02 maio 2011

a benção, zé

minha mãe me liga chorando: zé mandioca morreu.

e quem é esse com apelido tão digno de conotações e denotações, me perguntam vocês.

era - agora - um bêbado, velho, sozinho no mundo. nos últimos tempos não passava disso. no mais, sempre desempenhou bem o seu papel de maluco de praça de cidade do interior, desses que cada qual cidadezinha tem o seu.

eu não sei porque minha mãe chorava, mas eu bem posso imaginar se tomar por base o que representou para mim o zé. eu me lembrava dele das épocas em que eu, lá com 5 ou 6 anos, ficava na varanda do sítio e ele aparecia para trabalhar daquele jeito de quem chegou da cidade com 'sangue nos zóio', como se diz: vinha de longe trançando as pernas.

meu vô (outro que já faz falta, menos por feitos heróicos, mais pela personalidade excêntrica e cativante) ralhava com o zé, mas ele não se importava e todo dia tratava de dar as caras no bar.

é certo que meu vô deve ter dispensado os trabalhos dele, porque não há patrão que aguente o bafo da cachaça e toda a indisciplina que com o tempo ela impõe ao peão.

o zé sumiu pra um lado, eu sumi pro outro, duartina virou um parênteses entre a minha vida e a vida do homem que usava chapéu de palha.

coisa de 18 anos depois eu voltei pra morar mais uma vez no sítio e o zé, quem diria, virou vizinho. arrumou ele também uma casinha no sítio ao lado e foi provar que há coisas que nunca mudam.

apareceu e eu reconheci de longe: chapéu de palha e o mesmo trançar de pernas. chegou pedindo café e logo foi mandando: 'como tá bonita a carolina'.

eu reconheci de longe mas duvidava que ele, com tantos anos e goles na cabeça, pudesse ainda lembrar de mim. pois lembrou.

cada um escolhe a forma que quer pra fazer as pessoas serem importantes pra vida delas. eu escolho essa: a poesia que elas têm sem saber quem têm.

o zé morreu sozinho, sem velório, sem padre, nem vela, mas com choro meu.

minha intenção é fazer aqui pelo menos um post por mês e eu peço desculpas por maio começar triste. mas é que o vinícius falou que pra se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza e eu digo que não é só samba não.


*a notícia da morte do zé veio no dia da morte do osama. o zé escolheu o dia certo, pois a mim só fez parecer mais desimportante o que já era duvidoso. meus dramas pessoais têm muita relevância.

11 comentários:

Marina disse...

Eu sumo, mas volto... e continuo adorando os textos da Carol!
bjo bjo!!!

Marina disse...

Droguinha, to no pc da Marina, mas quem escreveu foi a Anamaria tudojunto! =p

VetAgro disse...

Carol tudo certo, mas pelo menos 2 por mês vá!

michelaalbano disse...

Que lindo amiga, nossos sentimentos ao Zé Mandioca, descanse em paz!!!
adorei o texto, como sempre, muito envolvente, parabéns gata !!!
bjss de sua amiga !!!

Anônimo disse...

Boa !

É assim, aos poucos, perdendo os referenciais, que a gente vai ficando meio à deriva.

Jocih disse...

Adorei o Blog, tomei a liberdade de compartilhar em minha página! Bjo! http://jocih.blogspot.com/

Marcelo R. disse...

É impressionante como toda cidade interiorana tem essas figuras -- ou talvez, pela imensidão de gente e bairros, as que pertencem aos grandes centros se percam no cenário.

Eu mesmo já encontrei um monte, mas a que mais me intrigou até hoje nunca pude conhecer. Meus pais me contavam de um, em Guaxupé-MG, já falecido, que se achava um caminhão e andava pelas ruas mudando de marcha e dando seta na hora de se virar. Fantástico!!!

Carol disse...

poxa marcelo. já ouvi por ai a história do homem-caminhão! haha. pelo jeito, ele ficou famoso.

Marcelo R. disse...

Me lembrei também do "Finca", que saia falando pra mulherada na rua que ia dar "fincada" em todas elas...

viuva aos 37 anos oque fazer? disse...

sou a mais recnte leitora do seu blog, gostei muito me fez rir em momentos tão dificeis.

Carol disse...

fico, de verdade, muito feliz :)