26 agosto 2009

Quem bebe sem brindar...


Acompanhei, dias atrás, uma febre que tomou conta dos blogs: as listas. Li muitas coisas legais, como listas de bons livros e de coisas para se fazer antes de morrer, mas nunca achei que listas combinassem muito comigo, que sou tão indecisa e volúvel. E daí que hoje, andando pela rua, reparei em uma coisinha em mim e tive uma idéia: vou listar as superstições que cultivo. Pois é, porque a ciência evolui, mitos são derrubados, mas tem coisas que a gente não larga nunca. E pode vir quem for pra dizer que trevo de 4 folhas na carteira não significa absolutamente nada, quero ver é nego tirar de lá. E o medo de, de repente, ficar mais pobre?
E aí que eu, que sou chegada num número ímpar, vou listar as 7 maniazinhas supersticiosas que levo comigo.

1. bater três vezes na madeira – sempre que penso em coisas ruins, como acidentes ou mortes, preciso “isolar” o pensamento. Se não tem madeira, serve qualquer outro material; o importante são as três batidinhas.
2. desvirar o sapato – não posso ver sapato com a sola pra cima que vou lá e viro para baixo, só não sei se é para evitar a minha morte, da minha mãe ou do dono do sapato.
3. cortar o bolo de aniversário de baixo pra cima – dizem que o primeiro corte tem que ser feito assim, senão o pedido do aniversariante não se realiza.
4. não usar anel no dedo do meio – diz a Kelly Key que isso faz a vida desandar. E eu acredito.
5. fazer pedido a São Longuinho – eu nem sei quem foi este bom homem que me ajuda todos os dias a encontrar celular, óculos ou carteira, mas tenho certeza que grande parte dos pulinhos que ele ganhou até hoje foram meus.
6. passar a mão na barriga de mulher grávida – essa serve para quem quer que os cabelos cresçam rápido. Eu, que cansei de cabelo curtinho, tenho usado deste artifício.
7. dar três pulinhos com o pé direito na virada do ano – essa eu faço todo ano à meia-noite. Se adianta, eu não sei, mas fico a pensar como poderia ser se não fizesse. Melhor não arriscar, né?

E esses dias adquiri, através da minha amiga Mônica, mais uma superstição: dizer “benza Deus” antes de elogiar uma planta, porque, caso contrário, a planta pensa que é inveja, capta a energia negativa e murcha. E não é que um dia chegou um senhor na casa da minha avó e disse “que avenca mais bonita”. No outro dia a planta, coitadinha, era só galho.

21 agosto 2009

Meu caminho pelo mundo eu mesmo faço


Hoje meu pai veio com aquele papo que muita gente já ouviu “pai não dura pra sempre, é importante aprender a ganhar dinheiro, um dia você vai querer ter um bom carro...”. É aquela velha conversa que, se retirarmos os eufemismos, quer dizer “quando é que você vai arrumar um emprego e parar de gastar o meu dinheiro?”.
E daí, ele emendou uma história de “direito é um ótimo curso, hoje um promotor ganha tantos mil...você escolheu uma carreira difícil, precisa ser muito boa no que faz...” , que quer dizer, em outras palavras “esse seu curso – jornalismo – é uma merda e você será pobre para o resto da vida”.
Meu pai é um tipo conservador cabeça-dura, o que pode ser explicado pelo seu signo – aquário – para os mais místicos; ou pelo fato de ele ter virado pai e marido quando era ainda jovem, sonhador e despreparado para a vida dura. Essa é a explicação que serve para os que não estão nem aí para astrologia. Eu gosto de unir as duas e entender que meu pai é um aquariano que, aos 21 anos, sentiu a água bater na bunda e teve que aprender a nadar rapidinho. E como ele não veio de berço de ouro, jogou de lado os sonhos e foi trabalhar. No fim deu certo e hoje ele paga muito bem as contas dos três filhos quem tem.
Mas, depois dessa conversa, ocorreu-me que, excetuando os casos como o do meu pai, é coisa muito triste escolher profissão pensando no dinheiro. Meu pai disse que, sendo promotor, mesmo que você não goste tanto assim, é só agüentar umas horinhas todo dia que no fim do mês seu salário – um gordo salário – estará garantido e que, assim, você – no caso, eu – poderia, em pouco tempo ter um carro zero e viajar para o exterior duas vezes por ano. Para finalizar o discurso de pai desesperado, ele citou uns dois exemplos de pessoas que escolheram a profissão por paixão e que hoje se arrependem.
Eu, que sou apaixonada por cada coisa que faço, temi por todas as vezes que isso foi dito e ainda será dito a alguém. Eu entendo a preocupação que meu velho tem com meu futuro, mas esse é um discurso que não se faz. Eu sou forte e resisti a cada palavra negando com a cabeça – não argumentei porque eu não tenho argumentos contra os burocratas – mas pensei em quantas pessoas mais fracas não tiveram os sonhos destruídos. Quantos escritores, músicos, atores, professores, não estão por aí escondidos atrás de ternos, gravatas e carros zero. Sem falar que deduzir que o sonho de todo ser humano é ter um carro zero e uma casa luxuosa é de uma ingenuidade que me deprime.
Então, pai, entenda que o que eu quero mesmo é poder fazer o que eu gosto em todas as horas do meu dia, mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena, como diria Ferreira Gullar. A minha grande ambição nessa vida é poder entrar em uma livraria e comprar o que quiser e isso é coisa que o pífio salário de jornalista pode pagar. Eu não preciso de 20 mil por mês. Não nego, claro; se vier é bem-vindo. Mas não abro mão das minhas paixões por míseros 20 mil. Elas valem muito mais.
Talvez eu seja agora ainda muito ingênua. Mas coisa que se aprende nessa vida é que conselho não se dá, a gente precisa é aprender sozinho, andar com as próprias pernas. Se for o caminho errado, depois se acerta. Se não tiver acerto, é só chorar, e rir no final. O que não dá é viver a vida do outro, realizar desejos do outro, seguir conselhos do outro, porque senão não sobra tempo de realizar aquilo que é seu. Coisa que ninguém deveria esquecer é que isso aqui é uma grande brincadeira e no final se morre sem levar nada – clichê, eu sei, mas tem gente que esquece.
Então, eu acho mesmo que cada um deve fazer o que tem vontade, porque realização não se encontra só em coisas materiais ou em sucesso profissional. Os tempos são difíceis para os sonhadores, já disse Amelie, mas se a gente não se apegar àquilo que gosta, o que sobra é muito superficial e é um risco muito grande morrer com a sensação de que não se fez nada nesse mundo.

18 agosto 2009

Surpresa

A moça chegou de mansinho, por trás. O queixo quase tocou nos ombros dele, fazendo-o sentir a respiração quente na curva entre a nuca e o ombro. Uma das mãos já no bolso da calça do rapaz. Ele, abrindo sorriso:
- Isso é um pedido de beijo?
- Não, gato.Vira pra frente, é assalto.




E essa foi minha estreia no mundo dos microcontos.

17 agosto 2009

É menino ou menina?

Eu não lembro quem foi, anos atrás, que me ensinou a diferença entre homens e mulheres. Só sei que a pessoa incumbida desta função não a desempenhou muito bem. Posso afirmar, com certeza, que até os meus 7 anos a diferença entre homens e mulheres, para mim, se limitava a um ponto: o cabelo. Meu cérebro pequenino e infantil funcionava assim: pessoa de cabelo curto = homem, pessoa de cabelo comprido = mulher. É óbvio que isso gerou muita confusão na minha cabeça até eu entender que as diferenças entre sexos vão muito além disso. E aí, tem duas historinhas que lembro muito bem:

Quando entrei na primeira série não era igual às crianças de hoje, que entram na escola sabendo nadar, jogar vídeo game e falar o alfabeto de trás pra frente. Hoje as crianças vão para a escola desde os 3 anos. Pois eu fui aos 5, fugi e voltei só aos 6 para fazer o pré. E no pré acabei mais brincando do que aprendendo, que é, na verdade, como deve ser. Então, entrei na primeira série sabendo ler, mas sem saber o que era o alfabeto. Como disse no começo, eu não sabia de tudo. Na verdade, sabia bem pouco: só o que me convinha.
Então eu, pequenina e inocente, fui para a primeira série. Logo nos primeiros dias de aula aconteceu de um menino juntar a carteira dele na minha e eu, criança que era, estranhei. Meninos não ficam perto de meninas! Mas ele insistia e no recreio brincava comigo. Eu tinha vergonha de perguntar o nome daquele menino tão diferente e me limitava a responder às perguntas dele. Um dia eu brincava na quadra, sozinha. Ele chegou com um giz branco na mão, sentou ao meu lado e começou a desenhar flores. Coisa mais estranha um menino desenhando flores! Dias depois tive meu mistério solucionado quando o professor de educação física resolveu dividir a turminha em duas filas: meninas de um lado, meninos de outro. O menino que desenhava flores veio parar bem na minha frente, por ordem de um professor. Naquele dia, depois da aula, foi que eu perguntei: “Mãe, menina pode ter cabelo curto?”.



A outra história aconteceu durante o pré-primário. Era de lei: todo dia, no recreio eu ia até a cantina e comprava um chocolate e uma seven up (lembram?). O tio da cantina, aquele senhor gordinho e simpático, logo me atendia e dava o troco dos meus – ainda – cruzeiros. Era um dia comum e eu estava lá, com o queixo apoiado no cantinho do balcão – coisa que não se faz em tempos de gripe suína. O tio, sempre simpático, ergueu os braços para alcançar uma caixa de chocolates da prateleira e eu reparei: o tio da cantina usa soutien! Era cor-de-rosa, com alcinhas finas e eu fui para casa confusa, lembrando que aquilo era coisa que só minha mãe usava, meu pai não, nem meu avô e nem meus tios. “Manhê, homem usa soutien?”. A resposta dela só aumentou a confusão e encuquei: por que, então, o tio da cantina usava? Comecei a observar os passos do tio da cantina e um dia ouvi a mulher que guarda as crianças dentro da sala depois do recreio chamar “Donizete, venhá cá” e quem apareceu foi o tio da cantina “pois não?”. Essa é uma dúvida que levo até hoje: seria “Donizete” um nome unissex ou seria o tio da cantina um homem com hábitos muito peculiares?

14 agosto 2009

Saradona, #comofas?


O No Limite é uma afronta à minha boa forma. Eu até que me alimento bem, tirando os excessos de chocolate; não sou sedentária; gosto de me cuidar; estou dentro do peso e não me sinto incomodada quando coloco biquini. E então, ligo a TV e vejo uma mulher com sei lá, 50 cm de cintura, pernas duras, nada de celulite, cabelo bonito, pele boa...Poxa! E aí, aparecem mais 5 mulheres iguais a essa e eu penso que a Globo tem uma fábrica de mulheres para reality shows. Elas ficam lá, na cápsula do laboratório e então chega o No Limite e eles descongelam umas cinco. Depois, mais três pro BBB. Sustento essa minha teoria com base em duas observações: quantas mulheres perfeitas assim você vê na rua? Tudo bem que essas mulheres – alguns vão dizer – são as “melhores”, escolhidas entre milhões; mas considerando a quantidade de reality shows que vemos por aí e a quantidade de mulheres-perfeitas que aparecem, podemos concluir que a quantidade de mulheres-perfeitas dentre a população deveria ser, pelo menos, razoável. O outro ponto é: você vai lá ver o perfil dessas mulheres-perfeitas e descobre que elas são psicólogas, jornalistas, aeromoças. Tem uma ou outra modelo ou lutadora, e esses casos eu perdôo, mas me diz: que mulher - que trabalha, estuda ou cuida da casa - consegue malhar, ter uma alimentação extremamente saudável, cuidar do cabelo, da pele e estar sempre sempre linda, mesmo que seja no meio do mato e do calor nordestino? Porque, convenhamos, não dá pra manter abdome saradíssimo e zero de celulite comendo chocolate e tomando uma cervejinha. Já conheci mulheres lindíssimas, mas nunca vi uma que não tivesse uma gordurinha na cintura, uma celulitezinha ou, pelo menos, o cabelo meio oleoso. Pois as mulheres desse tal de No Limite não tem!
Não pense você, espertão, que isso aqui é inveja. Não é não. E também não estou estou usando essa bobagem toda que disse ai em cima pra criticar o exibicionismo presente nesses programas. Quem passa sempre por aqui sabe que eu não tenho nada contra mulher mostrar o corpo. Eu concordo é com a Suelen da novela, que diz que “a gente esconde o que tem defeito”. É que fiquei realmente intrigada com a capacidade dessas mulheres e aí pensei que faz todo sentido pensar que a Globo tem lá, em um departamento isolado por portas de metal e cadeados, suas mulheres-perfeitas.

13 agosto 2009

Ana e outros demônios

Nessas minhas andanças pelo mundinho virtual acabo trombando com coisas interessantes. Quando vale a pena, posto aqui que é pra todo mundo conhecer. E foi no twitter que encontrei o Marcos Vinícius de Almeida. Curiosa, resolvi ler o blog dele e achei uma história tão boa que parei um tempo por lá. “Ana e outros demônios” é coisa de se ler com tempo, numa tarde calma e ensolarada. E se você é de uma cidadezinha do interior, vai de cara se identificar com as situações e personagens dessa prosa tão simples – e tão envolvente. Foi o que aconteceu comigo. Mais que isso não digo, porque bom mesmo é ler.
E se você quer saber mais sobre o autor – que tem também um livro publicado pela editora Multifoco – pode ler essa conversa aqui, que tivemos outro dia via msn.

11 agosto 2009

Eu e minha CNH



Vou contar uma coisa para vocês (que os mais chegados já sabem): eu não dirijo. E eu não fiz essa opção como forma de ajudar a diminuir os níveis de CO2 na atmosfera e contribuir com a salvação do planeta; nem pela minha saúde quando sou obrigada a fazer longas caminhadas, embora estes argumentos me sirvam de consolo. Eu tenho CNH e não é de hoje. Mas logo depois que adquiri minha nem um pouco esperada – ao contrário da maioria dos adolescentes – habilitação, mudei-me para Marília, onde fui fazer faculdade. Lá não tinha carro pra treinar e isso juntou-se à fase mais hipponga da minha vida, quando eu sabia que nunca precisaria de carro desde que tivesse pés para caminhar e dedos para pedir carona. Aventurei-me no volante algumas vezes nos últimos anos, mas descobri que a preguiça e o desprezo de outrora me legaram um medinho, além da total falta de habilidade. Eu até dirijo no sítio ou em uma avenida larga, reta e pouco movimentada, mas é acontecer um imprevisto que me desespero, travo, fico de boca aberta sem saber o que fazer. E não, não pensem que são grandes imprevistos como um confronto entre policias e sem-terras no cruzamento à minha frente. O que me desespera é, por exemplo, quando tem um carro atrás de mim. Ou quando o carro da frente resolve estacionar. Tentem entender o problema e não riam: eu quase subi as escadas da igreja com o carro da auto-escola. Então eu sou agora uma mulher – sim, porque embora eu me veja como menina, quem vê de fora sabe que sou mulher – de 23 anos que mora, parcialmente, no sítio (os mais chegados sabem que eu considero que tenho dois lares) e que depende dos pais, do irmão ou da prima de 18 anos para ir até a cidade quando precisa.
Mas, meus queridos, a vida continua, o mundo gira, pedra parada cria limo e por isso estou aqui para dizer para vocês que eu, sozinha, sem auxílio algum, vou vencer esse meu medo, porque hoje, nesta bela terça-feira ensolarada, fui à Ciretran renovar minha CNH, antes que ela complete um ano de vencimento. Para todos vocês que têm um plano, projeto ou desejo estacionado no tempo, eu digo: corram atrás, porque sempre vale a pena fazer coisas diferentes e aprender coisas novas. E para quem mora ou vai passar por Duartina ou Dois Córregos nos próximos meses, é de coração que recomendo: andem pelas calçadas e tomem muito cuidado ao atravessar a rua. A menina que dirige o carro que vem em sua direção pode ser eu.


PS: Ainda que eu deixei claro para todo mundo que não pretendo comprar um carro porque pra mim é mais necessidade do que qualquer outra coisa; porque quero viajar o mundo todo de barco, trem e avião e nos meus planos não cabe dinheiro para IPVA; e porque eu concordo com esse manifesto aqui, que vale bem a pena vocês lerem. Eu mudei, pero no mucho.

PS 2: Hoje esse blog faz 2 anos, esse é o post número 100 e eu, com minha nova CNH, darei um grande salto para um homem, embora seja um fato insignificante para a humanidade. Viva!

09 agosto 2009

Yes, eu uso soutien

Quem tem twitter provavelmente ouviu falar do #lingerieday. Pra quem não sabe, vai aqui a breve explicação: três rapazes twitteiros resolveram jogar na web uma modinha e no dia 29 de julho as meninas deveriam colocar em seu avatar uma foto de lingerie. Eu fiquei sabendo, mas não aderi à campanha porque não dei tanta atenção assim e achei mais legal o #mussumday, em homenagem ao Mussum.
O #lingerieday passou quase despercebido por mim, não fosse um post que, dias depois, veio cair aqui na minha telinha. A garota, sem meias palavras, esculachou o movimento, apegando-se a um feminismo duvidoso e repressor. Os argumentos estão bem colocados, o texto é bom, mas eu, na minha condição de mulher e sujeito pensante tive que discordar.
Discordei aqui, na minha, fazendo sinal de negativo com a cabeça e fiquei com preguiça de vir a público dizer, entre outras coisas, que para mim o #lingerieday não passa de uma grande brincadeira e que não há motivo para alarde.
Mas aconteceu de eu ler essa matéria da revista Época e vi que as coisas estão ficando confusas. Aconselho vocês a lerem a matéria antes de continuar a ler esse post, pois não vou explicar o caso aqui.
Como é dito na matéria, desde a década de 60 parte da sociedade tenta anular as diferenças entre homens e mulheres. E eu acredito que essa necessidade de anular as diferenças surgiu, principalmente, como forma de diminuir a opressão existente sobre o sexo feminino. Isso é bom e já avançamos muito desde nosso ponto de partida. Hoje mulheres trabalham fora de casa, têm bons salários, assumem cargos antes predominantemente masculinos, fazem sexo antes do casamento e bebem cerveja. Mas uma coisa é preciso aceitar: homens e mulheres são diferentes sim. Os hormônios são diferentes, as reações são diferentes, o corpo é diferente. E isso reflete nas ações e comportamentos. Mas há uma parcela das feministas que prefere ignorar tudo isso que é facilmente observável, além de cientificamente comprovado e bate o pé para que mulheres e homens se igualem em tudo.
Este tipo de feminismo é, provavelmente, o mesmo que parte da premissa de que algumas atitudes femininas – posar nua, por exemplo - só são realizadas porque as mulheres estão subjugadas por uma sociedade machista. Este tipo de feminismo desconsidera que posar nua pode ser um desejo legítimo da mulher. Ela quis, ganhou um bom dinheiro, comprou carro e apartamento. Vai dizer que ela, coitada, é um ser não-pensante?
Duvido que o fato de uma mulher exibir o corpo vá anular sua capacidade intelectual. Desde que a garota tenha consciência de que na revista ou na TV ela será vista por homens apenas como um pedaço de carne, não há mal nenhum em tirar uma boa grana disso. Até porque, se ela tem consciência disso, é porque ela pensa.
A impressão que tenho quando vejo este tipo de crítica feminista é que para ser mulher respeitada é preciso manter a seriedade em todos os momentos e deixar a inteligência prevalecer sobre a beleza em qualquer situação, desconsiderando que há ambientes que permitem uma descontraída, como o twitter, por exemplo. É uma forma traiçoeira de se pensar: para ser respeitada, a mulher precisa seguir uma linha de comportamento, reprimindo qualquer outra atitude que possa prejudicar sua imagem de mulher inteligente. É como sair de uma prisão machista, que diz que mulher é objeto; e entrar em uma prisão feminista, que diz que mulher, para ser respeitada, não pode mostrar o corpo.
Tem ainda aquele argumento frouxo: “se fossem homens mostrando a cueca não haveria problema”. Para os homens não existe a questão do “mostrar meu corpo vai diminuir o que represento socialmente?”, porque os homens nunca tiveram que brigar por direitos e mostrar que são capazes de fazer coisas que vão além de cozinhar e passar. Mas é possível utilizar este argumento partindo do ponto de que se desejamos igualdade – guardadas as características de cada gênero, como eu disse no começo – devemos então considerar que se um homem de cueca não iria diminuí-lo, uma mulher de calcinha também não pode ser automaticamente transformada em objeto. As pessoas são muito mais do que um avatar e isso não deve interferir na função delas como sujeito, embora ali, naquela tela, ela figure como um objeto para quem vê.
E dizer que uma mulher que coloca na tela uma foto de soutien só o fez porque está subjugada a agir assim é jogar no lixo a capacidade feminina de pensar e julgar suas próprias atitudes. Soa quase tão machista quanto dizer quem mulher é objeto e ponto.
Pra finalizar, eu acho que se faz muito escândalo quanto a questões relacionadas a sexualidade, gênero e funções sociais. É um exagero não revelar o sexo do filho para deixar que ele escolha sozinho conforme for se desenvolvendo. Não há necessidade para tanto. Aborto ainda é tabu. Homossexualidade também, porque, por mais que você, seu amigo e seu vizinho aceitem, ainda tem muita gente que olha feio. Mas atualmente nossa sociedade anda muito mais aberta à essas questões polêmicas e se os pais da criança já entenderam que o que importa não é o sexo, mas a pessoa, eles poderiam simplesmente criar o filho como menino ou menina e, se um dia Pop não gostar da sua situação, terá liberdade para mudar. Afinal, os pais aceitam isso.
Enfim, falei tudo isso pra dizer que ser mulher e me vestir como tal não me incomoda em nada. E que duvido muito que uma foto minha de lingerie tenha o poder de anular tudo o que já li, estudei e conheci durante esses 23 anos . Para quem vê, posso ser só um pedaço de carne. Mas eu sei que sou mais que isso, e basta para que eu possa usar um salto alto sem me sentir apenas um corpinho que desfila para fazer a alegria dos marmanjos. Além de que, se estou tentando abrir um pote de azeitonas e um rapaz forte se dispõe a fazê-lo, não sou eu que vou recusar só pra provar que há igualdade entre homens e mulheres. Pra tudo nessa vida tem hora e local certo.

07 agosto 2009

Meu mais novo doce preferido

Hoje eu descobri um doce maravilhoso. Imaginem uma maria-mole redondinha, em formato de suspiro, só que maior. Mole o suficiente para derreter na boca, mas dura na medida para que você sinta seus dentes perfurando-a, pouco a pouco, quando morde. E coberta com coco ralado. Imaginaram? Agora imaginem sobre tudo isso uma camada de chocolate. Não espertinhos, não estou falando de teta de nêga – que, para os mais desavisados, é um doce também feito de maria-mole. Esse doce é mais especial. É como se o doceiro, esperto que é, tivesse enchido uma colher de sopa com chocolate derretido e deixado pingar ali na pontinha da maria-mole. O chocolate, quente e molinho, foi escorrendo. Então, o maravilhoso doceiro guardou a maria-mole na geladeira e o chocolate endureceu. Mas é claro que eu não estaria tomando o seu tempo para descrever uma maria-mole com chocolate. O ponto principal é que vi esse doce na padaria do mercadinho do quarteirão de cima da casa da minha mãe. E eu, como velha consumidora de doces de padaria, sei que os doceiros usam um truque muito feio e colocam chocolate hidrogenado - aquele chocolate fajuto que gruda no céu da boca - nesses doces tão bonitos de se ver. Mas esse não! Hesitei por dias antes de comprá-lo. Estávamos nos paquerando desde que a gripe suína fez com que minhas aulas fossem adiadas e eu, de férias na casa da mamãe, fiquei encarregada de ir toda tarde comprar pão. Ele lá, no balcão, sorrindo pra mim. Hoje, tomei coragem e comprei o doce, sem medo de me decepcionar. E minha surpresa foi imensa: era chocolate dos bons! Fiquei imensamente feliz por encontrar um doce de padaria feito com chocolate dos bons. Mas logo fiquei a pensar: esse negócio de usar chocolate hidrogenado é culpa dessa sociedade capitalista, que faz os empresários (sejam eles donos de uma montadora de automóveis ou de uma padaria) desejarem lucros e mais lucros, e como o chocolate hidrogenado é muito mais barato...Não preciso explicar né. E então lembrei que vivemos em tempos de crise e senti que a integridade do meu mais novo doce preferido está sendo ameaçada. Daí, resolvi usar este meu espaço na esperança de que o genial doceiro que inventou a maria-mole coberta com chocolate leia este texto. Ou que algum amigo, vizinho, tio, primo do doceiro passe desavisadamente por aqui e resolva dar-lhe o recado: se precisar economizar, se o dono da padaria exigir contenção de gastos, diminua o tamanho da maria-mole, use menos coco, diminua o recheio dos bolos, mas jamais use chocolate hidrogenado. Saiba, senhor doceiro, que por mais que os tempos sejam ruins, há sempre uma forma de fazer uma pessoa feliz.

03 agosto 2009

Na cadeia


Estou escrevendo uma matéria sobre o projeto EntreVersos, de Dois Córregos – pra quem não sabe, é a cidade onde moram meus pais. É um trabalho que incentiva as pessoas a ler e escrever poesia. Uma voluntária do projeto fez, durante um ano e meio, visitas ao presídio feminino da cidade, levou livros, leu poemas e incentivou as mulheres a escrever o que sentiam. O resultado foi um livro lançado por uma detenta. Gostei da história e fui lá conferir. Deparei-me com um pátio cheio de poemas nas paredes, mulheres simpáticas e meu preconceito me dando um tapa na cara:

Cidade pequena todo mundo se conhece, então, para falar com o delegado não foi difícil. Expliquei que queria conversar com uma detenta. Ele me perguntou se eu já havia entrado em uma cadeia e eu disse que já, só não contei que ela estava vazia quando entrei. Autorização concedida, fui conversar com o carcereiro, um homem grande, forte e barbudo – exatamente o que eu imaginava de um carcereiro - que me levou até uma porta de metal, com uma janelinha e um cadeado. Pela janela, ele chamou “Regina” e apareceu uma senhora de cabelos presos e havaiana nos pés. A tal da Regina me informou que a pessoa que eu procurava, aquela que escreveu o livro, não estava mais lá, mas que havia outras mulheres que escrevem poemas e que eu poderia ir até as celas falar com elas se quisesse. Eu quis e o carcereiro explicou: “então você deixa suas coisas comigo. Leva só o que vai precisar”. Retirei o mp3, o caderno e a caneta e entreguei a bolsa pro grandalhão. Ele abriu o cadeado: “vai com ela”. A Regina me acompanhou e eu me lembrei do Dr. Dráuzio Varella falando do barulho da porta de metal fechando, em “Estação Carandiru”. Entrei em um longo corredor. De um lado, paredes com a pintura descascando. Do outro, celas. E dentro de cada cela havia varais com camisetas, saias e calcinhas. No chão, colchões e mulheres sentadas. Algumas deitadas. Pensei que deveria ser bem normal aparecer pessoas por lá porque elas mal se mexiam para ver quem passava. Ou então a cena de “Senhora do Destino”, que todas viam pelas TVs, estava mais interessante do que quem caminhava pelo corredor. Cheguei na cela 5 e uma mocinha, bem jovem, veio até a grade. A Regina, sempre ao meu lado, explicou: “Kátia, essa moça é jornalista e quer ver suas poesias. Tá ai?” Ela já estava preparada para a conversa e me entregou uma folha de caderno dobrada. Perguntei seu nome completo e quando fui anotar, percebi que minhas mãos tremiam. Eu estava com medo. E quando percebi isso,vi que era uma besteira muito grande sentir medo. Elas estavam do lado de dentro da grade, como poderiam me fazer mal? Enquanto conversava com a Kátia, sobre a cadeia e a saudade, outra mulher se aproximou: “Sabe o que é? Quando você escreve, você sai daqui. Eu escrevo para os meus filhos e não falo de um lugar fechado, horrível, fedendo mofo. Eu falo de coisa boa. A gente se liberta”.
Chamei para a conversa e ela me contou que escreve muitas cartas, mostrou um livro e falou da Bíblia.
Entrevista feita, me despedi e uma mulher, lá do fundo da cela, gritou: "moça, já que você é jornalista, faz uma campanha pra trazer livro pra gente". Jornalista, eu? Pensei. E prometi alguns livros, sim.
Caminhando pelo corredor, a Regina, de cabeça baixa, mexendo com as mãos, disse: “Eu escrevo. Ganhei um prêmio outro dia”. Começamos a conversar e eu, ingenuamente, perguntei: “Você trabalha aqui?”.Ela, tímida, me explicou:“Eu sou presa, mas sou da faxina”. E então me contou que é a presa mais velha de lá, falou de sua vida antes da prisão, do seu trabalho e dos motivos de estar atrás das grades: “Minha pena é curta, é furto. Já era pra eu ter saído”.
Antes de ir embora, passei na sela 2, para conversar com uma outra mulher. Lá no fundo, deitada e prestando atenção em nossa conversa, estava uma mocinha bonita, arrumada, cabelos compridos. Tive a impressão de já ter visto a menina em algum lugar. Não olhei por muito tempo, mas a impressão está comigo até agora. Uma antiga colega de escola? Talvez.
Despedi-me da Regina e ainda passei na frente de mais um cômodo. Este, com as grades abertas. Enquanto o carcereiro não voltava, parei na porta e vi os minutos finais da novela. Lá dentro, duas senhoras tricotavam e outras duas olhavam pela janela, o olhar perdido no céu cheio de nuvens. Nenhuma delas notou minha presença ali na porta. Eu notei todos os detalhes: os novelos no chão, o tapete de tricô, os vasos de violeta e o bule de café.
Fui embora e não perguntei pra nenhuma daquelas mulheres o motivo de estarem ali, mas o delegado me explicou que muitas delas se envolveram no tráfico por causa do marido, do namorado, do amante. Outras tem crimes leves, como o furto da Regina.
Cadeia é um lugar onde qualquer um pode estar: uma mãe de 5 filhos ou uma bela moça de 20 anos. É tudo uma questão de deslize. É uma questão de ser humano. E de ser pego.
Incrível é como uma grade entre as pessoas pode deixar tudo mais assustador.