30 janeiro 2017

Mudamos

Tenho que chegar assoprando a poeira por aqui.

Então, queria contar que já faz um tempinho que migrei pra um endereço pontocom: https://dislexicamente.com/. Por lá a coisa tá mais bonita, layout fino e frequência boa. Tem pelo menos um post por semana.

Ah, e tem também a página no Facebook: https://www.facebook.com/dislexicamente/. Chega mais.

Nos vemos por lá! :)

03 março 2015

Estrada da vida



Quando uma pessoa morre, ela não morre uma vez só. Tem a morte de fato, que é quando a gente encara aquela face inexpressiva dentro de um caixão e entende o que as pessoas falam sobre “sentir um vazio no peito”. É o momento do baque, e a gente cai de cara na realidade de que tudo acaba; e é também o começo de um processo que pode durar todo o resto da nossa vida.


Depois que uma pessoa morre, seguem-se outras mil pequenas mortes. Faz dez anos que meu avô morreu. Era fim de verão, eu havia acabado de entrar na faculdade e deixar a casa dos meus pais. O mundo era um lugar perfeito, até que o telefone tocou e minha mãe, do outro lado da linha, quase não conseguiu terminar a frase: “o vô morreu. pega o ônibus amanhã cedo e vem pra casa”.

Eu não consegui arrumar a mala, e na manhã seguinte saí com a roupa do corpo. Passei frio na rodoviária e fiz uma viagem dolorosa. O mundo não fazia sentido, e naquele dia de vento eu me despedi, agoniada. Era março, mas parecia agosto. Eu não sabia que depois daquele adeus seguiriam-se outras tantas despedidas.

O segundo adeus aconteceu na primeira vez em que eu cheguei no sítio onde ele morava e vi na varanda a cadeira vazia. Depois, vieram outros tantos, cada vez que eu me deparava com uma coisa que nunca mais seria a mesma sem ele.

Hoje, já muitos anos depois e tantas mortes silenciosamente aceitas às vezes com amargura, muitas vezes com ternura, tivemos eu e ele mais uma despedida.

Morreu José Rico, o parceiro do Milionário. José Rico cantava na vitrola da sala daquela casa no sítio onde não há mais a cadeira de tirinhas de plástico verde na varanda.

Um dia, a dupla foi cantar lá na cidade e fomos juntos, eu e meu avô, ver o show. Com essas pequenas mortes que se seguem à morte de fato, vão sumindo aos pouquinhos as feições de quem partiu. Mas eu lembro com detalhes o sorriso dele olhando para o palco, admirando os homens que sempre cantaram na vitrola lá do sítio.

Se existe céu, hoje meu vô está sorrindo por lá. Eu, por aqui, chorei um pouquinho. É que essas mil mortes mexem com a gente. Mas eu estou feliz, como no dia em que fomos ver o show. Espero que José Rico tenha chegado lá em cima cantando uma bem bonita pra pôr de novo aquele sorriso no rosto dele.

19 fevereiro 2015

preta, pretinha



eu estava andando pela rua, sozinha, toda encolhida de frio, pensando na sua pergunta de outro dia: “menina, você não tá sofrendo aí nessa tar de dublin, não?”, quando o assovio da natalia mallo bateu fundo no meu ouvido e me lembrou de um sábado em que eu cheguei em casa às 10h30 da manhã, sem dormir.


fazia um sol lindo, eu estava sorridente, descabelada e com a cara borrada de maquiagem; e pensava em onde é que tava você. liguei o computador pra saber notícias suas e você tinha me mandado essa música. você já estava em casa. bem, sã, salva e linda. a gente tinha se dispersado lá pelas quatro da manhã.


eu pensei agora: que saudades de você, das nossas noites e de tudo que a gente foi. nos encontramos em londres depois de tantos planos sonhados debaixo de sol tropical, tal qual um conto. a gente dançou, riu, e brigou na rua, fez as pazes, receosas; e se despediu. eu tentei ficar ressentida porque na minha volta prai você não fez questão de me ver, mas eu olhei suas fotos do carnaval. eu não consigo me ressentir. você é só amor, não tem jeito.

lembrei da nossa última longa conversa por meio de cabos de fibra óptica e ondas eletromagnéticas, e a gente falava de amor. embora não tenhamos dito, ficou nas entrelinhas esta ideia de que a gente não presta muito pro amor egoísta e romântico. a gente tem um coração arisco, mas nele cabe um mundo inteiro, o que é uma bela contradição. 

nessa toada de saudades, eu entendi que meu amor é todo gasto com meus amigos mais queridos, e fica gravado nesses momentos alegres e sutis que a gente compartilha. meu amor romântico é todo seu, pretinha.

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(e só agora notei que a sua declaração pública de amor por mim acabou de completar um ano).

04 fevereiro 2015

helô



Uma vez eu postei no facebook uma foto minha de quando era criança. Meu irmão, quatro anos mais novo que eu, comentou "que coisa linda". Respondi que eu tinha uma vantagem sobre ele: eu pude vê-lo daquele tamanho, ao vivo e a cores. Ele não pôde me ver. 

Um dia, falei para minha irmã que eu sabia como era minha vida sem ela, mas ela não sabia como era a vida dela sem mim. Foi para reforçar a minha importância na vida dela. O que ela não sabia é que tal constatação na verdade reforça a importância da vida dela na minha. 

Eu sei o que foi minha vida sem ela, e sei o quanto minha vida melhorou depois da chegada daquela menininha de olhos tristes.

Hoje minha mãe mandou pelo whatsapp a foto de uma estrada, vista pela janela do carro. No canto, pude ver o braço do meu pai, e perguntei para onde iam. Ela me contou que estavam indo até Londrina - quilômetros e quilômetros distante da casa deles - para encontrar um lugar para minha irmã morar. Minha mãe me respondeu como quem conta que vai a feira. Eu fiquei em choque, e quis saber onde, quando, como e com quem. Eu quis dar conselhos. Eu, se pudesse, não deixava ir.  

Eu estou orgulhosa. Contei pra todo mundo que minha irmã passou no vestibular. Mas aqui de longe, ando rezando e roendo as unhas. Eu ouvi as primeiras palavras, vi os primeiros passinhos. Dei o primeiro livro, contei histórias, ví os primeiros rabiscos. Sei que fiz um bom trabalho. Vai dar tudo certo, mas é impossível evitar a comoção. 

Minha mãe já conhece essa história. Para mim, ainda é novo. É a primeira vez que minha pequena sai de casa. 

25 janeiro 2015

je suis adele



de março de 2014:

"Existe um termo, não sei em qual língua ou origem - na verdade, estou com preguiça de pesquisar - enfim, o termo é serendipity, que deve ter uma história bem empolgante e pode valer a pena pesquisar, já que ele traduz em apenas uma palavra o conceito de encontrar as coisas sem estar procurando. É algo como a capacidade do encontro, sem que haja a necessidade louca e ansiosa da procura. Ou, em termos bem chulos, estar de bobeira e encontrar do nada uma coisa bem bacana, tipo 'como eu fui viver tanto tempo sem isso'. Mas o termo é ainda mais fascinante porque faz a leitura de que para este encontro acontecer é preciso uma pré-disposição das pessoas, que se manifesta independente da nossa vontade. Tipo encontros inevitáveis. Acho que por isso, por conter um significado tão difuso e belo, que o termo não tem tradução boa para o português, ou se tiver perde a sua força. Assim como a palavra saudade, que dizem, não existe em nenhuma outra língua, a não ser no português"

esse é um trecho de um e-mail que recebi, e este e-mail chegou na minha caixa de entrada no exato momento em que eu pensava em te escrever o que vem a seguir.

ontem assisti "azul é a cor mais quente", e o filme fala sobre relacionamentos e sobre as coisas inevitáveis da vida, como se apaixonar, se envolver ou, eventualmente, sofrer. eu passei a noite pensando em você, e no quanto aquele filme falava sobre mim, em quantas vezes eu chorei as mesmas lágrimas de adele, em quantas vezes eu fui adele e quantas vezes não quis mais ser e em como estou aqui, novamente (e felizmente) sendo, mas desta vez vivendo a parte feliz e acreditando que ela pode durar para sempre. 

hoje apareceu aqui um texto que você curtiu ou comentou, algo assim, sobre a busca pela felicidade, e eu voltei a pensar nisto tudo que tenho vivido. eu fiz algo que, de longe, parecia grandioso. deixei emprego pra lá e vim morar no lado de cá por um tempo. agora, tudo parece bastante claro. eu sou feliz quando acordo às 7h da manhã no sítio, aí no interior do estado de São Paulo, e tomo café. sou feliz quando estou deitada no sofá e o gato vem deitar no meu colo. e sou feliz quando ouço uma música deitada ao seu lado num dia quente de verão. por aqui as coisas são boas, mas eu entendi que felicidade não mora em grandes atos. eu já desconfiava, agora ficou claro. 

então, já no fim do texto, apareceu isto aqui: "Se a felicidade se tornar o grande objetivo a ser alcançado em sua vida, então ela será para você um verdadeiro pesadelo. Mas quando, para você, a felicidade está nas pequenas coisas, na forma pela qual você as vive (…) sua casa torna-se um templo, seu corpo se torna a morada de Deus, e, para onde quer que você olhe e qualquer coisa que você toque, se torna imensamente bela, sagrada – então, a felicidade é liberdade". 

serendipity é isso tudo que aconteceu hoje, esses mil encontros e coisas fazendo sentido e completando o que eu queria te dizer. 

estava olhando o passado nos e-mails e me deparei com este aqui. achei que valia guardar. 

12 janeiro 2015

Mes chagrins, mes plaisirs



Eu estou triste por passar 2015 longe do Brasil. Já não bastassem os vários feriados e a reprise de “o rei do gado” no vale a pena ver de novo, tem também turnê da Maria Bethânia. E é turnê da Maria Bethânia cantando “je ne regrette rien”, uma das músicas mais bonitas que alguém (no caso, o francês Michel Vaucaire) já escreveu. 2015 vai ser um ano gostoso para se estar no Brasil, e eu estarei longe.


Tem feito calor todo dia, tem praia, tem piscina, tem os amigos e a família e todo o amor do mundo nos braços deles. Lá do outro lado faz frio, o dia dura poucas horas, a comida não me agrada e tem saudades. Eu poderia ficar por aqui, cancelar a passagem, pedir aos amigos de lá que me enviassem as tralhas que deixei, procurar um emprego no Brasil, voltar para o jornalismo, começar de novo, alugar apartamento, ser feliz. Mas eu me apaixonei.


Toda vez que estou de partida eu me apaixono. Aconteceu quando eu me despedia do Brasil. Aconteceu agora, na minha despedida da Irlanda.


Eu sou racional para muitas coisas, como não comer doce de barriga vazia porque sei que me faz mal, ou não tomar sol no rosto apesar de amar o sol. Mas a gente sabe que razão e paixão - dessas que envolvem uma outra pessoa que meio que se encaixa naquilo que a gente sonha - são antônimos.


E então eu, que estava vindo sem passagem de volta para lá, que deixaria para decidir depois, que iria inconscientemente esperar que o Brasil me convencesse a ficar, eu que deixei tudo meio no jeito para o caso de alguém precisar vender as minhas roupas de frio, eu vou voltar.


Tenho um amigo que também está de mudança. Nos encontramos no fim de semana e ele falou: tô igual você, resolvi arrumar um amor por aqui bem agora que vou embora. Ele me mandou o vídeo da Bethânia cantando je ne regrette rien. Ele vai vê-la, eu não. Mas ele sabe que ela canta para nós.

Para a gente que se apaixona e faz tatuagem, que abandona faculdade, troca de emprego, larga família, cria desafetos, bebe demais, escreve cartas, textos, mensagens, compra passagem, a gente que não se arrepende de nada, mesmo.

21 setembro 2014

penteadeira, abajour e curta-metragem



Foi hoje que eu decidi assistir a esse curta-metragem que um amigo havia me mandado há dias. Foi também hoje que, pelo grupo da nossa família no whatsapp, meu irmão mostrou imagens da casa nova para onde ele se mudou.

No vídeo, enquanto ele movia a câmera do celular de um canto a outro do quarto, eu pude ver minha penteadeira e meu abajour.

Então eu fingi incômodo ao ver aquelas coisas tão minhas ali no quarto dele. Minha mãe interveio e me lembrou que ele havia, antes da mudança, me perguntado se podia ficar temporariamente com as duas peças e eu permiti. Era brincadeirinha, mãe, você sabe. Não precisava pedir, claro, embora eu pudesse ficar bastante chateada caso visse minha penteadeira espremida entre duas paredes num desses apartamentos mal iluminados que as construtoras colocam no mundo a torto e a direito sem se importar com quem vai viver ali dentro.

Mas meu irmão não me decepciona, e lá estava a penteadeira iluminada pela luz que entrava da sacada de portas grandes com vista para a rua calma e duas palmeiras, e isso não tem nada a ver com dinheiro, mas com paz e liberdade.

Foi naquele videozinho caseiro de menos de 30 segundos que eu percebi um infinito de coisas. O apartamento no prédio amarelo da rua de paralelepípedos, onde por três anos dividimos teto, não faz mais parte da minha vida. Não tenho mais as janelas grandes do último andar, e a gente sabe quanta história ficou por lá.

Leminski falou que a vida é as vacas que você põe no rio pra atrair as piranhas enquanto a boiada passa. Ver a vida acontecendo lá, e aqui acontecendo também, é concretizar esse poema. Foi porque eu cá coloquei a vaca no rio que a boiada de lá passou.

Eu não vou voltar para o lugar que, junto do meu irmão, fiz mais meu o possível. Assim como não voltarei para quem fui naquele lugar, naqueles anos todos de sol e brisa morna entrando pelas janelas.

A gente nunca volta praquilo que um dia foi. Importante é ter quem caminhe paralelo à gente a vida toda, de mãos dadas. O curta-metragem é também sobre isso: as coisas singelas da vida.

01 maio 2014

21 novembro 2013

tristeza do jeca



quando eu era criança, ouvia essa música na vitrola da casa do meu avô. quem cantava era tonico e tinoco, era sítio, entrava uma luz alaranjada pela janela e a gente sentava no chão da sala. meu avô às vezes parecia que não me via, nem enxergava mais nada. era só a música e a luz laranja, e ele no mundo dele. eu no meu, cada qual no seu e uma felicidade sobre a gente, nos ombros, na cabeça, a felicidade calma e tátil. no raio de luz que escorregava pela janela pra dentro da sala pairavam partículas de poeira, e eram pra mim felicidades materiais dançando no ar. eu olhava praquilo tudo com sossego. felicidade era isso: a gente podia ver.

meu avô morreu faz nove anos e a vitrola nunca mais tocou. a internet é uma benção, o youtube um labirinto e ontem entre uma música e outra sem querer cliquei nessa. que eu nunca soube que tinha esse nome. quando reconheci o som, chorei. foi o clima de fim de ano, essa felicidade que fica pairando no ar, mais a saudade.

hoje, tempo de ser mais feliz é fim de ano, quando as coisas andam devagar e aquela felicidade tátil e morna ressurge junto dos bichinhos de luz e das luzes de natal.

a gente vai embora de onde nasceu, cai na vida, mas tem sempre um anzol nos fisgando praquilo que a gente foi.

29 outubro 2013

bruxas

eu tenho um amigo que não usa celular, nem facebook e que me escreve e-mails apenas para mandar uma música bonita ou um texto emocionante. esse mesmo amigo passa horas falando de uma única poesia, toma mais chá que o normal, gosta de andar a pé e se encanta com pequenos gestos de delicadeza. esse meu amigo tende a dar muita atenção às coisas intangíveis da vida.

e eu acho que as pessoas que têm essa tendência acabam encontrando pelos caminhos da vida outras pessoas que dispensam grande atenção às coisas sem valor material (mas que servem para enriquecer a alma).

por isso, uma vez esse meu amigo, durante uma viagem, acabou encontrando um senhor que além de fazer artesanatos se dizia criador de sacis. e meu amigo, por valorizar as pequenas histórias e delicadezas, parou para ouvir o homem.

entre outras coisas, o homem criador de sacis contou uma história sobre as bruxas. e todo ano nesta época de fim de outubro, dia das bruxas, um outro amigo que também gosta de coisas intangíveis faz questão de me lembrar e pedir para repetir a história.

o senhor contou que no brasil existe muito saci, mas não existe bruxa alguma. que a terra das bruxas é a europa, mas nesta época do ano elas pegam as vassouras e voam para cá. passam uns dias por aqui, depois voam de volta para casa.

o homem deu detalhes, e o mais surpreendente deles é o motivo que faz essas bruxas viajarem quilômetros sentadas numa vassoura. elas vêm até aqui para chupar cana. sim, porque as bruxas, de acordo com o criador de sacis, também dão mais valor às coisas pequenas e desimportantes.

30 setembro 2013

Amiga,

Eu queria estar por perto para te fazer um bolo, comprar pãezinhos, ou dividir com você um café da manhã naquela padaria que você faz questão de me levar, e esquecer que a vida tem dessas coisas. Esquecer que quem se deixa levar pela vida tem mais é que estar a postos, pés firmes, para a rasteira que vem. Mas eu sei que logo, mais uma vez, você esquece e se deixa levar de novo, e de novo. E por saber que logo você se deixar levar (por mais que sofra, se abale e perca noites de sono) eu me sinto aliviada por me ater aos meus problemas e deixar que esses quilômetros atrasem um pouco meu abraço que agora você tanto precisa.

Sua tristeza me comove e me entristece, mas me alivia. Porque em você até a tristeza é bonita. Você encara ela de frente e logo desvia o olhar como quem diz: aqui não. Então, você segue, faz suas coisas, se fecha no seu mundo, morre um pouco, para depois voltar linda como sempre, acreditando como sempre, sorrindo como sempre e distribuindo amor. Isso quando você não abusa dessa tristeza e faz com ela poesia.

Toda vez que um amor acaba eu acabo um pouquinho, porque eu acredito em romances, em eu te amo, em saudade verdadeira. Quando você me contou do seu fim eu entristeci, mas logo lembrei que se tratava de você, e em se tratando de você a desilusão nunca chega, o amargo passa longe, porque a vida é maior e você tem os olhos lindos que parecem que nunca sofreram, e que gelam a alma de quem não entende de sentimentos.

Eu queria ter vivido mil amores mais para poder agora sentir teus cabelos no meu colo e falar com toda a convicção que há neste mundo que amor é assim mesmo, e logo vai passar. Mas eu não posso porque assim como você eu ainda vivi pouco deste muito a viver que a gente tem. E assim como você, também escondo de mim mesma os amores que me machucam, e escondo tão bem que fica até parecendo que nunca me feriram e roubaram apetite. Sobram-me poucos conselhos sobre amores que deram errado: para mim, eles sempre deram certo, assim como para você.

***

(igual a sobrevivente voltando da guerra)

22 agosto 2013

mares nunca dantes navegados

mas quem só atraca em porto seguro
nunca desbrava novas terras
nem firma novos portos

13 agosto 2013

catchup

quando eu era criança queria uma barbie sereia, daquelas com cabelão que muda de cor de acordo com o ambiente. você coloca na água quente, por exemplo, e vão surgindo mechas alaranjadas. dai você seca e aparecem mechas cor de rosa. como fui uma criança pobre tive que me contentar com a barbie sereia das amigas.

o tempo passa, a gente supera os brinquedos que não teve (e também os que teve, tipo o fofão), arruma trabalho, se estressa, se matricula na ioga, tem filhos e começa a fazer cooper aos domingos de manhã. enfim, cresce. tem acontecido comigo, e embora eu faça coisas de gente grande o tempo todo, fico constantemente com a impressão de que a vida adulta é uma piada, um engodo. como se ninguém soubesse muito bem o que está fazendo, nem o porquê. a gente coloca uma gravata, dá ordens e fala difícil, sai da empresa e compra um notebook, enjoa da cor do cabelo e faz mechas loiras, porque viu que é assim que se faz. vai cumprindo uns protocolos, liga tudo no automático e aperta o play.

então, às 22h de uma segunda-feira, a vida mostra que sim: é tudo uma piada. pois eu estava de folga em plena segunda-feira, e resolvi ficar na casa da minha mãe. e como adulta estressada, achei justo tomar um banho de banheira. só que, como uma verdadeira adulta já não mais tão estressada, dormi na banheira.

quando sai, aconteceu a mágica. ou a piada. conforme meu cabelo foi secando, surgiram mechas verdes. não verde meio amarelado tipo o orelhão da telefônica. verde tipo trevo de quatro folhas, uma péssima comparação para situação tão ridícula.

e mais uma vez agindo como adulta, fiz uma pizza. depois, claro, procurei no google e nas redes sociais a solução para tirar a cor verde das mechas loiras.

a internet me sugeriu leite ou catchup; e depois lavagem com shampoo.

era então uma segunda-feira de folga, às 22h30, e eu estava debaixo do chuveiro com catchup e um copo de leite: "mãe, traz mais um sachê que só dois não vai dar".

enquanto mentalmente me comparava à barbie sereia.

24 junho 2013

Eu nunca sei

Eu nunca sei quando é a hora de falar de amor com você. Tenho tomado muita chuva por esses dias. Não sei se é porque sou desprevenida demais e saio sempre sem guarda-chuva, ou se tem chovido fora do normal em comparação aos últimos 26 anos, período no qual (pelo que me lembro) não tomei tanta chuva assim. Eu ia fazer uma metáfora sobre você e chuva, e ser pega de surpresa, mas ufa. Não fiz. Passou.

O fato é que tenho vivido um pouco sem rumo, dias encarrilados e eu passando por eles. É um grande problema quando crescemos com a certeza de que teremos um futuro brilhante, a gente fica parado esperando o futuro brilhante chegar e não faz nada para que ele chegue. Talvez porque na primeira série eu fui campeã no concurso de soletrar palavras, e passei a achar que a vida para mim seria fácil. Então fiz pouca coisa.

Tenho dissimulado mais do que vivido. A sensação constante da brevidade da vida é traiçoeira, se quer fazer muito e acaba-se privando de grande parte. Quero dizer: a gente vai listando o que é preciso ser feito e a lista embolora no bolso enquanto vamos ao supermercado toda quarta-feira.

Acontece que tem esses dias enfileirados, de chuva, de sol, de roupa se acumulando no cesto, e tem você. Eu olho para você e penso que é exatamente aquilo que eu preciso. Depois vem o medo de errar, de você querer fugir. Ou pior, medo de descobrir que não é nada disso, que é tudo coisa da minha cabeça. Tem mais essa: a constante sensação de que sempre estou fantasiando. A gente acha que quando crescer vai ser forte e dar conta de tudo. Então cresce e morre de medo o tempo todo.

 O grande problema é que com gente que só se lança em terra firme não se brinca, e eu infelizmente sou esse tipo de pessoa. Digo infelizmente porque acabo perdendo parte da aventura, aquela coisa do incerto, de arriscar. Deve ser por isso que nunca fui viciada em jogo também.

Por outro lado, nunca me restou ao fim um coração esmigalhado, quem tá sempre de marreta na mão a postos pra despedaçar mais um sou eu, e antes isso fosse bom. Mas no fim eu saio dos amores e eles meio que nunca saem de mim, fica sempre uma mágoa do mal resolvido, aquele gosto amargo quando toca uma música que faz lembrar. Dor de estômago que chá nenhum cura.

Entende o que eu digo? Ontem choveu até as 4h. Da manhã. Eu não dormi, e pensava que seria perfeito se você estivesse por perto pra me abraçar, fazer café e deixar as meias jogadas no chão da sala. Depois pensei que você poderia ver comigo o filme que eu via, era Woody Allen, e eu não gosto dele o que me dá uma tristeza toda vez que vejo um e constato mais uma vez que perdi meu tempo me chateando.

 O tempo tem passado assim, eu fazendo coisas sem um propósito muito claro e às vezes parando para pensar se ser adulto é isso mesmo. E no meio desse nevoeiro, dessas ideias frias com gosto de sabão em pó, aparece a salvação: você, ou algo assim. Talvez minha vida com você nela.

Das poucas coisas que sei, esta é uma delas: as pessoas com quem a gente iria até à puta que pariu não são de se deixar passar sem antes ter ido, pelo menos, um pouco mais longe. Eu penso, repenso e vejo que tempo eu já perco todo dia. Você, não. Você é lucro pra mim.

Do meio dessa chuva eu olho e te vejo um pouco com coração de marinheiro, o que me magoa. Eu, da minha terra firme.

***

O texto foi publicado no Outra Palavras. (:

06 março 2013

James Dean e Charlie Brown

Quando se tem 13 anos e nenhuma vocação para filhinha linda do papai, a gente vai buscar o caminho contrário, um jeito de se rebelar contra a família e mostrar que manda (ou pensa que manda) na própria vida. E em 1998 ou 99 isso significava matar aula, beber pinga escondido às 3 da tarde, fumar maconha, passar silvertape no tênis e perder horas tentando acertar uma manobra no skate. Tinta no cabelo, piercing na sobrancelha e um namorado tatuado, maconheiro e fedido também eram bem-vindos.

E num certo abril de 99, lá estava eu com minha calça rasgada gastando tempo na pracinha da igreja quando apareceu o príncipe encantado versão James Dean anos 90: alto, loiro, olhos azuis e cabelo bagunçado. O tipo perfeito pra se dar o braço numa festa e fazer pose de rebeldinha diante do mundo: o moço era sete anos mais velho e tinha fama de maconheiro.

Foi nessa época que a gente ouvia Green Day, Blink 182 e Charlie Brown naquelas festinhas de garagem com vinho chapinha e vodka barata misturada com fanta. Em cidade de 20 e poucos mil habitantes, esse era o auge da diversão nos fins de semana.

Então aconteceu dos caras do Charlie Brown invadirem a cidade vizinha e eu fui pro primeiro show da minha vida, o que aos 13 anos já é um arraso. O James Dean anos 90 estava lá e me deu um beijo na frente de todo mundo, dos amigos maconheiros dele e da minha amiga perplexa. Depois, ainda fotografou um sorriso meu. Vitória maior não havia.

Só que o James Dean não era só um maconheirinho que leva bronca quanto tira nota baixa, ele era errado de verdade. E meu pai era delegado. Um dia, numa batida policial na casa do James, a equipe da polícia encontrou na porta do guarda-roupas uma foto especial: euzinha sorrindo, com os olhos brilhando pro meu príncipe, ao som de Charlie Brown.

À frente da operação que derrubou o barraco do James estava meu pai. Claro que ouvi dele coisas que até hoje me lembro com frio no estômago e arrepios. Claro que fiquei dias sem sair de casa e meu romance com James afundou, tanto pela distância, quanto pela prudência de ambas as partes. Não é fácil ser filha de xerife.

Daí porque a morte do Chorão é uma coisa esquisita. Não tanto pelo cara, ou pela música, mas porque a gente vê que todo mundo cresceu mesmo, e que, de agora em diante é assim: perder coisas, próximas ou não.

23 janeiro 2013

caminho de girassóis

Eu perco fácil o fio do pensamento. Posso estar para concluir a frase, bate um vento e puf: esqueci.

Um dia, faz tempo, a gente andava de carro numa estrada cercada dos dois lados por plantação de cana de açúcar, e meu pai dirigia. Notei que ele cismou em olhar pra cima, quase perdendo rumo da estrada, que por sorte era vazia. Olhou bastante tempo, depois mostrou para mim que ia acompanhando com os olhos o voo de um passarinho, que parecia que seguia o carro. Vai saber quem seguia quem.

Outra vez eu ia de fusca com meu irmão por uma estrada que ele já conhecia, eu ainda não. Por uns 10, 12 quilômetros, ele foi apontando girassóis perdidos no acostamento: parecia que ele já tinha decorado a moradia de cada um. Avisou: vai ter mais uns dois no canteiro do meio, depois acaba. E assim foi. Daí ele falou da teoria que ele mesmo desenvolveu sobre um caminhão de sementes que passou derrubando os embriões de girassol. Quase todos voaram para o acostamento, e dois para o canteiro central da pista. Achei bonito porque quase ninguém que passa por aquela estrada nota os girassóis.

Eu sou muito desligada deve ser por isso: nasci numa família de poetas.

13 novembro 2012

que se chama amor

Um tipo que sempre despertou meus sentimentos (aflição, curiosidade e ternura) é gente que chora em público. É ver gente chorando pela rua que me bate a vontade quase incontrolável de chamar pro bar mais próximo, perguntar o que aconteceu, saber o que foi de tão grave, tão urgente, que fez aquela criatura derramar as lágrimas ali mesmo, sem tempo de chegar em casa.

Até que hoje, a pessoa chorando pela rua era eu. O motivo eu sabia bem: o Espeto morreu. Espeto, o gato rueiro que adoeceu devargarzinho e foi embora antes da hora.

Caminhei e chorei esfregando o nariz vermelho, pensando em pegar todos os gatos de rua do mundo, levar todos pra casa e ver eles crescerem e subirem em árvores.

Dez anos antes morreu a Rami, uma cachorra também rueira. Eu gostava de sentar na porta de casa com ela do meu lado, deitada no tapete. Rami ficava ali, fazendo nada, eu também. Foi a melhor companheira de fazer nada que eu tive.

Um dia ficou doente. Foi piorando e parou de andar, quase não comia, só chorava. Não teve jeito: meu pai decidiu levar ao veterinário mas deixou avisado que talvez ela não voltasse. Eu lembro dela me olhando quando saí para trabalhar naquele dia. Foi o jeito que ela arrumou para me dizer adeus, com o queixo apoiado no chão e os olhos tristes. Quando voltei, só meu pai estava em casa. Ela não.

Naquele dia eu decidi - como faz muita gente - que não queria mais bicho de estimação. Meus pais arrumaram outros, vários. Eu nunca desgostei, mas não me envolvia.

Brincava vez ou outra, sem apego, pra não doer.

Até que chegaram os gatos, dois, da rua, que uma moça que trabalha comigo achou. Era para ficarem em casa até que arrumássemos um lar definitivo. Um dia eu estava sentada na sala e vieram os dois quietinhos, se aninharam cada um de um lado nas minhas pernas cruzadas e dormiram. Um jeito um tanto eficiente de disseminar amor: impondo-o a quem o rejeita.

No dia seguinte marquei veterinário, comprei caixinha de plástico pra pôr areia e joguei fora a de papelão. Eu, naquele dia, ainda não sabia, mas hoje sei que os gatos quebraram a barreira imaginária que eu havia colocado entre mim e os animais quando a Rami morreu.

Tem gente que prefere não ter mais bicho nenhum, nunca mais, depois que enfrenta a morte do primeiro. Eu já fui assim, hoje não sou. Não sei se é carência, maturidade, noção da finitude da vida e da efemeridade das coisas, desespero, chamem do que quiser. A dor é cruel, mas para mim é ainda melhor que dor nenhuma. E não há diferença alguma entre gente como eu e gente que escolhe o afastamento: inevitavelmente, estamos todos à beira do abismo.

11 novembro 2012

bolo de fubá

Estava num ônibus no caminho pra casa da minha avó quando li:

"Com massa simples, feita de ovos, manteiga e farinha – ingredientes que não envelhecem –, os bolos caseiros viraram febre em São Paulo. As casas especializadas no doce se multiplicam pela cidade com um esquema de venda parecido ao das confeitarias do passado: o cliente compra o bolo e o leva para comer em casa".

Achei bacana a ideia. Às vezes dá uma vontade de comer um bolo simples, de fubá ou de laranja, mas não sobra tempo pra fazer.

Só que o autor do texto da revista foi além:

"O sucesso das lojas tem a ver com o resgate dos alimentos com tradição, uma tendência no mundo gourmet. “As receitas retrô remetem ao conceito de comfort food, bastante em alta, que nos transfere a um ideal de ternura e de felicidade da infância”, afirma Sandro Dias, professor de história da gastronomia do Centro Universitário Senac".


Daí eu comecei a sentir peninha das pessoas. Imaginei um senhor de meia idade, de terno e barba feita, já meio careca entrando na confeitaria. Ele afrouxa o nó da gravata e pega sua porção semanal de ternurinha. Vai pra casa, come o bolo com café solúvel e pensa que é feliz.

Eu acho que o grande mal cotidiano é essa mania que a gente pegou de querer glamourizar tudo. Querer poetizar o que, por natureza, já é poesia.

Cerveja no fim de tarde de uma sexta-feira por si só já é uma coisa linda, digna de alegria. Não precisa ter notas suaves de café ou cereja, não precisa que alguém comente com que tipo de carne aquela cerveja vai harmonizar.

Bolo no café da manhã é gostoso. Feita pela avó, é um sonho. Se não tiver avó por perto e o bolo for comprado na padaria, também vai ser gostoso, com boa companhia então: só melhora. Daí os especialistas querem dizer que o bolo de fubá é um tipo de comfort food. Por favor, meu queridos, não estraguem a poesia. Não glamourizem a simplicidade.

Tive pena de quem precisa de "comfort food" para sentir a ternura da infância. Eu ainda fico na dúvida: estamos bobos a ponto de comprar essas ideias estranhas que as pessoas criam pra vender produtos, ou  os bobos são os que ficam tentando inventar história pra pôr mais poesia no cotidiano, talvez porque a eles ainda falte um quê de poesia? Relacionar bolo de padaria com ternura de infância, façam o favor meus senhores! Da minha ternura cuido eu, não me venham vender ideias.

Torci pro motorista do ônibus pisar fundo pra eu chegar logo na casa da minha avó, dar um abraço nela e ter certeza de que a simplicidade continua sendo uma coisa simples. Porque felicidade é igual bolo de fubá: bom mesmo é quando é feito em casa.

25 setembro 2012

Chokito



Acordo em mais um dia de chuva e penso que São Pedro usa os mesmos métodos educativos dos meus pais.

Quando era criança, minha irmã inventou de comer chokito (isso mesmo, o chocolate da lacta ou garoto, não sei). Não parava de falar de chokito, foi um dia inteiro primeiro pedindo, depois chorando e por fim esperneando. 

Dez anos atrás as coisas não eram fáceis rápidas e onipresentes como são hoje. Você não ligava o computador, digitava chokito e aparecia o mapeamento da cidade com todas as lojas onde vendem chokito, a variação de preços e as formas de entrega e pagamento. Além disso, as mães saiam cedo para trabalhar e quando ficavam em casa tinham que lavar e passar. Sobrava pouco tempo para fazer as outras coisas, como comprar chokito no dia que não era dia de supermercado. 

O tanque cheio de roupa suja e Heloísa chorando por chokito. Minha mãe deixou roupa de molho, louça na pia, mesa sem toalha e saiu sem falar nada. Voltou com uns dez, doze chokitos. Desembrulhou um por um, colocou sobre a mesa e chamou a menina: quer chokito? Pois vai comer. 

Até o terceiro, foi só alegria. O quarto já desceu mais devagar e o quinto ela empurrou de lado depois da segunda mordida: não quero mais.

Foi sob doces ameaças e palavras de carinho que minha mãe fez a menina comer pelo menos mais uns três.

É assim São Pedro. A gente pede chuva, reclama do tempo seco, faz reza, dança, grupo de oração, ele então cansa: é chuva que vocês querem? Tome chuva.
Claro que Heloisa continuou pedindo coisas, não mais chokito porque temos kit kat, alpino, suflair, kinder ovo. Claro que com mais dois dias assim, a gente começa a pedir por sol.