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03 março 2015

Estrada da vida



Quando uma pessoa morre, ela não morre uma vez só. Tem a morte de fato, que é quando a gente encara aquela face inexpressiva dentro de um caixão e entende o que as pessoas falam sobre “sentir um vazio no peito”. É o momento do baque, e a gente cai de cara na realidade de que tudo acaba; e é também o começo de um processo que pode durar todo o resto da nossa vida.


Depois que uma pessoa morre, seguem-se outras mil pequenas mortes. Faz dez anos que meu avô morreu. Era fim de verão, eu havia acabado de entrar na faculdade e deixar a casa dos meus pais. O mundo era um lugar perfeito, até que o telefone tocou e minha mãe, do outro lado da linha, quase não conseguiu terminar a frase: “o vô morreu. pega o ônibus amanhã cedo e vem pra casa”.

Eu não consegui arrumar a mala, e na manhã seguinte saí com a roupa do corpo. Passei frio na rodoviária e fiz uma viagem dolorosa. O mundo não fazia sentido, e naquele dia de vento eu me despedi, agoniada. Era março, mas parecia agosto. Eu não sabia que depois daquele adeus seguiriam-se outras tantas despedidas.

O segundo adeus aconteceu na primeira vez em que eu cheguei no sítio onde ele morava e vi na varanda a cadeira vazia. Depois, vieram outros tantos, cada vez que eu me deparava com uma coisa que nunca mais seria a mesma sem ele.

Hoje, já muitos anos depois e tantas mortes silenciosamente aceitas às vezes com amargura, muitas vezes com ternura, tivemos eu e ele mais uma despedida.

Morreu José Rico, o parceiro do Milionário. José Rico cantava na vitrola da sala daquela casa no sítio onde não há mais a cadeira de tirinhas de plástico verde na varanda.

Um dia, a dupla foi cantar lá na cidade e fomos juntos, eu e meu avô, ver o show. Com essas pequenas mortes que se seguem à morte de fato, vão sumindo aos pouquinhos as feições de quem partiu. Mas eu lembro com detalhes o sorriso dele olhando para o palco, admirando os homens que sempre cantaram na vitrola lá do sítio.

Se existe céu, hoje meu vô está sorrindo por lá. Eu, por aqui, chorei um pouquinho. É que essas mil mortes mexem com a gente. Mas eu estou feliz, como no dia em que fomos ver o show. Espero que José Rico tenha chegado lá em cima cantando uma bem bonita pra pôr de novo aquele sorriso no rosto dele.

12 janeiro 2015

Mes chagrins, mes plaisirs



Eu estou triste por passar 2015 longe do Brasil. Já não bastassem os vários feriados e a reprise de “o rei do gado” no vale a pena ver de novo, tem também turnê da Maria Bethânia. E é turnê da Maria Bethânia cantando “je ne regrette rien”, uma das músicas mais bonitas que alguém (no caso, o francês Michel Vaucaire) já escreveu. 2015 vai ser um ano gostoso para se estar no Brasil, e eu estarei longe.


Tem feito calor todo dia, tem praia, tem piscina, tem os amigos e a família e todo o amor do mundo nos braços deles. Lá do outro lado faz frio, o dia dura poucas horas, a comida não me agrada e tem saudades. Eu poderia ficar por aqui, cancelar a passagem, pedir aos amigos de lá que me enviassem as tralhas que deixei, procurar um emprego no Brasil, voltar para o jornalismo, começar de novo, alugar apartamento, ser feliz. Mas eu me apaixonei.


Toda vez que estou de partida eu me apaixono. Aconteceu quando eu me despedia do Brasil. Aconteceu agora, na minha despedida da Irlanda.


Eu sou racional para muitas coisas, como não comer doce de barriga vazia porque sei que me faz mal, ou não tomar sol no rosto apesar de amar o sol. Mas a gente sabe que razão e paixão - dessas que envolvem uma outra pessoa que meio que se encaixa naquilo que a gente sonha - são antônimos.


E então eu, que estava vindo sem passagem de volta para lá, que deixaria para decidir depois, que iria inconscientemente esperar que o Brasil me convencesse a ficar, eu que deixei tudo meio no jeito para o caso de alguém precisar vender as minhas roupas de frio, eu vou voltar.


Tenho um amigo que também está de mudança. Nos encontramos no fim de semana e ele falou: tô igual você, resolvi arrumar um amor por aqui bem agora que vou embora. Ele me mandou o vídeo da Bethânia cantando je ne regrette rien. Ele vai vê-la, eu não. Mas ele sabe que ela canta para nós.

Para a gente que se apaixona e faz tatuagem, que abandona faculdade, troca de emprego, larga família, cria desafetos, bebe demais, escreve cartas, textos, mensagens, compra passagem, a gente que não se arrepende de nada, mesmo.

21 novembro 2013

tristeza do jeca



quando eu era criança, ouvia essa música na vitrola da casa do meu avô. quem cantava era tonico e tinoco, era sítio, entrava uma luz alaranjada pela janela e a gente sentava no chão da sala. meu avô às vezes parecia que não me via, nem enxergava mais nada. era só a música e a luz laranja, e ele no mundo dele. eu no meu, cada qual no seu e uma felicidade sobre a gente, nos ombros, na cabeça, a felicidade calma e tátil. no raio de luz que escorregava pela janela pra dentro da sala pairavam partículas de poeira, e eram pra mim felicidades materiais dançando no ar. eu olhava praquilo tudo com sossego. felicidade era isso: a gente podia ver.

meu avô morreu faz nove anos e a vitrola nunca mais tocou. a internet é uma benção, o youtube um labirinto e ontem entre uma música e outra sem querer cliquei nessa. que eu nunca soube que tinha esse nome. quando reconheci o som, chorei. foi o clima de fim de ano, essa felicidade que fica pairando no ar, mais a saudade.

hoje, tempo de ser mais feliz é fim de ano, quando as coisas andam devagar e aquela felicidade tátil e morna ressurge junto dos bichinhos de luz e das luzes de natal.

a gente vai embora de onde nasceu, cai na vida, mas tem sempre um anzol nos fisgando praquilo que a gente foi.