14 outubro 2011

"encosta sua cabecinha no meu ombro e chora"

Quando era adolescente, eu tinha uma mania esquisita: eu chorava todo dia. Às vezes, dia sim, dia não. Era uma coisa muito natural, como quem escova os dentes ou espirra: antes de dormir, chorava um pouquinho. Em público sempre foi outra coisa, eu sempre tive mania de ser a mais forte da família, e sabem como é, choro significa fragiliade, por mais que não seja bem assim a situação, por mais que a gente esteja bem e o choro seja só uma mania ou birra. Então, na frente de pai e mãe, só chorava em caso de necessidade ou urgência. E na frente de amigo, só quando não dava mesmo pra segurar, porque tem isso ainda: a gente constrói uma imagem pros amigos, e nenhum deles pode ter arma pra destruir. Eu nunca saberia reagir se um dia um amigo falasse: lembra quando você chorou na festa da Ana?, orgulhosa que sou. Principalmente porque quando a gente chora na frente de amigo, normalmente é por culpa de um terceiro que causou mágoa, ciúme ou raiva, e eu jamais aceitaria que fizessem isso comigo. Mas sozinha, chorava. Depois, dormia.

Daí fui crescendo e parando de chorar, e assumindo que chorava, do jeito que as coisas não devem ser, mas acho que é como na verdade são:  a gente vai assumindo as coisas quando elas já não pesam tanto na gente. E já nessa vida adulta, teve duas vezes que tive que chorar dentro do supermercado, e uma vez na escada do prédio. Mas isso de chorar sozinha em casa nunca mais aconteceu, e eu comecei a sentir falta, porque não era ruim, era só um hábito bobo. Hoje eu cheguei meio cansada, um pouco de mal com as coisas, porque ser adulto ainda tem dessas: a gente tem que assumir a culpa das coisas que faz. Fiquei assim, umas horas incomodada, li umas coisas, falei com umas pessoas,  mas nada desse incômodo passar, e eu pensei “é TPM” e também “é inferno astral”, e lembrei que a gente é tão ridículo, e tão desamparado, que precisa ficar arrumando coisas fora da gente pra justificar o que acontece dentro da gente,  e pra justificar aquilo que a gente faz. Resolvi dormir, e daí, quando fui fechar o facebook resolvi ler esse texto aqui, e chorei. Eu precisava era disso, de uma coisa na medida, com beleza e melancolia, pra me fazer chorar. Porque tem mais essa ainda: a gente cresce e fica precisando de motivo pras coisas que faz.

*Combinahttp://www.youtube.com/watch?v=UZdLI9bLaZA&feature=related

2 comentários:

Tatiana disse...

É isso. Não precisar de justificativa pra ver a lágrima verter... COISALINDADEDEOS.

nacasadochina disse...

faz muito tempo que eu não chorava também, carolzita! e concordo contigo, a gente precisa disso de vez em quando.