09 agosto 2009

Yes, eu uso soutien

Quem tem twitter provavelmente ouviu falar do #lingerieday. Pra quem não sabe, vai aqui a breve explicação: três rapazes twitteiros resolveram jogar na web uma modinha e no dia 29 de julho as meninas deveriam colocar em seu avatar uma foto de lingerie. Eu fiquei sabendo, mas não aderi à campanha porque não dei tanta atenção assim e achei mais legal o #mussumday, em homenagem ao Mussum.
O #lingerieday passou quase despercebido por mim, não fosse um post que, dias depois, veio cair aqui na minha telinha. A garota, sem meias palavras, esculachou o movimento, apegando-se a um feminismo duvidoso e repressor. Os argumentos estão bem colocados, o texto é bom, mas eu, na minha condição de mulher e sujeito pensante tive que discordar.
Discordei aqui, na minha, fazendo sinal de negativo com a cabeça e fiquei com preguiça de vir a público dizer, entre outras coisas, que para mim o #lingerieday não passa de uma grande brincadeira e que não há motivo para alarde.
Mas aconteceu de eu ler essa matéria da revista Época e vi que as coisas estão ficando confusas. Aconselho vocês a lerem a matéria antes de continuar a ler esse post, pois não vou explicar o caso aqui.
Como é dito na matéria, desde a década de 60 parte da sociedade tenta anular as diferenças entre homens e mulheres. E eu acredito que essa necessidade de anular as diferenças surgiu, principalmente, como forma de diminuir a opressão existente sobre o sexo feminino. Isso é bom e já avançamos muito desde nosso ponto de partida. Hoje mulheres trabalham fora de casa, têm bons salários, assumem cargos antes predominantemente masculinos, fazem sexo antes do casamento e bebem cerveja. Mas uma coisa é preciso aceitar: homens e mulheres são diferentes sim. Os hormônios são diferentes, as reações são diferentes, o corpo é diferente. E isso reflete nas ações e comportamentos. Mas há uma parcela das feministas que prefere ignorar tudo isso que é facilmente observável, além de cientificamente comprovado e bate o pé para que mulheres e homens se igualem em tudo.
Este tipo de feminismo é, provavelmente, o mesmo que parte da premissa de que algumas atitudes femininas – posar nua, por exemplo - só são realizadas porque as mulheres estão subjugadas por uma sociedade machista. Este tipo de feminismo desconsidera que posar nua pode ser um desejo legítimo da mulher. Ela quis, ganhou um bom dinheiro, comprou carro e apartamento. Vai dizer que ela, coitada, é um ser não-pensante?
Duvido que o fato de uma mulher exibir o corpo vá anular sua capacidade intelectual. Desde que a garota tenha consciência de que na revista ou na TV ela será vista por homens apenas como um pedaço de carne, não há mal nenhum em tirar uma boa grana disso. Até porque, se ela tem consciência disso, é porque ela pensa.
A impressão que tenho quando vejo este tipo de crítica feminista é que para ser mulher respeitada é preciso manter a seriedade em todos os momentos e deixar a inteligência prevalecer sobre a beleza em qualquer situação, desconsiderando que há ambientes que permitem uma descontraída, como o twitter, por exemplo. É uma forma traiçoeira de se pensar: para ser respeitada, a mulher precisa seguir uma linha de comportamento, reprimindo qualquer outra atitude que possa prejudicar sua imagem de mulher inteligente. É como sair de uma prisão machista, que diz que mulher é objeto; e entrar em uma prisão feminista, que diz que mulher, para ser respeitada, não pode mostrar o corpo.
Tem ainda aquele argumento frouxo: “se fossem homens mostrando a cueca não haveria problema”. Para os homens não existe a questão do “mostrar meu corpo vai diminuir o que represento socialmente?”, porque os homens nunca tiveram que brigar por direitos e mostrar que são capazes de fazer coisas que vão além de cozinhar e passar. Mas é possível utilizar este argumento partindo do ponto de que se desejamos igualdade – guardadas as características de cada gênero, como eu disse no começo – devemos então considerar que se um homem de cueca não iria diminuí-lo, uma mulher de calcinha também não pode ser automaticamente transformada em objeto. As pessoas são muito mais do que um avatar e isso não deve interferir na função delas como sujeito, embora ali, naquela tela, ela figure como um objeto para quem vê.
E dizer que uma mulher que coloca na tela uma foto de soutien só o fez porque está subjugada a agir assim é jogar no lixo a capacidade feminina de pensar e julgar suas próprias atitudes. Soa quase tão machista quanto dizer quem mulher é objeto e ponto.
Pra finalizar, eu acho que se faz muito escândalo quanto a questões relacionadas a sexualidade, gênero e funções sociais. É um exagero não revelar o sexo do filho para deixar que ele escolha sozinho conforme for se desenvolvendo. Não há necessidade para tanto. Aborto ainda é tabu. Homossexualidade também, porque, por mais que você, seu amigo e seu vizinho aceitem, ainda tem muita gente que olha feio. Mas atualmente nossa sociedade anda muito mais aberta à essas questões polêmicas e se os pais da criança já entenderam que o que importa não é o sexo, mas a pessoa, eles poderiam simplesmente criar o filho como menino ou menina e, se um dia Pop não gostar da sua situação, terá liberdade para mudar. Afinal, os pais aceitam isso.
Enfim, falei tudo isso pra dizer que ser mulher e me vestir como tal não me incomoda em nada. E que duvido muito que uma foto minha de lingerie tenha o poder de anular tudo o que já li, estudei e conheci durante esses 23 anos . Para quem vê, posso ser só um pedaço de carne. Mas eu sei que sou mais que isso, e basta para que eu possa usar um salto alto sem me sentir apenas um corpinho que desfila para fazer a alegria dos marmanjos. Além de que, se estou tentando abrir um pote de azeitonas e um rapaz forte se dispõe a fazê-lo, não sou eu que vou recusar só pra provar que há igualdade entre homens e mulheres. Pra tudo nessa vida tem hora e local certo.

10 comentários:

Lucas Scaliza disse...

Oi, Carol
Já ouviu falar que o feminismo foi inventado por um homem? É só uma brincadeira, mas como o lingerie day foi idealizado por um homem, lembrei dela.
Sobre tudo oq vc falou, concordo. Algumas coisas não tinha como concordar, pois não sou mulher para saber, por exemplo, o que me passaria na cabeça qto ao fato de posar nua e ser vista como pedaço de carne. Mas vc externou bem o problema.
Acho que o embate entre H x M se refere mais aos DIREITOS que cabem a cada um (direito de ganhar $$ a mesma coisa, direito de participação política e decisão, direito de ser assistida pela lei, pela imprensa, pela medicina do mesmo jeito que se faria a um homem e adaptada ao caso feminino, se necessário. Enfim, a coisa é extensa).
Qdo começam a levar essa coisa de mulher IGUAL a homem, algumas distorções ocorrem q nem mesmo as mulheres gostam ou se esquecem q foi o extremismo que causou. O exemplo do pote de azeitonas é ótimo. No mesmo caminho está pagar a conta do restaurante, trocar a lâmpada, sair de madrugada para olhar a casa se vc ouviu um barulho esquisito, pagar as contas e etc. Historicamente acreditou-se que era dever do macho fazer isso. Mas, porra, mulher tbem tem capacidade de fazer isso. O feminismo extremo acha q a mulher deveria fazer, mas o home TBEM continua podendo fazer.
No final, o que faz diferença mesmo, é ter consciência dos seus atos e saber a consequencia deles. É o caso, como vc disse, de posar nua, tirar uma grana e SABER q alguns vão olhar praquilo como carne e mesmo assim "nao se importar".

Anônimo disse...

Estou convencido de que a Carol não é só um pedacinho delicioso de carne, o texto revela uma jornalista muito inteligente. Proponho que coloque uma foto sua de Lingerie para reafirmar seu ponto de vista!!

VetAgro disse...

Concordo plenamente... o excesso é que estraga as coisas, maldosos dizem que a maior conquista do feminismo foi pagar a conta do restaurante!! Extremos podem levar a perda do romantismo e da delicadeza, o homem que não abre mais a porta do carro para a mulher pois ela é capaz(?)de fazer isto?? querem ir longe demais...

Beatriz Jucá disse...

Oi Carol. Encontrei teu blog através do A Cronista e achei bem legal. Acabei vendo aqui que você é estudante de jornalismo e vai participar do Itaú Cultural (eu também vou tentar!). Gostei bastante do seu blog. ;D Se quiser me adicionar no msn pra gente trocar figurinhas, o meu e-mail é biazinhaajuca@hotmail.com.
Parabéns pelos escritos! hehe

Doug disse...

Como diria o mano Kiabbo... "eu concordo com tudo isso aí q vc falou e digo mais, rapah"

Vário do Andaraí disse...

Você conhece a marchinha do Braguinha "Chiquita Bacana" ? Por sua idade, suponho que não. Mas ela diz num verso "existencialista, com toda a razão / só faz o que manda o seu coração"

Se quiser, te mando por email. A marchinha é genial.

Um abço

Vitor disse...

balalaika!!! Fantástico! Adorei seu texto! E oh, parabens pelo blog, não esperaria nada menos vindo de você!

Guardo boas lembranças da nossa amizade em Marília.

Abraço!

Bruno Ribeiro disse...

Oi Carol, eu escrevi o manifesto que vc procura sim. Mande-me um e-mail para brsamba@yahoo.com.br que eu te repasso hoje à noite. Não tenho o texto agora, estou no trabalho e o site onde estava hospedado saiu do ar. Beijo.

Michele Matos disse...

Então, dentre os meus seguidos, só uma aderiu ao lingerieday, e que, ao meu ver, não é uma menina fútil.
Tempestade num copo d'água, isso mesmo.
Muito bom o texto.

Finito Carneiro disse...

Eu coloquei uma foto minha de cueca. Foi a partir desse dia que ninguém mais entrou no meu blogue.