13 novembro 2012

que se chama amor

Um tipo que sempre despertou meus sentimentos (aflição, curiosidade e ternura) é gente que chora em público. É ver gente chorando pela rua que me bate a vontade quase incontrolável de chamar pro bar mais próximo, perguntar o que aconteceu, saber o que foi de tão grave, tão urgente, que fez aquela criatura derramar as lágrimas ali mesmo, sem tempo de chegar em casa.

Até que hoje, a pessoa chorando pela rua era eu. O motivo eu sabia bem: o Espeto morreu. Espeto, o gato rueiro que adoeceu devargarzinho e foi embora antes da hora.

Caminhei e chorei esfregando o nariz vermelho, pensando em pegar todos os gatos de rua do mundo, levar todos pra casa e ver eles crescerem e subirem em árvores.

Dez anos antes morreu a Rami, uma cachorra também rueira. Eu gostava de sentar na porta de casa com ela do meu lado, deitada no tapete. Rami ficava ali, fazendo nada, eu também. Foi a melhor companheira de fazer nada que eu tive.

Um dia ficou doente. Foi piorando e parou de andar, quase não comia, só chorava. Não teve jeito: meu pai decidiu levar ao veterinário mas deixou avisado que talvez ela não voltasse. Eu lembro dela me olhando quando saí para trabalhar naquele dia. Foi o jeito que ela arrumou para me dizer adeus, com o queixo apoiado no chão e os olhos tristes. Quando voltei, só meu pai estava em casa. Ela não.

Naquele dia eu decidi - como faz muita gente - que não queria mais bicho de estimação. Meus pais arrumaram outros, vários. Eu nunca desgostei, mas não me envolvia.

Brincava vez ou outra, sem apego, pra não doer.

Até que chegaram os gatos, dois, da rua, que uma moça que trabalha comigo achou. Era para ficarem em casa até que arrumássemos um lar definitivo. Um dia eu estava sentada na sala e vieram os dois quietinhos, se aninharam cada um de um lado nas minhas pernas cruzadas e dormiram. Um jeito um tanto eficiente de disseminar amor: impondo-o a quem o rejeita.

No dia seguinte marquei veterinário, comprei caixinha de plástico pra pôr areia e joguei fora a de papelão. Eu, naquele dia, ainda não sabia, mas hoje sei que os gatos quebraram a barreira imaginária que eu havia colocado entre mim e os animais quando a Rami morreu.

Tem gente que prefere não ter mais bicho nenhum, nunca mais, depois que enfrenta a morte do primeiro. Eu já fui assim, hoje não sou. Não sei se é carência, maturidade, noção da finitude da vida e da efemeridade das coisas, desespero, chamem do que quiser. A dor é cruel, mas para mim é ainda melhor que dor nenhuma. E não há diferença alguma entre gente como eu e gente que escolhe o afastamento: inevitavelmente, estamos todos à beira do abismo.

5 comentários:

Thiago Rocha disse...

Você é uma das poucas pessoas que me fazem dizer "que bonito!" e não, "que legal!", como costumo fazer em um texto que gosto. Como a gente conversou, a dor é inspiradora...

Anônimo disse...

Espeto!
O mundo fica um pouco triste!

O abismo, sempre.

Marcos disse...

http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/wp-content/uploads/2012/11/rola.gif

Mariana disse...

Eu não gosto de chorar frente a outras pessoas, mas já me aconteceu uma vez que chorei na rua, uma amiga me viu e pedimos delivery de comida na sua casa porque ela queria saber o que me acontecia...

Luiz disse...

Hoje, voltando para casa, não consegui segurar e chorei na rua. O motivo foi parecido com o da autora, meu cachorro Bili morreu. Na hora eu lembrei desse texto.