O bolo estava na mesa e era de chocolate, enfeitado com confetes - não os de carnaval, mas aqueles bons de comer. Do lado, uma garrafa de Coca-cola, outra de Guaraná Diet e pratinhos, garfinhos, copos descartáveis. No teto, penduradas, bexigas cor-de-rosa, amarelas e azuis. Algumas dezenas de pessoas andavam, falavam, riam. As crianças roubavam brigadeiros e deixavam as forminhas na bandeja, como prova do crime mais inocente que alguém pode cometer. Uma mulher de quarenta e poucos anos, falante, espalhafatosa, andava com uma câmera na mão, flagrando cada momento para guardá-lo num papel por toda a eternidade.
Como não poderia deixar de ser, teve o “Parabéns pra você”. Depois do ritual apaga-a-vela-e-faz-um-pedido, quando todos esperam pela sua fatia de bolo, foi que a aniversariante me puxou pelo braço e cochichou: “Quantos anos eu estou fazendo?”.
“Setenta e um, vó”. E ri. E ela riu também: “É que eu até esqueço dessas bobagens.”. E voltou para a festa, que era, na verdade, o que realmente importava para ela.
27 março 2009
17 março 2009
hasta la vista, bee
Existem pessoas eternas, eu já falei sobre isso aqui. São aquelas atemporais, que, de tão ímpares, a gente tem a certeza de que nunca morrerão. São pessoas que estão desvinculadas ao conceito de morte.
São pessoas que já estavam aqui quando chegamos e que já eram quem sempre foram: Dercy, Silvio Santos, Hebe. Eles não têm uma história. Eles são. Para o bem ou para o mau.
Quando falei disso por aqui, meses atrás, falei com melancolia e saudade. Hoje, falo com espanto. Puro espanto (mãozinha no peito e tudo mais). Clodovil Hernandez morreu. Quando eu soube disso, na cantina da faculdade, quase engasguei com meu lanchinho de peito de peru, bichinha que sou também. Valeu, Clô.
E então, quando uma pessoa eterna morre, nosso mundo dá uma balançada: pois é, um dia acaba mesmo.
Nessas horas eu vejo que a morte não é uma coisa que vai ter cura quando chegar a minha hora. E vejo que não é invenção do cara da novela.
Porém, eu, sabida que sou, mestra da arte de me enganar, me abalo por uns minutos, e depois continuo desconfiando.
Mas se o senhor Silvio Abravanel bater as botas, aí não dá. É sinal do fim dos tempos. Eu peço pra sair. Só Capitão Nascimento poderá nos salvar!
São pessoas que já estavam aqui quando chegamos e que já eram quem sempre foram: Dercy, Silvio Santos, Hebe. Eles não têm uma história. Eles são. Para o bem ou para o mau.
Quando falei disso por aqui, meses atrás, falei com melancolia e saudade. Hoje, falo com espanto. Puro espanto (mãozinha no peito e tudo mais). Clodovil Hernandez morreu. Quando eu soube disso, na cantina da faculdade, quase engasguei com meu lanchinho de peito de peru, bichinha que sou também. Valeu, Clô.
E então, quando uma pessoa eterna morre, nosso mundo dá uma balançada: pois é, um dia acaba mesmo.
Nessas horas eu vejo que a morte não é uma coisa que vai ter cura quando chegar a minha hora. E vejo que não é invenção do cara da novela.
Porém, eu, sabida que sou, mestra da arte de me enganar, me abalo por uns minutos, e depois continuo desconfiando.
Mas se o senhor Silvio Abravanel bater as botas, aí não dá. É sinal do fim dos tempos. Eu peço pra sair. Só Capitão Nascimento poderá nos salvar!
06 março 2009
na escola
Quando entrei naquela sala de aula, eu ainda não falava. Eu sabia falar, já tinha perdido três dentes de leite.
Fui uma criança precoce: aprendi ler cedo, em casa, antes de decorar a ordem do alfabeto. Eu gostava de desenhar e decifrar letras. Frequentei um tempo o jardim da infância, não se sei I ou II. Fugi e voltei direto para a escola de verdade, sem mesinhas redondas e brinquedos no recreio. Caí numa primeira série.
Eu só falava em casa, coisa de criança tímida criada no meio do mato. Inventava uns amigos, e conversava com eles. Às vezes falava com adultos, mas só quando eles tinham algo pra me oferecer: um doce ou uma história.
E de repente fui parar naquela sala cheia de crianças de verdade que não se pareciam nada com meus amigos imaginários.
Eu ainda não sabia como falar com aquelas crianças todas tão falantes que já sabiam cantar aquela música estranha "ABCDEF..." que a professora regia com uma régua de madeira apontando para a lousa verde.
Então aconteceu: a menina da minha frente virou pra trás. "Me dá um chiclete?". Eu parei de mastigar, quase engasguei, depois quase babei e as palavras por fim saíram: "só tenho esse", colocando um cantinho do chiclete mastigado pra fora da boca. A menina insistiu: "Me dá um pedaço desse!".
Eu não sabia se isso era um ritual comum entre as crianças daquela sala, mas imaginei que fosse. Peguei aquela pontinha de chiclete que ainda estava pra fora da minha boca e puxei. Estiquei até a mão da menina na carteira da frente. E lá ficou aquele cordão cor-de-rosa, pendurado entre meus dentes travados e a mão da menina.
Em segundos, o cordão cor-de-rosa despencou bem em cima do meu caderno. Eu, que ainda estava assustada com a menina que tinha falado comigo, nem percebi que a professora velha, gorda e de óculos horríveis estava parada do meu lado. E ela gritou. Ela falou que não era certo mascar chicletes na aula e nem conversar com os colegas (mas, eu não tinha conversado!). E falou que eu era uma menina mal educada e feia. Ou boba. Ou burra. Eu não sabia mais o que ela havia dito, porque só ouvia gritos e sabia que todo mundo estava olhando pra mim. Eu quis chorar, mas eu ainda não sabia chorar na frente das outras crianças.
A velha gorda voltou para a mesa dela e eu já não ouvia mais nada. Estava com os olhos presos naquela página. O chiclete grudado, por cima do 10+1=11, 10+2=12.
Desde então, eu odeio matemática.
Fui uma criança precoce: aprendi ler cedo, em casa, antes de decorar a ordem do alfabeto. Eu gostava de desenhar e decifrar letras. Frequentei um tempo o jardim da infância, não se sei I ou II. Fugi e voltei direto para a escola de verdade, sem mesinhas redondas e brinquedos no recreio. Caí numa primeira série.
Eu só falava em casa, coisa de criança tímida criada no meio do mato. Inventava uns amigos, e conversava com eles. Às vezes falava com adultos, mas só quando eles tinham algo pra me oferecer: um doce ou uma história.
E de repente fui parar naquela sala cheia de crianças de verdade que não se pareciam nada com meus amigos imaginários.
Eu ainda não sabia como falar com aquelas crianças todas tão falantes que já sabiam cantar aquela música estranha "ABCDEF..." que a professora regia com uma régua de madeira apontando para a lousa verde.
Então aconteceu: a menina da minha frente virou pra trás. "Me dá um chiclete?". Eu parei de mastigar, quase engasguei, depois quase babei e as palavras por fim saíram: "só tenho esse", colocando um cantinho do chiclete mastigado pra fora da boca. A menina insistiu: "Me dá um pedaço desse!".
Eu não sabia se isso era um ritual comum entre as crianças daquela sala, mas imaginei que fosse. Peguei aquela pontinha de chiclete que ainda estava pra fora da minha boca e puxei. Estiquei até a mão da menina na carteira da frente. E lá ficou aquele cordão cor-de-rosa, pendurado entre meus dentes travados e a mão da menina.
Em segundos, o cordão cor-de-rosa despencou bem em cima do meu caderno. Eu, que ainda estava assustada com a menina que tinha falado comigo, nem percebi que a professora velha, gorda e de óculos horríveis estava parada do meu lado. E ela gritou. Ela falou que não era certo mascar chicletes na aula e nem conversar com os colegas (mas, eu não tinha conversado!). E falou que eu era uma menina mal educada e feia. Ou boba. Ou burra. Eu não sabia mais o que ela havia dito, porque só ouvia gritos e sabia que todo mundo estava olhando pra mim. Eu quis chorar, mas eu ainda não sabia chorar na frente das outras crianças.
A velha gorda voltou para a mesa dela e eu já não ouvia mais nada. Estava com os olhos presos naquela página. O chiclete grudado, por cima do 10+1=11, 10+2=12.
Desde então, eu odeio matemática.
01 março 2009
Abre bem a boca!
Dia 11 de março será um dia feliz para mim. Está marcado na minha agenda e se eu tivesse um adesivo da Hello Kitty segurando balões coloridos, era lá que eu colocaria. E sabe por que? Sabe? (E essa pergunta eu faço com voz e cara de criança feliz que quer matar alguém de inveja). Porque eu vou tirar meu aparelho ortodôntico! Ficarei livre daquelas pecinhas que me deixam com cara de adolescente e poderei comer amendoins japoneses de modo digno: enchendo a boca e mastigando todos juntos.
Mas o fato da retirada do aparelho não é o motivo maior da minha alegria. Fico feliz mesmo, assim, radiante, por saber que, feita a retirada do aparelho e a higienização (medoo!!) ficarei muito, muito tempo sem ver a gordinha simpática que é a minha dentista. Ok, vai. Muito tempo quer dizer seis meses. Mas para quem tinha que encontrá-la no mínimo uma vez por mês, seis meses é um presente e tanto.
É. Eu tenho medo de dentista. Pânico de consultório odontológico. Não sei de onde veio isso, só sei que um dia, quando eu tinha 12 ou 13 anos, me vi implorando para minha mãe me deixar beber conhaque antes de ir para o temido consultório. Foi ai, diante deste momento de insanidde (minha) e de perplexidade (da minha mãe) que percebi que sofro de uma fobia um tanto comum: a odontofobia. Não sei se está no Aurélio, mas está no Google. A palavra existe!
Fobia, medo, pavor, paúra. Tudo isso. A simples menção da palavra "dentista" já me causa desconforto.
E eu tenho o azar de sempre me consultar com dentistas que gostam do 1º andar. O consultório dos meus carrascos de branco nunca fica no térreo. É sempre o mesmo martírio: parar na porta, encarar as escadas, respirar fundo e subir contanto os degraus. E sentindo a dor no estômago aumentar a cada passo.
Depois, vem a sala de espera. Em todos os consultórios odontológicos que fui, a secretária é sempre simpática em excesso. Eu interpreto aquela simpatia como um modo de disfarçar a pena que ela sente daquelas pessoas sentadas, todas esperando seu momento de tortura.E sempre, sempre, tem uma criança choramingando, o que me dá náuseas e tonturas porque, quando estou na sala de espera, meu cérebro trava e meu corpo nunca sabe como reagir a essa pane, e então acaba reagindo com irritação e reações físicas desnecessárias.
É um momento de extrema tensão: desejo ouvir logo meu nome, para ir logo para a sala de tortura, sem maiores pensamentos, para acabar com minha ansiedade crescente. Mas, quando a secretária diz “Carolina”, tudo que desejo é que haja outra Carolina no recinto.
É nesse momento, quando ouço meu nome, que as náuseas cessam e dão lugar à tremedeira. E, pra piorar, eu sempre me esqueço de levar uma blusa de frio e o consultório do dentista é sempre muito frio. Então fico lá: friorenta, trêmula e vulnerável deitada naquela cadeira que me lembra a mesa dos ETs do filme “Fogo no céu”.
Uma vez na cadeira, minha ansiedade some e eu viro uma completa retardada. Não falo nada, não me mexo, não respiro. E babo. Muito. Se ouço o barulhinho da broca – Hitler não faria melhor - meus pêlos arrepiam e meus dedos do pé contraem. Se não tem o barulhinho, só acordo do “transe” quando sinto as costas da cadeira levantando. Então, volto a ser uma pessoa comum, que sorri, fala e tem fé na vida.
Dia 11 de março, te espero ansiosamente!
Mas o fato da retirada do aparelho não é o motivo maior da minha alegria. Fico feliz mesmo, assim, radiante, por saber que, feita a retirada do aparelho e a higienização (medoo!!) ficarei muito, muito tempo sem ver a gordinha simpática que é a minha dentista. Ok, vai. Muito tempo quer dizer seis meses. Mas para quem tinha que encontrá-la no mínimo uma vez por mês, seis meses é um presente e tanto.
É. Eu tenho medo de dentista. Pânico de consultório odontológico. Não sei de onde veio isso, só sei que um dia, quando eu tinha 12 ou 13 anos, me vi implorando para minha mãe me deixar beber conhaque antes de ir para o temido consultório. Foi ai, diante deste momento de insanidde (minha) e de perplexidade (da minha mãe) que percebi que sofro de uma fobia um tanto comum: a odontofobia. Não sei se está no Aurélio, mas está no Google. A palavra existe!
Fobia, medo, pavor, paúra. Tudo isso. A simples menção da palavra "dentista" já me causa desconforto.
E eu tenho o azar de sempre me consultar com dentistas que gostam do 1º andar. O consultório dos meus carrascos de branco nunca fica no térreo. É sempre o mesmo martírio: parar na porta, encarar as escadas, respirar fundo e subir contanto os degraus. E sentindo a dor no estômago aumentar a cada passo.
Depois, vem a sala de espera. Em todos os consultórios odontológicos que fui, a secretária é sempre simpática em excesso. Eu interpreto aquela simpatia como um modo de disfarçar a pena que ela sente daquelas pessoas sentadas, todas esperando seu momento de tortura.E sempre, sempre, tem uma criança choramingando, o que me dá náuseas e tonturas porque, quando estou na sala de espera, meu cérebro trava e meu corpo nunca sabe como reagir a essa pane, e então acaba reagindo com irritação e reações físicas desnecessárias.
É um momento de extrema tensão: desejo ouvir logo meu nome, para ir logo para a sala de tortura, sem maiores pensamentos, para acabar com minha ansiedade crescente. Mas, quando a secretária diz “Carolina”, tudo que desejo é que haja outra Carolina no recinto.
É nesse momento, quando ouço meu nome, que as náuseas cessam e dão lugar à tremedeira. E, pra piorar, eu sempre me esqueço de levar uma blusa de frio e o consultório do dentista é sempre muito frio. Então fico lá: friorenta, trêmula e vulnerável deitada naquela cadeira que me lembra a mesa dos ETs do filme “Fogo no céu”.
Uma vez na cadeira, minha ansiedade some e eu viro uma completa retardada. Não falo nada, não me mexo, não respiro. E babo. Muito. Se ouço o barulhinho da broca – Hitler não faria melhor - meus pêlos arrepiam e meus dedos do pé contraem. Se não tem o barulhinho, só acordo do “transe” quando sinto as costas da cadeira levantando. Então, volto a ser uma pessoa comum, que sorri, fala e tem fé na vida.
Dia 11 de março, te espero ansiosamente!
Assinar:
Postagens (Atom)