações. Olhou as unhas ainda compridas, o esmalte claro – porque escuro, segundo ele, deixa com mãos de bruxa – e sentiu saudades precipitadas das belas unhas. É assim, saudade precipitada é ansiedade disfarçada, confusa. Os olhos se encheram d’água por pena das unhas. E olhou pras mãos que agora seriam sozinhas também, sem as outras mãos. Coração apertou, doeu tanto que fez o corpo todo estremecer, inclusive os olhos, que derrubaram todas as lágrimas. E percebeu que chorando ficava feia, cara inchada, nariz vermelho. E sabia que choraria mais e mais. Os outros entenderiam? Ele entendia...E ele perdoava. Sentiu que o tempo livre talvez não fosse valer a pena, os outros não valeriam a pena, as unhas não valeriam. Entre o orgulho e a vaidade, optou pelo segundo e, chorando, escreveu: “Não precisa vir buscar suas coisas.”. Sabia que ao lado dele era muito mais bela.

29 setembro 2007

Chuva fina na janela. Quarto triste, eu sem ela. Hora vai, vem e não passa. Água cai, desce e não cessa. Saudade bate, aperta e não cansa.
Eu sofro, deliro, penso. Ouço lá fora o vento, manso. Fecho os olhos mas não descanso. Roupas no chão, ansioso, tenso. Chuva aumenta, bate forte. Penso em fuga, em sono, em morte. Em álcool, cigarro, em rua, carro. Em me jogar a qualquer sorte. Chuva que não cansa, aumenta.Saudade que não cansa, atormenta. Cabeça que não pára, inventa. Que pensa, pensa, pensa...E de pensar, alucina. A batida na janela desperta. Não é chuva, não é vento. Molhada, chega ela: o fim do meu tormento! Esqueço porta, pulo janela. Vou pela rua com ela e agradeço à chuva por ter aumentado.