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04 fevereiro 2015

helô



Uma vez eu postei no facebook uma foto minha de quando era criança. Meu irmão, quatro anos mais novo que eu, comentou "que coisa linda". Respondi que eu tinha uma vantagem sobre ele: eu pude vê-lo daquele tamanho, ao vivo e a cores. Ele não pôde me ver. 

Um dia, falei para minha irmã que eu sabia como era minha vida sem ela, mas ela não sabia como era a vida dela sem mim. Foi para reforçar a minha importância na vida dela. O que ela não sabia é que tal constatação na verdade reforça a importância da vida dela na minha. 

Eu sei o que foi minha vida sem ela, e sei o quanto minha vida melhorou depois da chegada daquela menininha de olhos tristes.

Hoje minha mãe mandou pelo whatsapp a foto de uma estrada, vista pela janela do carro. No canto, pude ver o braço do meu pai, e perguntei para onde iam. Ela me contou que estavam indo até Londrina - quilômetros e quilômetros distante da casa deles - para encontrar um lugar para minha irmã morar. Minha mãe me respondeu como quem conta que vai a feira. Eu fiquei em choque, e quis saber onde, quando, como e com quem. Eu quis dar conselhos. Eu, se pudesse, não deixava ir.  

Eu estou orgulhosa. Contei pra todo mundo que minha irmã passou no vestibular. Mas aqui de longe, ando rezando e roendo as unhas. Eu ouvi as primeiras palavras, vi os primeiros passinhos. Dei o primeiro livro, contei histórias, ví os primeiros rabiscos. Sei que fiz um bom trabalho. Vai dar tudo certo, mas é impossível evitar a comoção. 

Minha mãe já conhece essa história. Para mim, ainda é novo. É a primeira vez que minha pequena sai de casa. 

13 agosto 2013

catchup

quando eu era criança queria uma barbie sereia, daquelas com cabelão que muda de cor de acordo com o ambiente. você coloca na água quente, por exemplo, e vão surgindo mechas alaranjadas. dai você seca e aparecem mechas cor de rosa. como fui uma criança pobre tive que me contentar com a barbie sereia das amigas.

o tempo passa, a gente supera os brinquedos que não teve (e também os que teve, tipo o fofão), arruma trabalho, se estressa, se matricula na ioga, tem filhos e começa a fazer cooper aos domingos de manhã. enfim, cresce. tem acontecido comigo, e embora eu faça coisas de gente grande o tempo todo, fico constantemente com a impressão de que a vida adulta é uma piada, um engodo. como se ninguém soubesse muito bem o que está fazendo, nem o porquê. a gente coloca uma gravata, dá ordens e fala difícil, sai da empresa e compra um notebook, enjoa da cor do cabelo e faz mechas loiras, porque viu que é assim que se faz. vai cumprindo uns protocolos, liga tudo no automático e aperta o play.

então, às 22h de uma segunda-feira, a vida mostra que sim: é tudo uma piada. pois eu estava de folga em plena segunda-feira, e resolvi ficar na casa da minha mãe. e como adulta estressada, achei justo tomar um banho de banheira. só que, como uma verdadeira adulta já não mais tão estressada, dormi na banheira.

quando sai, aconteceu a mágica. ou a piada. conforme meu cabelo foi secando, surgiram mechas verdes. não verde meio amarelado tipo o orelhão da telefônica. verde tipo trevo de quatro folhas, uma péssima comparação para situação tão ridícula.

e mais uma vez agindo como adulta, fiz uma pizza. depois, claro, procurei no google e nas redes sociais a solução para tirar a cor verde das mechas loiras.

a internet me sugeriu leite ou catchup; e depois lavagem com shampoo.

era então uma segunda-feira de folga, às 22h30, e eu estava debaixo do chuveiro com catchup e um copo de leite: "mãe, traz mais um sachê que só dois não vai dar".

enquanto mentalmente me comparava à barbie sereia.

23 janeiro 2013

caminho de girassóis

Eu perco fácil o fio do pensamento. Posso estar para concluir a frase, bate um vento e puf: esqueci.

Um dia, faz tempo, a gente andava de carro numa estrada cercada dos dois lados por plantação de cana de açúcar, e meu pai dirigia. Notei que ele cismou em olhar pra cima, quase perdendo rumo da estrada, que por sorte era vazia. Olhou bastante tempo, depois mostrou para mim que ia acompanhando com os olhos o voo de um passarinho, que parecia que seguia o carro. Vai saber quem seguia quem.

Outra vez eu ia de fusca com meu irmão por uma estrada que ele já conhecia, eu ainda não. Por uns 10, 12 quilômetros, ele foi apontando girassóis perdidos no acostamento: parecia que ele já tinha decorado a moradia de cada um. Avisou: vai ter mais uns dois no canteiro do meio, depois acaba. E assim foi. Daí ele falou da teoria que ele mesmo desenvolveu sobre um caminhão de sementes que passou derrubando os embriões de girassol. Quase todos voaram para o acostamento, e dois para o canteiro central da pista. Achei bonito porque quase ninguém que passa por aquela estrada nota os girassóis.

Eu sou muito desligada deve ser por isso: nasci numa família de poetas.

13 novembro 2012

que se chama amor

Um tipo que sempre despertou meus sentimentos (aflição, curiosidade e ternura) é gente que chora em público. É ver gente chorando pela rua que me bate a vontade quase incontrolável de chamar pro bar mais próximo, perguntar o que aconteceu, saber o que foi de tão grave, tão urgente, que fez aquela criatura derramar as lágrimas ali mesmo, sem tempo de chegar em casa.

Até que hoje, a pessoa chorando pela rua era eu. O motivo eu sabia bem: o Espeto morreu. Espeto, o gato rueiro que adoeceu devargarzinho e foi embora antes da hora.

Caminhei e chorei esfregando o nariz vermelho, pensando em pegar todos os gatos de rua do mundo, levar todos pra casa e ver eles crescerem e subirem em árvores.

Dez anos antes morreu a Rami, uma cachorra também rueira. Eu gostava de sentar na porta de casa com ela do meu lado, deitada no tapete. Rami ficava ali, fazendo nada, eu também. Foi a melhor companheira de fazer nada que eu tive.

Um dia ficou doente. Foi piorando e parou de andar, quase não comia, só chorava. Não teve jeito: meu pai decidiu levar ao veterinário mas deixou avisado que talvez ela não voltasse. Eu lembro dela me olhando quando saí para trabalhar naquele dia. Foi o jeito que ela arrumou para me dizer adeus, com o queixo apoiado no chão e os olhos tristes. Quando voltei, só meu pai estava em casa. Ela não.

Naquele dia eu decidi - como faz muita gente - que não queria mais bicho de estimação. Meus pais arrumaram outros, vários. Eu nunca desgostei, mas não me envolvia.

Brincava vez ou outra, sem apego, pra não doer.

Até que chegaram os gatos, dois, da rua, que uma moça que trabalha comigo achou. Era para ficarem em casa até que arrumássemos um lar definitivo. Um dia eu estava sentada na sala e vieram os dois quietinhos, se aninharam cada um de um lado nas minhas pernas cruzadas e dormiram. Um jeito um tanto eficiente de disseminar amor: impondo-o a quem o rejeita.

No dia seguinte marquei veterinário, comprei caixinha de plástico pra pôr areia e joguei fora a de papelão. Eu, naquele dia, ainda não sabia, mas hoje sei que os gatos quebraram a barreira imaginária que eu havia colocado entre mim e os animais quando a Rami morreu.

Tem gente que prefere não ter mais bicho nenhum, nunca mais, depois que enfrenta a morte do primeiro. Eu já fui assim, hoje não sou. Não sei se é carência, maturidade, noção da finitude da vida e da efemeridade das coisas, desespero, chamem do que quiser. A dor é cruel, mas para mim é ainda melhor que dor nenhuma. E não há diferença alguma entre gente como eu e gente que escolhe o afastamento: inevitavelmente, estamos todos à beira do abismo.

11 novembro 2012

bolo de fubá

Estava num ônibus no caminho pra casa da minha avó quando li:

"Com massa simples, feita de ovos, manteiga e farinha – ingredientes que não envelhecem –, os bolos caseiros viraram febre em São Paulo. As casas especializadas no doce se multiplicam pela cidade com um esquema de venda parecido ao das confeitarias do passado: o cliente compra o bolo e o leva para comer em casa".

Achei bacana a ideia. Às vezes dá uma vontade de comer um bolo simples, de fubá ou de laranja, mas não sobra tempo pra fazer.

Só que o autor do texto da revista foi além:

"O sucesso das lojas tem a ver com o resgate dos alimentos com tradição, uma tendência no mundo gourmet. “As receitas retrô remetem ao conceito de comfort food, bastante em alta, que nos transfere a um ideal de ternura e de felicidade da infância”, afirma Sandro Dias, professor de história da gastronomia do Centro Universitário Senac".


Daí eu comecei a sentir peninha das pessoas. Imaginei um senhor de meia idade, de terno e barba feita, já meio careca entrando na confeitaria. Ele afrouxa o nó da gravata e pega sua porção semanal de ternurinha. Vai pra casa, come o bolo com café solúvel e pensa que é feliz.

Eu acho que o grande mal cotidiano é essa mania que a gente pegou de querer glamourizar tudo. Querer poetizar o que, por natureza, já é poesia.

Cerveja no fim de tarde de uma sexta-feira por si só já é uma coisa linda, digna de alegria. Não precisa ter notas suaves de café ou cereja, não precisa que alguém comente com que tipo de carne aquela cerveja vai harmonizar.

Bolo no café da manhã é gostoso. Feita pela avó, é um sonho. Se não tiver avó por perto e o bolo for comprado na padaria, também vai ser gostoso, com boa companhia então: só melhora. Daí os especialistas querem dizer que o bolo de fubá é um tipo de comfort food. Por favor, meu queridos, não estraguem a poesia. Não glamourizem a simplicidade.

Tive pena de quem precisa de "comfort food" para sentir a ternura da infância. Eu ainda fico na dúvida: estamos bobos a ponto de comprar essas ideias estranhas que as pessoas criam pra vender produtos, ou  os bobos são os que ficam tentando inventar história pra pôr mais poesia no cotidiano, talvez porque a eles ainda falte um quê de poesia? Relacionar bolo de padaria com ternura de infância, façam o favor meus senhores! Da minha ternura cuido eu, não me venham vender ideias.

Torci pro motorista do ônibus pisar fundo pra eu chegar logo na casa da minha avó, dar um abraço nela e ter certeza de que a simplicidade continua sendo uma coisa simples. Porque felicidade é igual bolo de fubá: bom mesmo é quando é feito em casa.

25 setembro 2012

Chokito



Acordo em mais um dia de chuva e penso que São Pedro usa os mesmos métodos educativos dos meus pais.

Quando era criança, minha irmã inventou de comer chokito (isso mesmo, o chocolate da lacta ou garoto, não sei). Não parava de falar de chokito, foi um dia inteiro primeiro pedindo, depois chorando e por fim esperneando. 

Dez anos atrás as coisas não eram fáceis rápidas e onipresentes como são hoje. Você não ligava o computador, digitava chokito e aparecia o mapeamento da cidade com todas as lojas onde vendem chokito, a variação de preços e as formas de entrega e pagamento. Além disso, as mães saiam cedo para trabalhar e quando ficavam em casa tinham que lavar e passar. Sobrava pouco tempo para fazer as outras coisas, como comprar chokito no dia que não era dia de supermercado. 

O tanque cheio de roupa suja e Heloísa chorando por chokito. Minha mãe deixou roupa de molho, louça na pia, mesa sem toalha e saiu sem falar nada. Voltou com uns dez, doze chokitos. Desembrulhou um por um, colocou sobre a mesa e chamou a menina: quer chokito? Pois vai comer. 

Até o terceiro, foi só alegria. O quarto já desceu mais devagar e o quinto ela empurrou de lado depois da segunda mordida: não quero mais.

Foi sob doces ameaças e palavras de carinho que minha mãe fez a menina comer pelo menos mais uns três.

É assim São Pedro. A gente pede chuva, reclama do tempo seco, faz reza, dança, grupo de oração, ele então cansa: é chuva que vocês querem? Tome chuva.
Claro que Heloisa continuou pedindo coisas, não mais chokito porque temos kit kat, alpino, suflair, kinder ovo. Claro que com mais dois dias assim, a gente começa a pedir por sol.

12 setembro 2012

iphone 5



Soube pelo twitter que lançaram ou vão lançar o iphone 5. Eu não sei muita coisa sobre isso, pra ser sincera não entendo quase nada, mas uma amiga minha comprou um iphone (não o 5, o 4 talvez) e vi que é muito bom para tirar fotos, baixar revistas e fazer um treino de corrida, além de telefonar. Achei ótimo porque são três coisas que me parecem bastante úteis, mais do que telefonar. Ainda assim, não me entusiasmei o suficiente para gastar boa parte do meu salário - se não ele inteiro - naquele aparelho bonitinho.

Quando eu li no twitter sobre esse mais novo lançamento do mundo das incríveis tecnologias, meu primeiro pensamento foi: se ele varresse a minha casa eu comprava um nem que tivesse que voltar a usar cartão de crédito e me endividar mais uma vez.

Deve fazer um mês ou mais que não varro minha casa. Virou um ciclo: tive uma semana muito cheia que coincidiu com o início da estiagem do nosso mês de agosto. Sem tempo para varrer, a poeira acumulou. Acumulou tanto que minha coragem sumiu, deve ter ficado soterrada pela camada de pó nos cantos da sala. 

Eu lembrei que sou livre para interpretar as coisas como bem entender, e então pensei que não sou o tipo de pessoa que varre a casa. De acordo com Jung ou algum desses testes de internet, tenho personalidade corajosa, com alto teor de desinibição, bastante criatividade, e agora também mais essa: pouca coragem para varrer a casa. 

Olhava para o tapete sujo quando notei uma coisa ainda pior: minha bolsa no chão. Minha mãe fala que deixar a bolsa no chão afasta dinheiro, então corri colocar ela sobre a cadeira, senão nunca terei dinheiro, um iphone e uma casa com o chão limpo. Sempre há uma esperança.

06 agosto 2012

De volta


Quando um livro vai chegando ao fim eu começo a ler bem devagarzinho que é pra não acabar. Eu me apego aos personagens e fico triste quando vejo que está chegando a hora de me despedir deles.

Faz uma semana que estou nas últimas dez páginas do “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, e eu fico pensando que queria que Lavínia e o menino da casa da dona Jane ficassem mais uns meses na minha vida. Inevitável, as pessoas, reais ou não, têm que passar uma hora.

Na última semana o livro parou de vez na minha estante, ficou lá abandonado, junto com a minha vida, por sete dias que foram para mim o ápice de uma era (cada um mede como quer o tempo interior).

Tudo precisa do caos para recomeçar, e depois dessa última semana, que qualquer pessoa com um mínimo de crença em algo não tangível irá relacionar ao começo de agosto, voltei de um lugar que não sei bem onde fica: se tão perto ou tão longe daquilo que entendo por “eu mesma”.

Sábado, depois do que parece ter sido a semana mais intensa do ano, que começou na sexta-feira de uma semana antes, cheguei em casa cansada, tentei ver um filme e dormi. Acordei duas horas depois, sem saber onde estava, se havia jantado, e se tinha tomado banho. Sóbria, mas sem saber nada de mim: meu corpo avisando que era hora de parar. Depois de 15 minutos me encarando no espelho, voltei para a cama e só saí de lá 10 horas depois, para um domingo de calmaria. 

Hoje fiz café da manhã, tirei a poeira dos móveis, peguei as roupas do chão, juntei os cds que ficaram fora do encarte sabe-se lá por quanto tempo, terminei de ler a revista do mês passado e desembrulhei a deste mês. Lavei roupa, limpei os restos de comida do fogão, coloquei o lixo para fora, trabalhei. Faltam cinco páginas para o fim do livro, e de hoje elas não passam.

Tirei também a poeira deste blog. Voltei.

13 julho 2012

Louro

Quando eu era criança, no quintal da casa da minha avó tinha uma goiabeira. E a goiabeira existia desde antes de ela ser minha avó, desde muito antes. Já naquele tempo, acontecia às vezes de umas folhas da goiabeira se desprenderem, como acontece com toda árvore. Às vezes ventava e algumas folhas iam parar dentro da cozinha, pela janela. Daí, minha avó varria para fora outra vez.

Meu pai quando era criança nunca tinha comido feijoada. Um dia, a mãe dele (que coincidentemente é até hoje a minha avó) chamou toda a família para almoçar na casa dela e ele adorou aquela movimentação de tios, tias e primos, todos esperando pela feijoada.

Quando minha avó, que naquela época ainda não era minha avó, colocou a panela grande na mesa, meu pai correu olhar o que tinha dentro e foi bem ligeiro: logo tirou da panela alguma coisa e escondeu debaixo do prato. Depois de todas as visitas já terem ido embora, meu pai correu pro lado da mãe dele, com ares de heroi:

- Mãe! Tinha uma folha de goiabeira na feijoada, mas eu tirei rapidinho. Ninguém viu!

(Meu pai, que nunca tinha visto feijoada, também nunca tinha visto folha de louro).

04 maio 2012

é triste a saudade

quando eu era criança minha mãe trabalhava no fórum municipal e, para minha sorte, a parte dos fundos do prédio dava bem na lateral da escolinha onde eu estudava. na hora do recreio eu corria para o lado da escola e minha mãe aparecia lá no fundo para me mandar um beijo. às vezes, quando a aula acabava, eu ia para o fórum esperar ela sair.

numa dessas vezes, ela contava para as colegas que um senhor famoso tinha ido lá. para mim, ela explicou: era um senhor que meu avô gostava de ouvir cantar. aquele senhor, que junto com outro, sorria na capa do disco que numa tarde eu, sentada no chão, coloquei na vitrola enquanto meu avô, sentado na cadeira, me observava.

eu não tinha mais que cinco anos. abri a gaveta do móvel de madeira escura da sala da casa dos meus avós e fiz o que criança gosta: bagunça.

meu avô, na cadeira, fez o que os avós gostam de fazer: olhar o neto fazer bagunça. era disco pra todo lado no chão da sala, no meu colo, nos sofás. eu colocava um, ele cantava. colocava outro, ele cantava também. quando coloquei o disco do homem que foi ao fórum, ele cantou "moreninha linda do meu bem querer" e eu ri: sabia que era para mim.

eu não tinha paciência. troquei o disco e ainda hoje eu ouço, bem baixinho, a voz dele: "viola está chorando. chorando está meu coração".

27 fevereiro 2012

O que fica

Por mais que a gente enlouqueça e queira fingir que é para sempre, e deseje agarrar, segurar, prender no porão ou num potinho, ou adie mil vezes o fim quando ele está em nossas mãos, não tem jeito: as pessoas passam. Falo com certa sanidade que em verdade não me pertence: sofro cada vez que lembro que nada é para sempre.

Mas em pequenos descuidos, quando a alma está acalmada, percebo o que de bom fica de quem foi. Outro dia comprei um CD do ACDC, e estranhei. Quatro anos antes eu não faria isso. Lembrei-me do menino que fez-me interessar por ACDC, pegar gosto por pipoca e ver filmes de Wes Anderson.

Hoje janto pipoca sempre que posso, e os filmes de Wes Anderson são dos meus preferidos.

Quando relacionamentos acabam, a gente tende a pensar em tudo que perdeu: tempo, dias, planos, amor. Mas tão bonito é descobrir, nos entraves do dia-a-dia, as coisas que ficaram, e que somaram ao que éramos, e que fazem o agora.

03 janeiro 2012

tchau, até logo, se cuida

Não me saio bem em despedidas, independente do tempo que elas vão determinar até a próxima volta. Fosse breve ou adeus, queria eu poder sempre sair à francesa: olhar de longe os que se abraçam e ir embora pela porta dos fundos.

Ironicamente, minha vida é feita de despedidas. Morei em sete cidades, e em algumas delas mais de uma vez. Uma vida de idas e vindas, e de adeus, e de saudades. De todas essas cidades, a mais marcante foi Dois Córregos.

Foi lá que eu cheguei numa manhã fria e nublada, no dia em que os Mamonas Assassinas morreram, e não bastasse essa tristeza, eu chegava de mudança sem conhecer ninguém, sem saber onde seria minha casa, quem seriam meus vizinhos, como seria a escola.

Hoje eu olho as roupas, móveis e tranqueiras nas caixas para a derradeira mudança dos meus pais e penso que a cidade que me recebeu com chuva e dia triste só me trouxe alegrias. Foi lá que eu passei tardes caminhando nas ruas quando não tinha mais nada para fazer; matei aula para ficar na praça da escola; conheci meu primeiro namorado; tomei meu primeiro porre; chorei por amor pela primeira vez; tive as piores - e mais ridículas - brigas com meu irmão;  sentei na calçada para rir, para chorar e só para falar da vida; foi de lá que eu sai com a mala nas mãos e sem olhar para trás para, pela primeira vez, ir morar longe dos meus pais; foi para lá que eu voltei quando resolvi deixar a primeira faculdade e foi lá que eu conheci amigos que sei que vão estar comigo para sempre.

E agora, com o coração apertado, é para essas pessoas, e para esse lugar e essa casa com portão de madeira e árvores na frente que eu olho. Assim, de longe. E vou embora quietinha, como se nada tivesse acontecido - mas com a alma cheia de boas lembranças e já transbordando saudades.

22 dezembro 2011

árvore de natal

Lá em casa era assim: meu pai colocava eu e meu irmão no carro e saia pelas estradas de terra. Quando via um pinheiro, parava, subia e a gente ficava lá de baixo dando as orientações: "esse aí", "não, aquele lá". Meu pai cortava o galho, levava pra casa e minha mãe enterrava num vaso. Depois, a gente ajudava a pendurar os mini-papai-noéis e estava pronta nossa árvore. Geralmente, ela morria antes do dia 25.

A Heloísa, minha irmã mais nova, nasceu bem no comecinho de janeiro de 1996. Então, no Natal de 1995 minha mãe tinha uma barriga enorme e todo aquele cansaço das grávidas em final de gestação. Foi nesse ano que ninguém saiu de casa pra cortar galho: minha mãe pegou um vasinho da varanda, enrolou os pisca-piscas e era aquela nossa árvore daquele 1995, de quando minha irmã estava para nascer.

Era época em que a gente morava na menor cidade que já vivi: seis mil habitantes. Eu não sei se vocês sabem como funciona isso, mas minha casa não tinha cadeado no portão, e o portão era só uma grade de frente com o gramado. O gramado ficava de frente com a varanda e na varanda ficava a arvorezinha improvisada com os pisca-piscas. A porta de entrada da casa estava sempre aberta: não tinha perigo de aparecer bandido, pensávamos nós.

Mas um dia minha mãe acordou e viu no chão da varanda só a marca do vaso da árvore de Natal. Pois sim, na menor cidade que nós moramos foi que roubaram a árvore de Natal mais mixuruca que já tivemos. Perguntamos pras crianças da rua, pro vizinho, pra empregada, pro dono da padaria, e nada.

O tempo não para por causa de árvore de Natal roubada e minha mãe foi trabalhar (pra quem não sabe, ela é professora). E foi lá, na única escola da cidade, ao lado da nossa casa, que ela encontrou a árvore, de pisca-pisca piscando em plena luz do dia, em cima da mesa da diretora, que já veio contando "Você viu que presente lindo eu ganhei!". Não era lindo e muito menos presente, explicou minha mãe, que no fim do dia chegou em casa com a árvore no colo. A gente soube, então, que quem deu o sumiço na árvore foi um vizinho nosso, que jogava video-game com meu irmão, que vivia no quintal de casa e que, na surdina, entrou lá de madrugada, o danado do menino.

Era fim de ano, época da escola fechar as notas, e daí ele quis fazer um agrado pra diretora. Criança é tão inocente que acredita em Papail Noel e rouba árvore da professora para presentear a diretora achando que nunca vai ser pega.

era mais ou menos assim, bem bonita.

01 novembro 2011

3 de novembro

Amor de mãe não tem comparação com os outros amores que a gente arruma. Eu descobri isso - além das noites em claro enquanto eu estava com febre, na ajuda na tarefa de matemática e no dinheiro que ela empresta sabendo que não vai ter volta - foi nas festas de aniversário que ela fez pra mim. Eu sempre detestei aniversário: a data e a festa. E ela sempre fez questão de organizar tudo, todo ano, mesmo com a minha cara feia e o meu desdém. Sempre munida da esperança de um dia ser diferente e eu ficar feliz com os chapéuzinhos e as crianças gritando meu nome. Nunca aconteceu.

Eu não sei explicar de onde vem essa angústia com o parabéns pra você: a coisa é antiga. Na foto de 1987 estão lá todos os clichês: a mesa coberta de brigadeiros e beijinhos, as crianças batendo palmas de boca aberta, o bolo coberto de morangos, a vela acesa. No meio da cena toda, a criança de nariz escorrendo chora no colo da mãe: sou eu.

Na memória eu guardo duas situações: eu andando pelas ruas da cidadezinha junto de mais três meninas. Cada uma de nós com dois corações de isopor nas mãos, todos eles cobertos de gliter vermelho. Eu caminho irritada porque o gliter ia desgrudando do isopor e caindo pelo caminho. Minha mãe esperando em casa para arrumar a festa. Eu, me sentindo incompetente por não dar conta de dizer não e ainda deixar o gliter do enfeite cair. E foi isso que ficou na minha memória: o antes da festa e a irritação. Não lembro de ver, horas depois, os corações grudados na parede. Não lembro do bolo nem dos presentes.

Na outra situação, eu estava me divertindo numa festa. Segurava um copo de guaraná e esperava a hora de cortar o bolo. Então, do meio da multidão, surge minha mãe disfarçando o nervosismo: "Carol, seus convidados estão esperando!" "Calma, mãe, deixa só o Pedro cortar o bolo". Chega então a mãe do Pedro e fala com minha mãe, pra me deixar ficar só mais um pouquinho que já iam cantar o "Parabéns". Minha mãe explica que não dá, já está todo mundo em casa me esperando. A mãe do Pedro fala que então depois leva um pedaço do bolo pra mim e eu, contrariada, vou pra casa, que fica ali, do outro lado da rua.

Deve ser coisa de criança tímida essa minha repulsa: aniversário obriga a gente a ser o centro das atenções. Mas não tem jeito: ele sempre chega, e eu não posso viver negando. Esse ano tem bolo do lado da minha mãe. A ideia foi dela e eu, mais uma vez (porque nos últimos 6 anos tem sido assim), aceitei numa boa. Não é o aniversário que faz a gente crescer, mas é quando ele chega que a gente vê que isso aconteceu. Pelo menos no meu caso.

14 outubro 2011

"encosta sua cabecinha no meu ombro e chora"

Quando era adolescente, eu tinha uma mania esquisita: eu chorava todo dia. Às vezes, dia sim, dia não. Era uma coisa muito natural, como quem escova os dentes ou espirra: antes de dormir, chorava um pouquinho. Em público sempre foi outra coisa, eu sempre tive mania de ser a mais forte da família, e sabem como é, choro significa fragiliade, por mais que não seja bem assim a situação, por mais que a gente esteja bem e o choro seja só uma mania ou birra. Então, na frente de pai e mãe, só chorava em caso de necessidade ou urgência. E na frente de amigo, só quando não dava mesmo pra segurar, porque tem isso ainda: a gente constrói uma imagem pros amigos, e nenhum deles pode ter arma pra destruir. Eu nunca saberia reagir se um dia um amigo falasse: lembra quando você chorou na festa da Ana?, orgulhosa que sou. Principalmente porque quando a gente chora na frente de amigo, normalmente é por culpa de um terceiro que causou mágoa, ciúme ou raiva, e eu jamais aceitaria que fizessem isso comigo. Mas sozinha, chorava. Depois, dormia.

Daí fui crescendo e parando de chorar, e assumindo que chorava, do jeito que as coisas não devem ser, mas acho que é como na verdade são:  a gente vai assumindo as coisas quando elas já não pesam tanto na gente. E já nessa vida adulta, teve duas vezes que tive que chorar dentro do supermercado, e uma vez na escada do prédio. Mas isso de chorar sozinha em casa nunca mais aconteceu, e eu comecei a sentir falta, porque não era ruim, era só um hábito bobo. Hoje eu cheguei meio cansada, um pouco de mal com as coisas, porque ser adulto ainda tem dessas: a gente tem que assumir a culpa das coisas que faz. Fiquei assim, umas horas incomodada, li umas coisas, falei com umas pessoas,  mas nada desse incômodo passar, e eu pensei “é TPM” e também “é inferno astral”, e lembrei que a gente é tão ridículo, e tão desamparado, que precisa ficar arrumando coisas fora da gente pra justificar o que acontece dentro da gente,  e pra justificar aquilo que a gente faz. Resolvi dormir, e daí, quando fui fechar o facebook resolvi ler esse texto aqui, e chorei. Eu precisava era disso, de uma coisa na medida, com beleza e melancolia, pra me fazer chorar. Porque tem mais essa ainda: a gente cresce e fica precisando de motivo pras coisas que faz.

*Combinahttp://www.youtube.com/watch?v=UZdLI9bLaZA&feature=related

27 setembro 2011

Com quantos anos você vai se casar?

Quando eu era criança existia entre as meninas da escola uma brincadeira assim: desenhávamos numa folha de papel um quadradinho. Dentro do quadrado, colocávamos a idade com que queríamos nos casar. Do lado de fora, rabiscávamos em cada lado três linhas perpendiculares ao quadrado e paralelas entre si. No lado esquerdo, colocávamos três adjetivos: bonito, gentil, educado. No direito, três opções de número de filhos: 1, 2 e 3, por exemplo. O número dentro do quadrado regia o resto da brincadeira. Se fosse 22, colocávamos a ponta da caneta no primeiro adjetivo e íamos pulando de um em um até chegar ao número 22. O adjetivo ou número de filhos sorteado era riscado, e então repetíamos o processo até que restasse de um lado somente um adjetivo, e dou outro apenas uma opção para o número de filhos. Pronto, estava desenhado no papel nosso futuro: aos 22 anos, a dona da brincadeira estaria casada com um homem bonito (ou gentil, ou educado) e teria 3 filhos (ou 2, ou 1).

No meu quadradinho, o número central era sempre 18. Às vezes, 20. Era assim que funcionava quando eu era criança: olhava para o futuro e me via aos 20 anos casada, grávida e feliz.  Hoje, quando me lembro disso, ficam claras para mim duas coisas: que meu espelho, naquela época, era minha mãe (que se casou aos 18); e que eu errei feio.

Aos 25, o mais perto que cheguei de um casamento foi um namoro de quatro anos com direito a escovas de dente compartilhadas; e o mais próximo de ter filhos foi uma pílula do dia seguinte comprada às pressas às onze da noite. Hoje eu sei que a vida que eu levo cabe perfeitamente naquilo que eu sou, e eu combino perfeitamente com a vida que eu levo.

Mas tem dias que eu fico pensando: será que a Carol com um marido bonito e um filho de 5 anos não seria feliz agora? Afasto bem rápido esse pensamento porque sei que é bobagem: essa Carol hipotética estaria agora imaginando se a Carol jornalista que considera maturidade poder comprar danoninhos e comer quantos quiser num mesmo dia não seria também feliz. E é. Ponto.

Longe das reflexões acerca de felicidade, eu vou agora escrever “80” no meio de um quadradinho, de um lado colocar número de netos, e do outro escrever: morte, Alzheimer e grupo de ginástica da terceira idade. Ver o resultado e torcer para que seja  diferente.

11 agosto 2011

desamor

O Gabriel não é acostumado a levar bronca, mas aprontou e levou. Feio. A mãe ficou brava de verdade.

Desenxabido, de olhar baixo, ele foi pra escola. Na cabeça dele quem sabe de tudo é a professora, então ele perguntou "tia existe desamor de mãe?".

A tia explicou que não, existe desamor de homem e mulher, assim do jeito que aconteceu com a mãe e o pai dele; desamor de mãe não existe: mãe ama pra sempre.

Ele voltou pra casa e foi soltar pipa. Disse que mais cedo estava com medo da mãe desamar ele.

11 junho 2011

amor é coisa simples



Toda sala de primeira ou segunda série tem aquele menino loirinho dos olhos azuis ou moreninho do sorriso lindo que vira logo o namoradinho de todas as meninas. Menos o meu. Eu sempre escolhia os das sardinhas no rosto, magrinhos, de óculos. Os que eram amigos do namoradinho-de-toda-menina, e que não recebiam tanta atenção assim daquelas menininhas. Os que faziam coisas esquisitas, como o japonesinho que passava cola verde nos dedos e eu ficava a aula inteira parada, olhando, até a professora dar uma bronca e ele guardar a cola, esperar ela virar as costas e continuar.

Eu tenho poucas lembranças do meu primeiro namorado: o cabelo cortado em formato de tigela, os dentes tortos e o shorts azul. Chamava Leandro e não sabia escrever. Era só a primeira série.

Era dia do mingau cor-de-rosa na escola, eu entrei na fila, peguei meu prato de plástico azul cheio de mingau cor-de-rosa e sentei sozinha na mesa de madeira. Eu era sempre a aluna nova, e naturalmente acontecia de uns dias ficar sozinha até encontrar amigas novas na escola nova. Ele sentou do meu lado, ficou mudo me olhando comer o mingau rosa. Eu permaneci muda comendo o meu mingau rosa, olhando para o prato e brincando de raspar a colher no fundo. Quando acabou, fomos para a sala de mãos dadas e eu sabia: agora ele era o meu namorado.

Passou uma semana e nosso relacionamento estava tão bem que meu namoradinho chamou a professora. Ela abaixou e ele falou no ouvido dela. Do fundo da sala, eu prestava atenção. A tia olhou pra mim e sorriu. Depois, escreveu alguma coisa em um papel e entregou para o meu namoradinho. Ele abriu a mochila, tirou de dentro outro papel. Pegou o lápis da tia e o papel dela. No papel dele, copiava o que ela tinha escrito. Depois, me entregou. Abri o cartão com flores amarelinhas desenhadas e lá dentro estavam as letrinhas tremidas, todas de forma, à lápis: Carol, eu te amo. Ass: Leandro.

Mingau cor-de-rosa e meu primeiro “eu te amo” também são coisas que me lembram o meu primeiro namorado.


*quem me inspirou esse post foi o marquinho, por causa dessa histórinha aqui.

31 maio 2011

um post quem não é bem um post

Se você tem uma pessoa que gosta das mesmas cores que você, das mesmas músicas que você e tem os mesmos objetivos de vida que você, você tem sorte e pode ter alguém com potencial para ser um bom amigo seu.

Se você tem alguém que se irrita com você, que discorda de você, que te xinga e ri da sua cara, mas ainda assim está do seu lado, que discorda de uma bobeira ou outra que você faz, e então briga, mas ainda assim te liga, te chama pra sair e te dá um presente, você tem um amigo de verdade.

Meu nome ia ser Marília, e eu acho bem bonito. Mas aconteceu assim: cheguei antes da hora. Surpresas mudam o fluxo das coisas, vocês sabem, e deu na cabeça do meu pai de cantar que “lá fora amor, uma rosa nasceu”. Meu nome ficou Carolina.

Fosse Marília, o rumo seria outro e talvez eu não tivesse um dia encontrado por aí a dona das palavras que seguem:

Seus pais não podiam te acertado mais na escolha do teu nome. Só de pirraça virou o avesso da música. Vc se joga, espalha todo o amor que tem e inventa. Vê e aproveita cada minuto que passa, de fora da janela, de preferência. É quem samba e fica até o fim da festa...

Se é verdade eu não sei: só me vejo a partir do meu ponto de vista, limitado pela minha cabeça pequena de Carolina.

Ela, a dona do que foi dito acima, se irrita porque eu fico até o fim da festa, não é de hoje. E, ainda assim, ela está do meu lado não é de hoje.

Os cientistas dizem que nosso cérebro só é capaz de catalogar 5 amigos próximos (e, assim, considerá-los próximos: mais que isso é só amigo distante, colega, conhecido). Além dela, existem outros que são bons em ser amigos próximos, então, foi assim: ela foi promovida a irmã.


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