18 agosto 2008

É doce viver no mar

Esse tá na Revista Wave (www.revistawave.com/blog)


Hoje minha tarde ficou mais triste.
Anos atrás, minhas tardes passaram a ser mais felizes. Foi quando descobri que havia mais alguém no mundo que partilhava do meu encanto por pequenas cidades, e que falava da vida como se ela fosse o que realmente é: brisa.
Eu alimento uma paixão sanguínea por pequenas praças ensolaradas onde a vida passa devagar, e foi numa tarde que uma voz me falou de um bom lugar pra se amar em Copacabana. O Rio de Janeiro é grande, mas a paixão pelos detalhes – seja da pracinha ou do bar a beira-mar – é a mesma.
Depois, ouvi falar de Itapoã. E eu aqui, no interior de São Paulo, longe do mar e do sol, senti toda a paz que é ver a morena de Itapoã caminhando na areia, com uma flor nas mãos.
Fiquei feliz por saber que a minha saudade é a saudade dele, a saudade de Itapoã.
E foi numa tarde, descobrindo Caymmi, que eu fiquei feliz, como fui feliz em muitas tardes de sol, eu que sempre fui do interior, e como foi feliz o Caymmi em sua Itapoã.
Dorival falava da doce tristeza do mar e da saia da morena, com o privilégio de quem viu de perto, mas com a paciência de quem sabe que essa paz é para poucos. E com a compreensão que aqueles que estão longe da paz merecem.
Falava do tabuleiro da baiana e da ingenuidade da Marina, como se qualquer um pudesse ver. Cantava o “quê” da baiana como se ela dançasse bem em nossa frente, rodando sua saia e sorrindo. Ele universalizava o seu mundo de forma única, fazendo com que sentíssemos nos cabelos a brisa do mar.
É, em música, o que é Jorge Amado na literatura. Bahia e seus encantos, seus detalhes, seus mistérios. Vida fluindo e acontecendo em todo canto: na areia da praia e na briga de rua. No sorriso do menino e ou no olhar da morena.
Um violão que, mais que toca, seduz. Som pra se ouvir em rede. Um pedaço de sua paz assim, de graça para quem a ouve. E quem ouve quase o sente ali, sentado ao lado, num banquinho, sorrindo e cantando.
Caymmi me acalentou por vezes. Fez-me entender um pouco da paz e da paciência que, dizem, só os baianos têm.
E na tarde de hoje, com sol amarelando as árvores e brisa morna, eu fiquei um pouco mais triste. A notícia me pegou de surpresa, porque há pessoas que a gente imagina serem eternas, pela simplicidade com que vêem a vida.
Foi-se o poeta do cotidiano. Hoje, tenho certeza, o dia amanheceu mais triste em Itapoã.

3 comentários:

Gabriela Souza Gomes disse...

"É, em música, o que é Jorge Amado na literatura". Concordo completamente com você.

Linda de viver sua homenagem!

Bj.

Anamaria disse...

Liiindo Carol!!
De verdade, srta colunista, adorei...

mostrei pra mamãe que também amou, disse q ia escrever comentário no espaço da revista!

beijosss da Anna

K.C disse...

puxa, as vezes esqueço como é bom ler por aqui. aí eu volto, e lembro, assim, rápido.