03 agosto 2009

Na cadeia


Estou escrevendo uma matéria sobre o projeto EntreVersos, de Dois Córregos – pra quem não sabe, é a cidade onde moram meus pais. É um trabalho que incentiva as pessoas a ler e escrever poesia. Uma voluntária do projeto fez, durante um ano e meio, visitas ao presídio feminino da cidade, levou livros, leu poemas e incentivou as mulheres a escrever o que sentiam. O resultado foi um livro lançado por uma detenta. Gostei da história e fui lá conferir. Deparei-me com um pátio cheio de poemas nas paredes, mulheres simpáticas e meu preconceito me dando um tapa na cara:

Cidade pequena todo mundo se conhece, então, para falar com o delegado não foi difícil. Expliquei que queria conversar com uma detenta. Ele me perguntou se eu já havia entrado em uma cadeia e eu disse que já, só não contei que ela estava vazia quando entrei. Autorização concedida, fui conversar com o carcereiro, um homem grande, forte e barbudo – exatamente o que eu imaginava de um carcereiro - que me levou até uma porta de metal, com uma janelinha e um cadeado. Pela janela, ele chamou “Regina” e apareceu uma senhora de cabelos presos e havaiana nos pés. A tal da Regina me informou que a pessoa que eu procurava, aquela que escreveu o livro, não estava mais lá, mas que havia outras mulheres que escrevem poemas e que eu poderia ir até as celas falar com elas se quisesse. Eu quis e o carcereiro explicou: “então você deixa suas coisas comigo. Leva só o que vai precisar”. Retirei o mp3, o caderno e a caneta e entreguei a bolsa pro grandalhão. Ele abriu o cadeado: “vai com ela”. A Regina me acompanhou e eu me lembrei do Dr. Dráuzio Varella falando do barulho da porta de metal fechando, em “Estação Carandiru”. Entrei em um longo corredor. De um lado, paredes com a pintura descascando. Do outro, celas. E dentro de cada cela havia varais com camisetas, saias e calcinhas. No chão, colchões e mulheres sentadas. Algumas deitadas. Pensei que deveria ser bem normal aparecer pessoas por lá porque elas mal se mexiam para ver quem passava. Ou então a cena de “Senhora do Destino”, que todas viam pelas TVs, estava mais interessante do que quem caminhava pelo corredor. Cheguei na cela 5 e uma mocinha, bem jovem, veio até a grade. A Regina, sempre ao meu lado, explicou: “Kátia, essa moça é jornalista e quer ver suas poesias. Tá ai?” Ela já estava preparada para a conversa e me entregou uma folha de caderno dobrada. Perguntei seu nome completo e quando fui anotar, percebi que minhas mãos tremiam. Eu estava com medo. E quando percebi isso,vi que era uma besteira muito grande sentir medo. Elas estavam do lado de dentro da grade, como poderiam me fazer mal? Enquanto conversava com a Kátia, sobre a cadeia e a saudade, outra mulher se aproximou: “Sabe o que é? Quando você escreve, você sai daqui. Eu escrevo para os meus filhos e não falo de um lugar fechado, horrível, fedendo mofo. Eu falo de coisa boa. A gente se liberta”.
Chamei para a conversa e ela me contou que escreve muitas cartas, mostrou um livro e falou da Bíblia.
Entrevista feita, me despedi e uma mulher, lá do fundo da cela, gritou: "moça, já que você é jornalista, faz uma campanha pra trazer livro pra gente". Jornalista, eu? Pensei. E prometi alguns livros, sim.
Caminhando pelo corredor, a Regina, de cabeça baixa, mexendo com as mãos, disse: “Eu escrevo. Ganhei um prêmio outro dia”. Começamos a conversar e eu, ingenuamente, perguntei: “Você trabalha aqui?”.Ela, tímida, me explicou:“Eu sou presa, mas sou da faxina”. E então me contou que é a presa mais velha de lá, falou de sua vida antes da prisão, do seu trabalho e dos motivos de estar atrás das grades: “Minha pena é curta, é furto. Já era pra eu ter saído”.
Antes de ir embora, passei na sela 2, para conversar com uma outra mulher. Lá no fundo, deitada e prestando atenção em nossa conversa, estava uma mocinha bonita, arrumada, cabelos compridos. Tive a impressão de já ter visto a menina em algum lugar. Não olhei por muito tempo, mas a impressão está comigo até agora. Uma antiga colega de escola? Talvez.
Despedi-me da Regina e ainda passei na frente de mais um cômodo. Este, com as grades abertas. Enquanto o carcereiro não voltava, parei na porta e vi os minutos finais da novela. Lá dentro, duas senhoras tricotavam e outras duas olhavam pela janela, o olhar perdido no céu cheio de nuvens. Nenhuma delas notou minha presença ali na porta. Eu notei todos os detalhes: os novelos no chão, o tapete de tricô, os vasos de violeta e o bule de café.
Fui embora e não perguntei pra nenhuma daquelas mulheres o motivo de estarem ali, mas o delegado me explicou que muitas delas se envolveram no tráfico por causa do marido, do namorado, do amante. Outras tem crimes leves, como o furto da Regina.
Cadeia é um lugar onde qualquer um pode estar: uma mãe de 5 filhos ou uma bela moça de 20 anos. É tudo uma questão de deslize. É uma questão de ser humano. E de ser pego.
Incrível é como uma grade entre as pessoas pode deixar tudo mais assustador.

7 comentários:

Deborah Cabral disse...

Realmente uma grade entre as pessoas faz toda a diferença... Adorei o texto, Carol, parabéns!

Doug disse...

q legal essa narrativa, os detalhes... fiquei bem agarrado a historia aqui, hehe.
a iniciativa tb foi muito boa!

vinilliterario disse...

Salve a tua iniciativa.

anamariacorri disse...

Campanha: Doe um livro pra Carol levar pro presidio....
coisa estranha?!?!
Mas adorei o texto!
Beijao Caroll

Deddalus disse...

Gostei.
Parabéns.

Um abço.

Beatriz Jucá disse...

essa tua reportagem, se seguir a onda desse texto, vai ficar a coisa mais linda. :D

Anônimo disse...

aiaiai que besteirada