15 fevereiro 2009

primeiro dia de aula

Eu era tão pequena que só alcançava a pia do banheiro quando ficava na pontinha dos pés. E meus pais sempre mudavam de cidade, sem considerar que uma menina tão pequenininha sentia saudades de outras crianças pequenininhas iguais a ela, que com muitos esforço e brinquedos ela havia conquistado. Na verdade, eles precisavam mudar, mas eu gosto de vez em quando ignorar as questões financeiras e profissionais e só sentir um pouco de pena de mim e ainda ver nessas inúmeras mudanças o motivo de alguns problemas atuais, meus, mas isso é outra história.

E um dia, eu, muito pequena, de vestidinho cor-de-rosa e sandália melissinha entrei naquela sala, cheia de crianças estranhas, que me olhavam como se eu fosse verde e tivesse antenas. Eu queria entrar e sentar logo, abrir meu estojo e mostrar meu apontador em forma de carrinho colorido, pra ver se alguém pedia pra brincar, para eu então perguntar o nome daquele que quisesse ver meu apontador, para que pudéssemos ficar juntos no recreio. Mas não tinha carteira perto da porta.

Eu queria que a tia fosse loira e sorridente, e novinha, igual era minha tia Elaine, mas não era. Ela era velha igual a mãe da tia Elaine, e tinha cabelos assim, acaju como os do Silvio Santos, além de serem curtos demais perto dos da tia Elaine. E ela não pegou na minha mão pra me levar até aquela carteirinha vazia que eu via na fileira do meio, no meio da sala, bem embaixo do ventilador. Eu sei que nessa hora, quando mão nenhuma segurou a minha, meu nariz ficou vermelho, porque meu nariz sempre fica vermelho um pouco antes de eu chorar.

Foi bem nessa hora, eu já dando um passo em direção a carteira vazia mais próxima – a de debaixo do ventilador, que devia ser tão fria – que ela veio. Uma menina tão pequenininha quanto eu, de cabelos curtos, lisinhos, de sapatinho rosa, com meia branca de babados. Ela não falou nada e não quis saber meu nome. Ela só pegou minha mão e me levou pra uma carteira vazia daquelas que ficam encostadas no canto da sala, na parede da porta, mas no fundo, onde ninguém que está parado na porta pode ver. Eu sentei e ela sentou na carteira da frente, onde estava o estojo azul clarinho e o caderno com desenhos, coisas dela.

Só no recreio, mais de duas horas depois, foi que ela perguntou meu nome. E dividiu o lanche dela comigo.


A história é real, e eu acredito que sou uma pessoa melhor por causa disso. E ela é minha amiga até hoje. =)

12 fevereiro 2009

o lunático

Pra mim, existem dois tipos básicos de criminosos: os frios e calculistas – assaltantes de banco e seqüestradores de empresários, por exemplo – e os lunáticos – Lindemberg e Suzane Van Richtofen, por exemplo. O segundo caso dispensa explicações.
É que hoje, em meio às minhas férias inúteis, eu estava assistindo ao programa do Datena (lixo, lixo!) e vi um lunático sen-sa-cio-nal. O tal do cara que matou a menina e guardou no freezer, o Paulo. Ele estava dando uma entrevista pra TV e, assim, o cara é totalmente pirado, além de me lembrar muito o José Serra, que por sua vez me lembra o Mr. Burns dos Simpsons. Enfim, um lunático. E eu fico imaginando o diário de um cara desses:


Querido diário,

Hoje meu dia foi bom. Acordei cedo e comi meu cereal matinal. Sai para fazer minha caminhada diária e encontrei a dona Lourdes, um amor de vizinha. Falamos sobre a vida.
A tarde, matei uma menina. Aquela de cabelo enroladinho que eu vinha seguindo há um tempo, lembra? E daí, guardei ela no freezer. Ah, São Paulo anda tão quente, né?
O fim da tarde foi belo, sempre aprecio o sol se pondo no horizonte.
Agora à noite, vou ver o filme da Globo e dormir. Sinto-me um pouco cansado.

Boa noite. Até amanhã.



E o Datena questiona, xinga e se faz de indignado só pra falar tudo aquilo que o povo quer ouvir. Mas, Datena, desista! Não há lei no mundo que puna os lunáticos. Eles não entendem valores como contrato social, moral ou sentimentos. Estão longe, muito longe disso. Rindo disso. Ignorado isso. Ou simplesmente não sabendo que essas coisas existem. É, sei. Foge da nossa compreensão. Nós somos normais e pensamos em leis. Eles são lunáticos. Vai saber o que pensam.

02 fevereiro 2009

O belo caminho das Índias

Desde que a novela Caminho das Índias estreou, eu tenho me deparado com milhares de blogs e grupos de discussão criticando o conteúdo da trama. E as principais reclamações não são a respeito da atuação duvidosa do Márcio Garcia ou da eterna “cara de nada” da Vera Fischer. O que tem causado náuseas nos mais realistas é o enfoque dado pela produção, que insiste em só mostrar as belezas da Índia, deixando de lado sua pobreza e miséria.
É notável que a Glória Perez e o Marcos Schechtman não querem assustar os expectadores mostrando o Rio Ganges como realmente é: cheio de corpos boiando e pessoas bebendo suas águas.
Mas não vejo motivo para críticas. Até os mais ingênuos sabem que as novelas da Rede Globo não têm o menor comprometimento com a realidade. E não só as da Rede do seu finado Marinho – lembrem-se dos Mutantes da Record.
Não entendo o porquê de tantas críticas, se essa não é a primeira vez em que a Globo e sua equipe de produção resolvem deixar tudo mais feliz. Ou as pessoas realmente acreditam que todo mundo é bonito, mora no Leblon e viaja para o exterior a cada dois meses?
Muitos teimam em criticar o conteúdo das novelas, esquecendo-se que uma das funções da TV é entreter. Qual é a pessoa que, depois de um dia estressante de trabalho, compromissos e filhos, quer ligar a TV e assistir ao Café Filosófico? Não é a toa que ele é veiculado aos domingos. E na cultura.
As pessoas querem algo que possa ser visto passivamente, sem grande estimulação mental. Querem ligar a TV, deitar o sofá e ver um rosto bonito. Querem acompanhar o desenrolar de uma historinha de fácil compreensão. Ninguém – a não ser os críticos – querem, em uma terça-feira, às 10 da noite, sentir todas as náuseas que o verdadeiro Ganges pode causar com seus corpos, seu lixo e seus urubus.
Há o argumento de que, como a maior e mais popular emissora de televisão, a rede Globo deveria se comprometer em transmitir informações construtivas. Mas será que o povo quer isso?
Para os desejosos de realidade e conteúdo, há documentários, livros, revistas. Para todos, o ópio noturno em forma de Juliana Paes.

Piada pronta

Hoje, passando por um bairro classe alta de Jaú, vi um Corsa Sedan prata, novinho, todo equipado. Colado na traseira, um adesivo: "Fuck the system". Ahan. Ok.








Tá, se o dono for um assaltante de bancos, tá perdoado!