Um dia eu vou abrir a janela do meu quarto, como faço quase todo dia. Daqui do meu 9° andar, vou olhar para baixo, como é de costume e lá vai estar ele, entre as folhas da grande árvore da calçada da frente: o ET. Ele vai me olhar com seus olhões esbugalhados e eu vou ver sua careca branca e seus dedos magrelos segurando os galhos, fazendo grande esforço para não cair na frente de um pedestre desavisado, coitado do pedestre com sua sacolinha de pão. Eu vou sentir um frio na barriga: aconteceu! Depois, vou sorrir pro ET e então vou gritar para as meninas virem ver também. Vou procurar uma câmera fotográfica, mas não vou encontrar e então, maldosa que sou, vou descer correndo, pelas escadas, sem paciência para chamar o elevador, enquanto uma das meninas continua na janela para garantir-me que o ET não vai fugir e, se fugir, ela vai saber que rumo ele tomou. Na portaria, vou pedir o telefone da polícia, dos bombeiros e dos jornais. O porteiro não vai entender nada e então eu vou contar pra ele, aos gritos, eufórica, que ali, na árvore em frente, tem um ET. Mas, quando eu estiver com o sorriso nos rosto para começar a contar, e com as mãos no telefone para chamar as autoridades, vou desistir, dar as costas para o porteiro e pegar o rumo do portão. O porteiro vai cumprir sua obrigação de porteiro e abrir o portão de ferro. Eu vou descer devagar as escadas e vou atravessar a rua. Vou parar embaixo da árvore, ver a bunda magrela do ET que ainda se segura nos galhos. Depois, vou constatar a cara de espanto do pobre coitado e, como quem faz um gesto universal, vou fazer com as mãos aquilo que quer dizer “vaza”. Ele vai me olhar com cara de interrogação. Eu vou dar as costas de novo, atravessar a rua de novo, subir as escadas de novo e esperar o elevador. Vou voltar para a minha janela e ver, de lá de cima, que o ET se foi. E minha única prova de que um dia eu vi um ET serão as meninas. Ninguém mais. O ET vai ser feliz pra sempre se conseguir voltar pra casa e eu terei um pacto de cumplicidade com ele.
(Mas quando isso acontecer, eu infelizmente não vou poder contar aqui, porque é uma das cláusulas do pacto de cumplicidade: nada de divulgação)
29 junho 2009
28 junho 2009
Dica do dia
Hoje eu não quero escrever, porque eu tenho coisas pra ler e acho isso mais importante (apesar de eu ter certeza que vou ler tudo, menos aquilo que eu realemente devo ler). Vou só falar para vocês (caso passe algum leitor a toa por essa humilde página) lerem o texto do Luis Fernando Veríssmo; O nariz. (Oh, que se tô falando é pq vale a pena!)
25 junho 2009
Não vou falar da morte do Michael Jackson
Não. Vou aproveitar este espaço para falar da teoria que venho desenvolvendo há anos. A teoria do "bondinho do céu". É simples: cite pelo menos duas pessoas que morreram nas últimas 24 horas. Tem duas bem fáceis: o Michael e a Farrah Fawcet. A terceira fica por sua conta. A minha terceira é o pai de um professor meu. E tem também um primo de um amigo do vizinho que ouvi falar, mas já nem lembro mais quem é a pessoa. Sei que tem mais alguém aí que morreu. E é sempre assim. Pessoas morrem em grupos. Há épocas propícias para a morte. Então eu concluo que Deus (ou o diabo, nunca se sabe) é um cara muito muquirana ou muito consciente. Tá economizando passagem (afinal, é por conta de um deles) ou tá evitando a emissão excessiva de CO2, afinal, né gente, se for Deus, foi ele que fez isso tudo, não é pra ficar destruindo assim; e se for coisa do capeta, quente é o inferno e ele não quer competição.
Daí, morre um monte de gente de uma vez e sobe (ou desce) todo mundo, numa viagem só. Nessas épocas é bom ficar atento, não beber em copo de estranhos, olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e não aceitar carona com qualquer um. Em tempos de fretamento, é sempre bom ficar esperto.
Daí, morre um monte de gente de uma vez e sobe (ou desce) todo mundo, numa viagem só. Nessas épocas é bom ficar atento, não beber em copo de estranhos, olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e não aceitar carona com qualquer um. Em tempos de fretamento, é sempre bom ficar esperto.
20 junho 2009
"...que o vão que fazem suas mãos.."
Adoro ônibus porque sei que é um lugar em que posso me permitir não pensar em exatamente nada. Deixar os pensamentos fluírem e só. Dessa forma, me irrita um pouco quando ao meu lado senta algum conhecido com quem não tenho muitos assuntos. Surge aquela necessidade de buscar assunto o tempo todo. Com amigos – ou conhecidos bons de papo – é diferente. A conversa é boa e o tempo passa rápido. Simples conhecidos não. Porém, me alegra quando o meu companheiro de viagem é um total desconhecido. Não tenho a obrigação de conversar, mas posso durante toda a viagem imaginar quem é aquela pessoa, de onde ela vem, para onde vai, quem a espera, quem ela deixou. Reparo nas roupas, nos sapatos, nas unhas roídas. E, se é o meu dia de sorte, o meu vizinho de poltrona lê um livro ou recebe uma ligação no celular. São duas pistas que me permitem descobrir (ou imaginar) quase toda a sua história de vida. A primeira pista porque um livro, junto com a roupa mais os gestos, dizem muito sobre qualquer pessoa. A segunda porque, por mais que nunca se ouça a voz que fala do outro lado do celular, uma simples conversa dá margem há toda uma relação e um conflito que podem existir ali, entre a pessoa do meu lado e aquela, longe, que no momento não é mais que uma voz.
E hoje, quando entrei no circular, não esperava que seria testemunha de uma cena tão sublime. Ainda mais no circular, onde eu não passaria mais de 10 minutos, que é o tempo que leva da rua perto da minha casa até a rodoviária – lá sim, pegaria o ônibus que me prometeria boas histórias.
Após entregar o dinheiro para o cobrador, assim, meio desajeitada, com bolsa de um lado e mala do outro, sentei na primeira poltrona vazia que vi. Só depois olhei para o lado, e lá estava uma mulher de uns 30 anos, gorda e carrancuda. Foi tudo o que eu puder reparar no primeiro momento, e nada além disso me interessava. Preocupei-me em arrumar minhas coisas, guardar a carteira, pegar o MP3. Com tudo ajeitado e mais nada para fazer, vi que a mulher segurava um celular, dentro de uma dessas capinhas de pano, cor-de-rosa com um ursinho preto e branco desenhado. Achei que uma coisa tão feminina, infantil e delicada não combinava com aquela mulher de cara feia, cabelos mal pintados de um loiro-avermelhado e moletom velho azul-escuro.
No momento em que eu reparava nesses detalhes – porém, sem maiores pensamentos; reparando por reparar - ela olhou para o celular e ergueu a cabeça, que até então estava abaixada, afundada naquela mau-humor carrancudo. Depois, como reflexo, olhou pela janela. O ônibus estava parado num semáforo e do lado de fora havia algum estabelecimento comercial. Não tive tempo de constatar se era loja, açougue ou padaria. Minha atenção ficou voltada para o que acontecia num espaço que ia da poltrona ao meu lado até a calçada ao lado do ônibus. Na frente do tal estabelecimento estavam dois rapazes. Um deles sorria e acenava. O outro era mero coadjuvante, fazia um comentário qualquer. Era nítida a alegria do rapaz que acenava. Tão nítida que mal pude reparar se era mesmo rapaz, jovem, ou se era velho. Tudo que lembro é que usava boné vermelho, desbotado, quase laranja, e camiseta branca. E ao meu lado estava outra mulher. Nada daquela carranca, nada de mau-humor. Ela sorria o sorriso mais leve que já vi. Os olhos brilhavam. Ela acenava freneticamente, quase de modo infantil. O sinal abriu, o ônibus deu partida, ela ainda deu um último aceno, que foi imediatamente correspondido. O sorriso durou ainda minutos suficientes para eu descer do ônibus e poder apreciar um restinho dele morrendo nos lábios de mulher gorda e não mais carrancuda.
Seria o rapaz um namorado? Será que toda a história começou com esse ônibus, que passa todo dia pelo mesmo lugar e com essa mulher, que senta todo dia na mesma poltrona? Seria ele um amante, alívio das horas em que a mulher passa perto do marido que não mais ama? Ou será um filho, no primeiro dia do novo emprego?
As dúvidas me acompanharam até os 15 minutos de viagem dentro do ônibus intermunicipal que peguei em seguida. Acompanharam-me até a mulher morena da poltrona do outro lado do corredor me pedir o celular emprestado.
E hoje, quando entrei no circular, não esperava que seria testemunha de uma cena tão sublime. Ainda mais no circular, onde eu não passaria mais de 10 minutos, que é o tempo que leva da rua perto da minha casa até a rodoviária – lá sim, pegaria o ônibus que me prometeria boas histórias.
Após entregar o dinheiro para o cobrador, assim, meio desajeitada, com bolsa de um lado e mala do outro, sentei na primeira poltrona vazia que vi. Só depois olhei para o lado, e lá estava uma mulher de uns 30 anos, gorda e carrancuda. Foi tudo o que eu puder reparar no primeiro momento, e nada além disso me interessava. Preocupei-me em arrumar minhas coisas, guardar a carteira, pegar o MP3. Com tudo ajeitado e mais nada para fazer, vi que a mulher segurava um celular, dentro de uma dessas capinhas de pano, cor-de-rosa com um ursinho preto e branco desenhado. Achei que uma coisa tão feminina, infantil e delicada não combinava com aquela mulher de cara feia, cabelos mal pintados de um loiro-avermelhado e moletom velho azul-escuro.
No momento em que eu reparava nesses detalhes – porém, sem maiores pensamentos; reparando por reparar - ela olhou para o celular e ergueu a cabeça, que até então estava abaixada, afundada naquela mau-humor carrancudo. Depois, como reflexo, olhou pela janela. O ônibus estava parado num semáforo e do lado de fora havia algum estabelecimento comercial. Não tive tempo de constatar se era loja, açougue ou padaria. Minha atenção ficou voltada para o que acontecia num espaço que ia da poltrona ao meu lado até a calçada ao lado do ônibus. Na frente do tal estabelecimento estavam dois rapazes. Um deles sorria e acenava. O outro era mero coadjuvante, fazia um comentário qualquer. Era nítida a alegria do rapaz que acenava. Tão nítida que mal pude reparar se era mesmo rapaz, jovem, ou se era velho. Tudo que lembro é que usava boné vermelho, desbotado, quase laranja, e camiseta branca. E ao meu lado estava outra mulher. Nada daquela carranca, nada de mau-humor. Ela sorria o sorriso mais leve que já vi. Os olhos brilhavam. Ela acenava freneticamente, quase de modo infantil. O sinal abriu, o ônibus deu partida, ela ainda deu um último aceno, que foi imediatamente correspondido. O sorriso durou ainda minutos suficientes para eu descer do ônibus e poder apreciar um restinho dele morrendo nos lábios de mulher gorda e não mais carrancuda.
Seria o rapaz um namorado? Será que toda a história começou com esse ônibus, que passa todo dia pelo mesmo lugar e com essa mulher, que senta todo dia na mesma poltrona? Seria ele um amante, alívio das horas em que a mulher passa perto do marido que não mais ama? Ou será um filho, no primeiro dia do novo emprego?
As dúvidas me acompanharam até os 15 minutos de viagem dentro do ônibus intermunicipal que peguei em seguida. Acompanharam-me até a mulher morena da poltrona do outro lado do corredor me pedir o celular emprestado.
18 junho 2009
...ainda sobre o diploma...
O problema é que, no Brasil, o povo acha que Universidade é sinônimo de emprego garantido. Não é. Universidade é lugar de aprofundamento teórico, de busca de conhecimento. Quem gosta de estudar, de conhecer, de aprender sempre mais, deve ir para a Universidade. Mas quem quer só um emprego garantido, deve procurar curso técnico. Na Alemanha – exemplo de educação, convenhamos – é assim que funciona. As profissões clássicas (médicos, juízes e advogados, professores) têm curso universitário. Nos outros casos, basta um curso técnico. Inclusive jornalistas. É claro que não se compara Alemanha com Brasil. Mas é um exemplo de como brasileiro distorce a função do diploma universitário.
E por favor, nada de comparações do tipo “mas imagina se isso se estende para outros meios...”. Isso nunca esteve em discussão e nunca acontecerá. Não dá para comparar as conseqüências que um erro de um engenheiro civil pode trazer com as conseqüências de uma notícia errada. No caso do jornalista, é só mandar uma ERRATA e pronto. E se um engenheiro erra os cálculos de um prédio? E se um médico erra o diagnóstico? Nada de relembrar o caso da escola BASE. Foi um erro gravíssimo da imprensa, deixou seqüelas tão profundas quanto um erro cirúrgico. Porém, é um caso isolado.
Brasileiro tem que parar com essa mania de que só é intelectual quem está dentro da Universidade. Todo cidadão deveria ler, informar-se, conhecer história, artes, literatura. Erro estrutural, claro. Nosso sistema educacional é falho. Tudo o que deveria ser ensinado desde o pré-primário vai sendo jogado pra frente. Quem quiser ser inteligente que faça faculdade e pronto. E aí, as pessoas usam o argumento de que só alguém com curso universitário estaria apto a escrever notícias, pois tem técnica e embasamento teórico. Técnica jornalistica é algo que se aprende muito bem com dois anos de curso técnico. E embasamento teórico é coisa que todos deveriam ter – e mais ainda quem quer ser jornalista. Nas salas de aula das universidades há pessoas que nem sabem porque é que estão lá assistindo àquele professor que fala sem parar. Muitos alunos – vejo isso todo dia – preferem ler um livro a ouvir o que o professor fala. Porém, continuam dentro da sala de aula, para garantir a presença e ganhar o diploma no final.
Por um lado, é de se preocupar: se a chamada “elite intelectual” brasileira acredita que diploma é mais importante que conhecimento, o que pensar dos que não estão nas salas das universidades? É bom temer: eles podem roubar sua vaga.
E só mais isso:
Enquanto muitos vêem o fim do mundo com a nova lei da não-obrigatoriedade do diploma, eu vejo uma esperança. Abre-se a possibilidade de aqueles que não têm um diploma e sempre desejaram ser jornalistas irem em busca de conhecimentos para igualarem-se aos diplomados (pois, apesar da lei, o diploma ainda é uma vantagem a frente dos outros). E chega a hora de os jornalistas – essa classe desunida com o ego maior que qualquer visão que vá além do óbvio “ai, meu deus e meu emprego?” - unirem-se e, quem sabe, tentarem mudar alguma coisa.
E por favor, nada de comparações do tipo “mas imagina se isso se estende para outros meios...”. Isso nunca esteve em discussão e nunca acontecerá. Não dá para comparar as conseqüências que um erro de um engenheiro civil pode trazer com as conseqüências de uma notícia errada. No caso do jornalista, é só mandar uma ERRATA e pronto. E se um engenheiro erra os cálculos de um prédio? E se um médico erra o diagnóstico? Nada de relembrar o caso da escola BASE. Foi um erro gravíssimo da imprensa, deixou seqüelas tão profundas quanto um erro cirúrgico. Porém, é um caso isolado.
Brasileiro tem que parar com essa mania de que só é intelectual quem está dentro da Universidade. Todo cidadão deveria ler, informar-se, conhecer história, artes, literatura. Erro estrutural, claro. Nosso sistema educacional é falho. Tudo o que deveria ser ensinado desde o pré-primário vai sendo jogado pra frente. Quem quiser ser inteligente que faça faculdade e pronto. E aí, as pessoas usam o argumento de que só alguém com curso universitário estaria apto a escrever notícias, pois tem técnica e embasamento teórico. Técnica jornalistica é algo que se aprende muito bem com dois anos de curso técnico. E embasamento teórico é coisa que todos deveriam ter – e mais ainda quem quer ser jornalista. Nas salas de aula das universidades há pessoas que nem sabem porque é que estão lá assistindo àquele professor que fala sem parar. Muitos alunos – vejo isso todo dia – preferem ler um livro a ouvir o que o professor fala. Porém, continuam dentro da sala de aula, para garantir a presença e ganhar o diploma no final.
Por um lado, é de se preocupar: se a chamada “elite intelectual” brasileira acredita que diploma é mais importante que conhecimento, o que pensar dos que não estão nas salas das universidades? É bom temer: eles podem roubar sua vaga.
E só mais isso:
Enquanto muitos vêem o fim do mundo com a nova lei da não-obrigatoriedade do diploma, eu vejo uma esperança. Abre-se a possibilidade de aqueles que não têm um diploma e sempre desejaram ser jornalistas irem em busca de conhecimentos para igualarem-se aos diplomados (pois, apesar da lei, o diploma ainda é uma vantagem a frente dos outros). E chega a hora de os jornalistas – essa classe desunida com o ego maior que qualquer visão que vá além do óbvio “ai, meu deus e meu emprego?” - unirem-se e, quem sabe, tentarem mudar alguma coisa.
17 junho 2009
E o canudo?
Sei que serei apedrejada por jornalistas e estudantes de jornalismo, mas eu concordo com a não-obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão.
Sou estudante de jornalismo prestes a me formar e um dia, talvez, eu mude de opinião, mas no momento, acho justo que pessoas de outras áreas possam trabalhar como jornalistas. E há motivos para isso.
Primeiro, desde que entrei na faculdade defendo que jornalismo deveria ser curso técnico. Qualquer um, em dois anos, aprende muito bem a fazer um lead, diagramar um jornal, tirar boas fotos e marcar entrevistas. Escrever bem, estar atento aos diversos conteúdos divulgados por aí e ler muito são coisas que não entram em discussão. Quem não faz isso, simplesmente não deveria pleitear uma vaga em uma redação. Nunca. É a coisa da vocação. E são coisas que ninguém vai aprender em uma sala de aula. O aluno entra na faculdade porque gosta de escrever, porque leva jeito, porque gosta de ler. Não o contrário. Então, boa escrita e facilidade de comunicação não são argumentos a favor do diploma.
Vejo também muitas pessoas que estudam jornalismo mas não servem para isso. Estudam porque vêem no curso um meio de conseguir ingressar em uma área para a qual elas simplesmente não nasceram. Se o curso de jornalismo fosse garantia de um futuro profissional na área, haveria (e haverá) péssimos profissionais por aí. Eu mesma, talvez não leve muito jeito assim.
Além disso, muita gente já entrou no curso sabendo do problema do diploma. A briga é antiga. Então, não adianta reclamar.
É claro que um sociólogo disposto a escrever em um jornal dificilmente vai saber o que significa a palavra retranca. Mas a não-obrigatoriedade do diploma não quer dizer que virou festa: “Pronto, agora ninguém mais contrata jornalista”. Não. Vai haver espaço para os bons, em todas as redações. Até porque, em toda redação, é preciso haver alguém que saiba o que é uma retranca. Nas entrevistas de emprego, os bons jornalistas (com diploma ou não) irão sobressair. Porém, sendo um bom jornalista com diploma, há uma vantagem a frente dos diplomados em outras áreas.
E, dificilmente uma pessoa formada em administração ou em sociologia irá desejar estar das 6 da manhã as 6 da tarde em uma redação, correndo contra o tempo por um salário que mal paga as contas do mês. Isso é pra quem escolheu há muito tempo. Quem não gosta da coisa, cai fora antes de ganhar o diploma, ainda que ele não valha muito. Um dia, talvez eu perca um emprego e no meu lugar contratem um professor, um advogado ou um estudante universitário qualquer. Daí, vai ser hora de chorar e maldizer a lei que apoia a não-obrigatoriedade do diploma. Ou de repensar se estou no lugar certo.
Só pra esclarecer: escolhi jornalismo porque gosto de saber de tudo um pouco (e muito de algumas coisas), gosto de ler e – dizem - levo jeito para a coisa. Se não fosse estudante de jornalismo, estaria cursando artes cênicas, mesmo que para ser atriz também não seja necessário ter diploma. Eu faço por amor, e não pelo canudo. ;)
Sou estudante de jornalismo prestes a me formar e um dia, talvez, eu mude de opinião, mas no momento, acho justo que pessoas de outras áreas possam trabalhar como jornalistas. E há motivos para isso.
Primeiro, desde que entrei na faculdade defendo que jornalismo deveria ser curso técnico. Qualquer um, em dois anos, aprende muito bem a fazer um lead, diagramar um jornal, tirar boas fotos e marcar entrevistas. Escrever bem, estar atento aos diversos conteúdos divulgados por aí e ler muito são coisas que não entram em discussão. Quem não faz isso, simplesmente não deveria pleitear uma vaga em uma redação. Nunca. É a coisa da vocação. E são coisas que ninguém vai aprender em uma sala de aula. O aluno entra na faculdade porque gosta de escrever, porque leva jeito, porque gosta de ler. Não o contrário. Então, boa escrita e facilidade de comunicação não são argumentos a favor do diploma.
Vejo também muitas pessoas que estudam jornalismo mas não servem para isso. Estudam porque vêem no curso um meio de conseguir ingressar em uma área para a qual elas simplesmente não nasceram. Se o curso de jornalismo fosse garantia de um futuro profissional na área, haveria (e haverá) péssimos profissionais por aí. Eu mesma, talvez não leve muito jeito assim.
Além disso, muita gente já entrou no curso sabendo do problema do diploma. A briga é antiga. Então, não adianta reclamar.
É claro que um sociólogo disposto a escrever em um jornal dificilmente vai saber o que significa a palavra retranca. Mas a não-obrigatoriedade do diploma não quer dizer que virou festa: “Pronto, agora ninguém mais contrata jornalista”. Não. Vai haver espaço para os bons, em todas as redações. Até porque, em toda redação, é preciso haver alguém que saiba o que é uma retranca. Nas entrevistas de emprego, os bons jornalistas (com diploma ou não) irão sobressair. Porém, sendo um bom jornalista com diploma, há uma vantagem a frente dos diplomados em outras áreas.
E, dificilmente uma pessoa formada em administração ou em sociologia irá desejar estar das 6 da manhã as 6 da tarde em uma redação, correndo contra o tempo por um salário que mal paga as contas do mês. Isso é pra quem escolheu há muito tempo. Quem não gosta da coisa, cai fora antes de ganhar o diploma, ainda que ele não valha muito. Um dia, talvez eu perca um emprego e no meu lugar contratem um professor, um advogado ou um estudante universitário qualquer. Daí, vai ser hora de chorar e maldizer a lei que apoia a não-obrigatoriedade do diploma. Ou de repensar se estou no lugar certo.
Só pra esclarecer: escolhi jornalismo porque gosto de saber de tudo um pouco (e muito de algumas coisas), gosto de ler e – dizem - levo jeito para a coisa. Se não fosse estudante de jornalismo, estaria cursando artes cênicas, mesmo que para ser atriz também não seja necessário ter diploma. Eu faço por amor, e não pelo canudo. ;)
04 junho 2009
Orgulho
Quando ele me falou que estava indo, eu juro que não liguei. Hoje mulher nenhuma precisa de homem pra viver. A noite, na cama vazia, derrubei umas lágrimas que era pra não passar em branco. Lembrei de tirar a aliança .As vezes até ia brincar com ela, como se ainda estivesse lá. Senti por umas horas a mão vazia e, por fim, mais leve.
Dois dias depois, cismei de ver um filme. Eu não sabia o que fazer sem ter com quem comentar uma cena, uma roupa, uma atriz. Chorei de raiva.
Outro dia, fazia compras quando senti um frio na espinha: era falta daquela mão áspera na minha cintura. Eu estava ali, na sessão de congelados e só ele sabia que lá eu sempre sentia frio. A saudade daquela mão me matava: encaixava tão certo na curva da minha cintura. Encaixava tão certo em mim quando eu sentia frio, medo ou desespero. Comprei uma lasanha para dois e chorei de arrependimento pois ia ter que comer sozinha.
Cansei de chorar por bobagem e resolvi arrumar de vez minha vida: limpei os armários. Mas lá no fundo, num cabide misturado aos meus vestidos, estava a camisa azul. Velha, surrada, suada. Eu não preciso de homem, mas precisava ter motivos pra pôr aquela camisa e ir cozinhar uma coisa gostosa pra dois. Peguei a camisa, pra rasgar e jogar no lixo. Chorei de raiva por ele ser tão esquecido e não ter levado aquilo embora. Chorei de raiva por eu não ter verificado no mesmo dia se aquele maldito não havia deixado nenhum vestígio. Chorei de saudade das noites em que aquela camisa foi meu pijama e que aquela mão áspera se aconchegava na curva da minha cintura.
Hoje eu olho essa marca branca onde antes ficava a aliança. Tudo que faço é chorar
Dois dias depois, cismei de ver um filme. Eu não sabia o que fazer sem ter com quem comentar uma cena, uma roupa, uma atriz. Chorei de raiva.
Outro dia, fazia compras quando senti um frio na espinha: era falta daquela mão áspera na minha cintura. Eu estava ali, na sessão de congelados e só ele sabia que lá eu sempre sentia frio. A saudade daquela mão me matava: encaixava tão certo na curva da minha cintura. Encaixava tão certo em mim quando eu sentia frio, medo ou desespero. Comprei uma lasanha para dois e chorei de arrependimento pois ia ter que comer sozinha.
Cansei de chorar por bobagem e resolvi arrumar de vez minha vida: limpei os armários. Mas lá no fundo, num cabide misturado aos meus vestidos, estava a camisa azul. Velha, surrada, suada. Eu não preciso de homem, mas precisava ter motivos pra pôr aquela camisa e ir cozinhar uma coisa gostosa pra dois. Peguei a camisa, pra rasgar e jogar no lixo. Chorei de raiva por ele ser tão esquecido e não ter levado aquilo embora. Chorei de raiva por eu não ter verificado no mesmo dia se aquele maldito não havia deixado nenhum vestígio. Chorei de saudade das noites em que aquela camisa foi meu pijama e que aquela mão áspera se aconchegava na curva da minha cintura.
Hoje eu olho essa marca branca onde antes ficava a aliança. Tudo que faço é chorar
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