18 agosto 2010

6 da tarde

Nos tempos em que eu dormia toda tarde às vezes acontecia de eu acordar já com o pôr-do-sol, ali pelas 6 ou 7, depende da época do ano. Levantava meio zonza, de cara amassada e demorava uns certos minutos para me localizar no espaço, no tempo e até naquela definição de quem sou eu.

Se fosse preciso ilustrar essa sensação de forma exata, hoje eu citaria o “sem ana blues”, do Caio Fernando de Abreu, na parte que ele fala do corredor do transatlântico, guardadas as devidas proporções, porque nunca um amor tinha ido embora, era só um acordar num fim de tarde.

Quando meu pai me via nesse momento, sempre, invariavelmente, dizia: “esse é o pior horário pra acordar. A gente fica meio besta”. Ele diz isso ainda hoje, mas eu não ouço mais porque não me ocorre mais de acordar nessas horas e porque, ainda que ocorresse, eu não moro mais com meus pais.

Eu não sei se foi de tanto meu pai repetir, ou se ele repetia de tão forte que é o sentimento, mas é uma verdade: o pior horário para se acordar é o fim de tarde.

Vou além. O fim de tarde – não o finzinho por volta das 5, esse é o desenho da tranquilidade; falo do quase-noite, de quando o céu sai do cor-de-rosa e o que resta de colorido é uma faixa de laranja, o resto é meio cinza, meio azul – é o pior horário para se viver.

Qualquer coisa fica mais triste por essas horas, é tudo mais dolorido. Pense pegar um ônibus às 6 da tarde, olhar pela janela e falar tchau. Lá longe, a noite chegando, e estrada que não acaba. A dor triplica. Pense acabar um livro, depois de um mês de leitura. Não há coragem que deixe terminar a última página, fechá-lo e colocá-lo num canto às 6 da tarde. Fazer comida às 6 da tarde não dá, passar um café não tem jeito, tudo vai cheirar saudade, tudo vai ser uma tristeza.

Deve haver explicação física ou astrológica para isso, deve ser a hora que as partículas de passado se assentam pra deixar o dia seguinte chegar, vai saber. Um coisa é fato: ninguém deveria ser sozinho ás 6 da tarde. Nas outras horas, dá-se conta.

8 comentários:

Michele Matos disse...

Eu li esse texto às 6 da tarde, olhei pela janela e me entristeci. É tudo verdade e seu texto é lindo.
=*

Vário do Andaraí disse...

O texto todo tá muito legal, mas os 2 últimos parágrafos estão 6 da tarde de bonitos.

No fechamento da crônica "Conversão", do Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos, tem um treco que, por ser escrito em versos e pela boa vontade do leitor, pode acabar se chamando poema e que fala exatamente desta hora, que é a hora das ave-marias.

Parabéns, Carolina.

Deborah Cabral disse...

Engraçado... É exatamente essa sensação de ter vivido um dia, de ter presenciado mais um sol, de ver a lua surgir no céu que me dá uma nostalgia e ao mesmo tempo uma alegria...

Mas você quase me convenceu de que esse é o horário mais solitário. E talvez seja por isso mesmo que eu me sinta tão bem.

Parabéns, flor! Texto lindo, lindo... ^^

Matheus Caldas disse...

Off-topic total, mas...

Carol, aquela força que a gente falou:

http://www.blablagol.com.br/e-mail-para-livro-10517

Vê como você pode ajudar a gente a ser famoso.

GrandeR@O disse...

aloo vc
adorei o texto, realmente toda vez que eu acordava as 6 da tarde eu tinha impressão que era 6 da manhã e ia me arruma pra escola
uahuahuhua
adorei o texto
há braços psicodelicos

VetAgro disse...

Amiga vc as vezes escreve sobre coisas que sempre sentimos e que as vezes não percebemos! Consegue abrir os olhos de quem a acompanha para belos pequenos, mas importantíssimos, detalhes da vida. beijo enorme!

maíra disse...

Concordo. Mas, pra mim o pior dia pra ter 6 da tarde é o domingo.
Se pudesse baniria as 6 horas do relógia. assim, não poderíamos ver aquele por-do-sol que pôe qualquer a pensar nas coisas que estão por vir na semana. sabe, pensar enlouquece, né?

Mariana Pizente disse...

Pois é, o céu rosa também me 'lembra saudade' ... rs