E um dia, eu, muito pequena, de vestidinho cor-de-rosa e sandália melissinha entrei naquela sala, cheia de crianças estranhas, que me olhavam como se eu fosse verde e tivesse antenas. Eu queria entrar e sentar logo, abrir meu estojo e mostrar meu apontador em forma de carrinho colorido, pra ver se alguém pedia pra brincar, para eu então perguntar o nome daquele que quisesse ver meu apontador, para que pudéssemos ficar juntos no recreio. Mas não tinha carteira perto da porta.
Eu queria que a tia fosse loira e sorridente, e novinha, igual era minha tia Elaine, mas não era. Ela era velha igual a mãe da tia Elaine, e tinha cabelos assim, acaju como os do Silvio Santos, além de serem curtos demais perto dos da tia Elaine. E ela não pegou na minha mão pra me levar até aquela carteirinha vazia que eu via na fileira do meio, no meio da sala, bem embaixo do ventilador. Eu sei que nessa hora, quando mão nenhuma segurou a minha, meu nariz ficou vermelho, porque meu nariz sempre fica vermelho um pouco antes de eu chorar.
Foi bem nessa hora, eu já dando um passo em direção a carteira vazia mais próxima – a de debaixo do ventilador, que devia ser tão fria – que ela veio. Uma menina tão pequenininha quanto eu, de cabelos curtos, lisinhos, de sapatinho rosa, com meia branca de babados. Ela não falou nada e não quis saber meu nome. Ela só pegou minha mão e me levou pra uma carteira vazia daquelas que ficam encostadas no canto da sala, na parede da porta, mas no fundo, onde ninguém que está parado na porta pode ver. Eu sentei e ela sentou na carteira da frente, onde estava o estojo azul clarinho e o caderno com desenhos, coisas dela.
Só no recreio, mais de duas horas depois, foi que ela perguntou meu nome. E dividiu o lanche dela comigo.
A história é real, e eu acredito que sou uma pessoa melhor por causa disso. E ela é minha amiga até hoje. =)