30 julho 2009

Entrevistando



Resolvi, um tempo atrás, participar do concurso do Itaú Cultural para estudantes de jornalismo. O tema é cultura e eu optei por fazer um blog. E falar do que? De internet, ué. Afinal, produz-se tanta coisa por aqui. E para começar, achei legal entrevistar algumas pessoas que usam a internet para divulgar seus textos, seus desenhos, seus filmes... E porque não conversar com alguém que eu leio frequentemente? Então, bati um papo com a Gabriela Gomes (na foto acima), do "A Cronista". Foi por e-mail, porque a moça mora longe e telefone está caro. Ela falou de internet, do blog e da paixão pelas palavras. Abaixo, a entrevista:


Qual sua idade?
25 anos.

Profissão?
No diploma: publicitária, formada em 2007 pela ESPM-RS.
No coração: quem-sabe-um-dia-escritora iniciada em 1999 pela vontade. Aperfeiçoada no estilo entre 2007 e 2008, nas oficinas de Fabrício Carpinejar (jornalista, poeta e cronista gaúcho). E aos que perguntam, blogueira não virou profissão. Pelo menos, ainda não. (risos)
 
Desde quando tem o blog?
A Cronista nasceu em agosto de 2007. Lembro que foi na semana da minha formatura na faculdade. Mas essa não é a primeira vez que me aventuro no universo blogueiro. Lá por 2000/2001 mantive um blog adolescente, no estilo “meu querido diário” e que volta e meia fazia as vezes de analista - não que A Cronista não o faça. Mas a diferença é que agora não escrevo apenas pra mim. Eu não me preocupo apenas em dizer, me interessa o que as pessoas irão entender. E elas costumam ir além do que está escrito.
 
Qual é a média de visitas diárias do seu blog?
Eu não tenho como responder essa pergunta com exatidão*. Utilizei por bastante tempo o Google Analytics, que oferece estatísticas bem apuradas para sites, registrando o número de visitas, os países e cidades que as pessoas acessam o blog, com que freqüência o fazem, quanto tempo ficaram ali. Aconteceu que, inteligentemente, mudei o layout do blog e mandei os registros anteriores para o espaço. O que posso afirmar é que hoje, tem 173 pessoas seguindo o blog. Na época do Prêmio Negresco, por exemplo, o contador chegou a marcar mais de 190 visitas/dia, mas isso com muita divulgação. Atualmente, rolam umas 15 visitas/dia. Sinceramente, não acho pouco, ainda mais que não mantenho um blog de humor (nada contra blogs de humor), mas é uma temática que as pessoas buscam mais. Não me interessam visitantes que estão ali apenas para fazer número, meu objetivo é ter meus textos lidos.
 
De onde surgia a idéia de fazer o "A Cronista"?
Gosto de escrever há, pelo menos, dez anos. Herdei isso do meu pai, que é poeta. O blog surgiu próximo a primeira Oficina de crônicas que fiz com o Carpinejar em Porto Alegre-RS. Mas antes disso, já existia a vontade de publicar o que eu só compartilhava com o pessoal de casa - embora meus primeiros leitores tenham sido as traças e os cupins. Fazer o blog foi a forma que eu encontrei de receber opiniões não tendenciosas, de saber o que as pessoas pensam sobre o que eu escrevo, se curtem ou não. Já o gênero (crônicas) adotei pelo tom de conversa e proximidade com o leitor. E pela ansiedade de ver o texto, sem rodeios, pronto ainda hoje. Mas confesso que tenho sentido necessidade de arriscar e experimentar coisas novas. O blog foi uma forma que encontrei para me disciplinar, de escrever mais.
 
Vc ganhou o prêmio Negresco, certo? Como foi o concurso? Quais os critérios avaliados?
O que eu ganhei foi a categoria Blog - do Prêmio de Criatividade Jovem da Editora Abril em parceria com a Nestlé (a tal 2ª Volta ao Mundo Negresco). Eram oito categorias disputando a grande viagem: anúncio publicitário, blog, podcast, customização de moda, ilustração, animação, vídeo e foto de balada. Os critérios foram criatividade, adequação e pertinência ao público jovem. Foram mais de dois mil trabalhos inscritos e a comissão organizadora escolheu os 40 finalistas (5 de cada categoria) para irem a júri popular. Os trabalhos que ficassem em primeiro lugar na votação, iriam concorrer entre si e o grande vencedor seria divulgado em São Paulo. Foi o que aconteceu: cada finalista tinha o direito de levar 1 acompanhante (fomos eu e minha irmã) com transporte, hospedagem e alimentação pagos pelos organizadores. Posso dizer que conheci pessoas muito legais – tinha gente de todo canto do país. Fizemos visita guiada pela redação das revistas Superinteressante, Mundo Estranho e Capricho; recebemos um ano de assinatura grátis de duas delas; alguns brindes; conhecemos o Parque Gráfico da Ed. Abril; a agência Publicis; rolaram muitas fotos e histórias para contar. E quando cheguei a Porto Alegre (ufa!) ainda tinha R$ 2.000,00 em roupas para trocar. O grande vencedor é aqui do Sul também e concorreu pela categoria anúncio. Com toda certeza, foi uma experiência incrível e única. O resultado foi ótimo. Mas teve muito suor antes disso, bolei campanha para o pessoal votar no blog. Saiu no jornal da cidade, fiz campanha no MSN, no Orkut, no próprio Blog. A galera criou panfletos e colamos cartazes em escolas. Foi um trabalho em equipe.
 
 
Seu blog já te abriu portas?
Poxa, sem dúvidas. Não pago nada para ter e manter A Cronista. Até hoje, só ganhei: amigos, leitores, confidentes e até concursos, né? Mas o que me importa, de verdade, são as pessoas que estão lá me lendo e também comentando. Adoro os comentários, sem eles o blog não teria sentido, poderia me contentar com as traças e os cupins das minhas gavetas, não é mesmo? Gostaria de ter tempo de ler o blog de todos – e comentar um a um. Mas é difícil. E quem gosta não precisa de retribuição de comentário para retornar. Comento quando tenho o que dizer. Logo no começo, achei crônicas minhas em outros blogs (com os devidos créditos), achei incrível. Fiquei meio boba em perceber que o que eu escrevia era importante para alguém (além de mim, claro). O último ganho foi um livro que a Ediouro me enviou de cortesia para emitir opinião via blog. Só ta faltando o convite pra escrever em algum veículo bacana. Enquanto isso, eu vou fazendo o meu próprio veículo.
 
 
Vc acha que, se não houvesse internet, vc teria a notoriedade que atualmente tem?
Sem internet, fatalmente, não conseguiria chegar até as pessoas que chego. Já virou clichê dizer isso, mas a internet é realmente incrível: rápida e fácil. Se no mundo real o boca a boca funciona muito bem, no mundo virtual o link a link traz resultados incríveis. E literatura é mais ou menos assim, se tu não és conhecido é mais fácil ser indicado por quem leu e aprovou.
 
 
Em sua opinião, qual a importância da internet na divulgação do nome e trabalho dos novos artistas e escritores?
O que a internet, e principalmente, as novas redes sociais - tipo Orkut, Myspace, Youtube, Flickr, Twitter, Blogs, entre outros, têm a oferecido aos artistas e escritores é maravilhoso. Dá mais independência ao criador e ao trabalho. Os escritores não ficam presos às editoras, os músicos não se limitam às gravadoras, os pintores às galerias. Quem quiser, publica livro de graça, cria revistas, zines - ou o periódico que bem entender -, divulga filmes, músicas, tudo por conta própria. Com a vantagem de ainda receber um feedback rápido, barato e das pessoas certas, pois só vão parar para te ler, ver ou ouvir, aqueles que realmente se interessam pelo teu trabalho. As coisas estão se encaminhando para que cada um crie seu próprio veículo de comunicação. Os recursos são muitos, basta saber usá-los a nosso favor.
 
 
Vc busca conteúdo cultural na internet? Quais blogs e sites de conteúdo cultural vc frequenta?
Ironicamente, de tudo que acesso, o que menos acabo lendo na internet são blogs literários. Os que entro com mais freqüência são de escritores como o do Fabrício Carpinejar, Xico Sá. E coletivos, tipo Blônicas. Alguns sites que oferecem recurso de publicação de textos, como o Portal Literal. O restante são portais de notícias, redes sociais, blogs de propaganda e o que vier a interessar na ocasião. Ultimamente ando de olho no Twitter de algumas pessoas legais, sempre rolam dicas de conteúdo cultural e coisas bacanas.
 
Quais outros meios de comunicação vc utiliza para obter informações sobre artes e cultura?
A internet eu diria que é o principal, porque integra TV, rádio, jornal, revista. Mas adoro revista e TV convencional também. Além de assinar as news dos sites que me interessam. É basicamente isso, algumas coisas procuro, outras chegam naturalmente até mim.



*Após essa estrevista, ela reativou o Google Analytics e me informou que o blog recebe, em média, 20 visitas por dia.



E quem quiser conhecer meu novo blog, é só clicar aqui. Ainda tá no começo, mas daqui uns dias vai estar bem arrumadinho!

29 julho 2009

A internet acabou com a brincadeira


Hoje, quando passo pelo bairro onde morei anos atrás, algumas coisas me causam estranhamento: escritórios, construções onde antes eram terrenos cheios de mato e novas fachadas nas casas antigas. Pessoas se mudaram pra lá, famílias fizeram reformas. Mas o que me deixa triste é ver vazia a ruazinha sem saída. Nenhuma criança brincando, nenhuma trave de futebol improvisada com tijolos, nenhum rabisco de amarelinha na calçada.
Aparentemente, não há motivo para esse abandono. Esta minha cidade tem pouco mais de 25 mil habitantes, não há bandidos pelas ruas e nem carros em alta velocidade. Penso que a ausência de crianças brincando nas ruas é culpa da internet.
Claro que não, não posso crucificar a internet e ser reacionária a ponto de dizer que ela é o mal da humanidade. Quantos benefícios a internet não nos proporciona? Dá voz a todos, traz informações em tempo real, dá acesso a conteúdos artísticos e novidades. E hipnotiza crianças na frente de uma tela.
Dez anos atrás, aquela rua estreita que termina em lugar nenhum estaria, a qualquer hora do dia, cheia de meninos jogando futebol. Meninas pulariam amarelinha e mães conversariam no portão.
Hoje os meninos ficam em casa, não suam, não se sujam, não se cansam. São personagens de incríveis jogos em 3D e conversam com os amigos por uma janelinha aberta na tela do computador enquanto ouvem música e baixam um filme. Uma maravilhosa revolução!
Com tanta coisa boa no mundo virtual, quem quer sair de casa depois do almoço, subir num muro e ver a rua toda de lá de cima; chamar os amigos; jogar uma partida de futebol: um time com camisa, outro sem; fazer um carrinho de rolimã e pegar uma descida, apostando corrida e voltar pra casa só depois de anoitecer, porque a mãe saiu na rua para chamar para jantar?
Penso que se um dia acontecer igual a música do Rappa diz, e faltar luz enquanto for dia, as crianças ficarão sentadas no sofá, com o olhar parado em algum ponto, a boca aberta, sem saber o que fazer. Acho que estamos desaprendendo a brincar.

24 julho 2009

Última Parada 174: a perversão da culpa

Depois de dias de resistência, acabei de assistir ao filme “Última Parada 174”. Resistência porque eu sabia o que me esperava: a reprodução daquela tumultuada tarde de junho do ano 2000, e eu ando numa fase “comédia ou trash”, pouco interessada em assuntos densos e cenas fortes.
Resistência também porque, meses atrás, eu assisti ao documentário sobre o mesmo tema, com direção de José Padilha, que tem relatos dos passageiros do ônibus e de pessoas que conheciam Sandro Barbosa do Nascimento, o rapaz que seqüestrou o ônibus. O documentário me sensibilizou e fez perceber que Sandro, como diz uma das personagens do filme, era a maior vítima daquela história. Eu temia que o filme retratasse um homem motivado pelo ódio e pela vingança, um Sandro mau e perverso, contrário à imagem deixada pelo depoimento das pessoas que conviveram com ele.
O filme não atendeu as minhas expectativas. Não, pois quando eu esperava algo superficial, onde o bandido é o culpado pela tragédia, Bruno Barreto soube conduzir a história e mostrou Sandro como realmente foi: uma vítima da sociedade. Esse é um grande clichê, mas não há outra expressão para o caso. O garoto viu a mãe ser assassinada, morou na rua e esteve na Candelária no dia da chacina. É injusto cobrar alegria e sensatez de uma pessoa com este passado.
Em “Última Parada 174”, a história é contada a partir da visão de Sandro. Mas o melhor do filme não é o enfoque dado: o mundo mostrado através da visão do bandido - que neste caso, nos leva a questionar se ele é mesmo bandido. Há algo que aparece em todo o filme e que rege as ações não só de Sandro, mas também da multidão que, no final, deseja linchá-lo: a culpa.
Eu, que acompanhei naquela tarde de 12 de junho cada momento do seqüestro, surpreendi-me com a história exibida em “Última Parada 174”.


A culpa do bandido

O filme mostra o quanto a culpa é um sentimento destruidor e contraditório: quem assume a culpa, normalmente não é de fato o culpado. E quem é realmente culpado, tem dificuldades em assumir. Um psicólogo amigo meu uma vez disse que para a maioria das vítimas de abuso sexual, o pior não é aceitar o que aconteceu, mas entender que não se teve culpa alguma naquilo. Por isso, muitas vítimas de abuso pensam antes em suicídio do que em matar o abusador.
Em casos de separação, também surge o sentimento de culpa. Não no pai ou na mãe que resolvem deixar a família, mas nos filhos, que pensam ser o motivo da separação. Não que eu pense que é um pecado destruir uma instituição tão bela como o casamento. Amor acaba, convivência cansa, é fato. Mas o lógico seria que os pais se sentissem culpados e não os filhos.
Sandro sentia-se culpado pela morte da mãe, que foi vítima de um assalto. Ele não teve embasamento psicológico para suportar o peso da sociedade.
Mais do que pelas drogas e pelo ódio, Sandro foi motivado pela culpa e pela insegurança. Ele não seqüestrou o ônibus porque queria dinheiro. Fez porque não entendia mais o que estava fazendo. Porque não sabia para onde correr e não tinha nada a perder.
A perversão da culpa se revela no momento final do filme. Após os disparos contra a professora Geisa, Sandro cai e a multidão avança com a intenção de linchá-lo. Nenhuma das pessoas que assistiam a tudo sabia por que o sequestro começou. Ninguém sabia quem era Sandro, se tinha família, o que fazia, o que falou para os passageiros do ônibus. Mas sabiam de uma coisa: esse tipo de pessoa precisa morrer. A sociedade não está pronta para aceitar as pessoas que lhes jogam na cara suas falhas.
Uma vez eu li em um texto do Ferréz algo como “E a moda é colocar a culpa no traficante. Você acha que ele vende drogas? Ele só distribui. Quem vende drogas é a sociedade que tira todos os sonhos do favelado e ele já nasce para consumir os alteradores de realidade”. As palavras não são essas, mas a idéia é.
Ninguém está pronto para assumir a culpa. Quem assume, acaba tomando atitudes erradas. Quem não consegue assumí-la também.


Um outro Sandro

Vitor Carvalho, que interpreta o Sandro criança, deu ao personagem o olhar de desamparo digno de quem sofreu uma grande perda. E o ar inocente de quem não tem capacidade para entender os motivos da tragédia.
A atuação de Michel Gomes, o Sandro adulto, parece muitas vezes questionável, permitindo que, em certos momentos, Marcello Melo Jr. roube a cena com seu Alê Monstro, o verdadeiro bandido, a caracterização do assaltante marginal.
Quem naquela tarde acompanhou pela TV as cenas do sequestro, tem na lembrança a imagem de um rapaz enfurecido, ensandecido, sem limites. Falta à Michel essa energia. Porém, a sensibilidade do ator rouba a cena no momento em que Sandro desce do ônibus. Todo o desamparo é refletido no rosto que olha para o policial, desvia do tiro e vê a multidão correr em sua direção. É o olhar de quem não sabia ao certo o que estava acontecendo. O olhar do rapaz que, por não saber o que estava fazendo, não soube a hora de parar.

22 julho 2009

A flor mais grande do mundo

Reparei que nunca postei um vídeo aqui. Como pra tudo existe uma primeira vez e como é regra começar fazendo bonito, deixo pra vcs um curta baseado num conto do Saramago.
E aconselho que, se houver crianças por perto, chamem-nas para assistir. Elas vão adorar.



E tem aqui tbm: http://flocos.tv/curta/a-flor-mais-grande-do-mundo/

14 julho 2009

Do avesso é o lado certo

Ela formou-se no colegial como deveria ser. Entrou na faculdade, ganhou boas notas, pegou o diploma e arrumou um trabalho. Alugou uma casa, instalou luz, telefone e internet. Comprou um carro. Comprou um cachorro. Procurou um marido e arranjou um namorado. Colocaram aliança e marcaram casamento. Tudo como deveria ser.
Um dia, fez algo que talvez não devesse fazer: ela pensou.
E então apagou todas as luzes, enterrou o controle remoto da TV no vaso de gerânio que ficava na varanda, tirou a coleira do cachorro e deixou o portão aberto, jogou no terreno da esquina o sapato de salto alto mais novo que tinha, pegou um vestido, um chinelo, um espelho e o dinheiro da carteira. O resto ficou no chão, junto com as chaves da porta que ficou aberta. Saiu de madrugada e nunca mais voltou.
As vizinhas espalharam por aí que a moça enlouqueceu. Como deveria ser.

04 julho 2009

Dica do dia

Hoje é sábado. Está sol, mas não faz calor. Acordei tarde e não tenho nenhuma obrigação a cumprir. Essa é a perfeita tradução de dia agradável e feliz. Sendo assim, não vou passar muito tempo na frente do computador, porque eu ainda tenho aquele pensamento de que computador nos faz perder tempo. Vou viver. Mas vou deixar aqui um conto tão leve e agradável quanto uma manhã ensolarada de sábado. É do Rubem Braga. Faz-me feliz. =)