24 maio 2008

Sempre que penso em escrever sobre ele, nunca sei. Nunca tenho palavra ou pensamento concreto pra sentimento tão grande.
É quem me faz passar por dores, e quem depois as alivia .
Eu olho pra ele e penso que é tudo que eu queria, e nem acredito que isso existe, isso de se ter tudo que um dia a gente quis: choro de madrugada e desculpas. Beijos de despedida e saudades. Bombons em dias comuns. Sintonias de pensar junto na música ou na cor.
É como no dia que ele cismou de ir embora pra sempre, e eu nem pra pedir pra ficar tive forças. Chorei sozinha, e quando vi que era tudo brincadeira dele, pensei: esse menino me ama. Ele me fez acabar por uns minutos, e tudo que eu pensava era amor.
É tanta dor, e tanto amor, e no fim é tudo junto e eu já nem sei mais, e prefiro só ficar calada, sorrindo e chorando, o que merecer o momento.
Toda vez que eu acordo de manhã e vejo ele dormir me dá vontade de mudar de vida, morar na praia e dormir em rede. Com ele, e só.
Daí que eu sei que isso é amor, essa coisa com ares de fim de tarde, que é leve e pesado, depende de como está nosso coração. É nunca de manhã, tão puro. E nunca de noite, tão pesado. Um e outro, sempre junto. Ciúmes de rasgar a pele e carinhos dos mais tranqüilos. Medos incertos e vontades de cinco filhos. Adeus pra sempre e adeus nunca mais. Me deixa só e me leva embora.
É meu paradoxo e meu complemento. É aquilo que eu sempre quis, é a palavra que eu nunca vou saber dizer.


[E se desconfiar da minha alegria excessiva, saiba que a culpa é toda sua.]

22 maio 2008

O tapa dói quando é na cara

Eu recebei um e-mail com o título “VEJAM! ISSO É UM ABSURDO”. Assim, em caps mesmo. Sou curiosa o bastante para querer abrir. E inocente o bastante para não pensar que era mais uma dessas babaquices da internet e simplesmente mandá-lo para a lixeira, como faço com aqueles que têm como assunto “Lindo! Para refletir”. O e-mail continha fotos de um cachorro magro e sarnento amarrado com uma corda. Falava do trabalho do artista Guillermo Vargas Habacuc, que colheu um cachorro das ruas e o colocou em sua exposição, deixando o animal morrer de fome na frente dos visitantes. O propósito do e-mail era informar que Guillermo pretende repetir o ato e, assim, juntar forças para impedi-lo.
O título do e-mail não era, como já disse, “Para refletir”, mas de certa forma, acabou me levando a isso. Não, eu não cheguei à conclusão de que o tal artista é um maluco cruel que deve ser punido. Não resolvi fazer uma comunidade no orkut e unir forças para invadir a exposição e libertar o cão e depois amarrar Guillermo no lugar, deixando-o definhar até a morte. Mas acredito que muitas pessoas (inclusive aquela que me mandou o e-mail) chegaram a cogitar idéias assim.
Eu penso que se a função da arte é despertar nas pessoas sensações e emoções diferentes e quebrar a rotina de pensamentos, o artista alcançou o seu propósito. Sim, pois todas as pessoas que se indignaram ao ver o cão morrendo de fome, ao vivo ou por e-mail, já viram, ao menos uma vez na vida, um homem enrolado em cobertas implorando por comida. Essas pessoas, tenho certeza, se deparam todos os dias com cães e crianças que logo morrerão de fome. E tudo o que essas pessoas conseguem fazer é fechar o vidro de seus carros e ligar o som. Ou então, aumentam o volume de seu mp3 e continuam andando.
As pessoas têm uma facilidade muito grande de se afastarem do mundo. É um dos benefícios do avanço tecnológico: aperto um botão e volto para o MEU mundo.
Nunca vi uma pessoa retirando um cachorro sarnento da calçada para levá-lo para a casa e dar comida. Vejo poucas pessoas passando por mendigos e demonstrando algum tipo de sentimento. Afinal, é muito mais fácil fingir que não é conosco e jogar a culpa em algo abstrato como o governo ou o sistema. Mas quando a pessoa se desloca de sua casa para ir até uma exposição de arte e lá se depara com aquilo que lhe é mostrado todos os dias, é incômodo. Se você foi na exposição por vontade própria não espera dar de cara com uma realidade tão incômoda.
E então, a arte se mostrou: pessoas que agem com frieza ao ver crianças com fome se indignaram diante do cão. Mandaram e-mails, fizeram protestos, chamaram a Luisa Mel. É a incapacidade de aceitar os próprios erros. Ou seria a total alienação? Será que eles não sabem que isso acontece todos os dias ou será que não conseguem aceitar a parcela de culpa que têm sobre os problemas do mundo quando alguém os joga na cara. Ali, de frente com cachorro faminto, não há como fugir da realidade. E como é de costume, colocaram a culpa da morte do cachorro no artista. Dói menos em nós. Fica menos feio. E mais hipócrita, como sempre é.

06 maio 2008

Foi num dia de sol que você disse. Foi quando o sol lá de fora me invadiu, e falar isso parece clichê, mas agora eu to precisando muito de um clichezinho.

Eu, descalça, e tudo que lembro é que ao seu lado eu me sentia mais descalça ainda, porque estar ali descalça me fazia sentir a grama nos meus pés. E você de tênis.

O que ficou na minha memória foi isso: seu tênis de cadarço desamarrado, pisando na grama, e o sol batendo na gente, um solzinho de fim de tarde. E do lado do seu pé, o meu, descalço e sujo. É como um retrato na minha cabeça: vai ver porque eu só olhava pra baixo.

Eu queria pegar uma flor, e você falando. Depois você jogou uma pedra pra longe, como quem inventa uma coisa qualquer pra fazer, de repente, só pra quebrar uma camada de gelo invisível.

Pra mim, o sol derretia o gelo, se esperasse sentado, só. Mas você andava do meu lado, e isso me fazia olhar menos pra direita, justamente onde estava o sol. Eu ia engolindo seco e doce tudo o que você dizia. E você dizia bem pouco, pelo que lembro. Pouco ficou na minha cabeça além do retrato dos pés na grama. De tanto eu olhar pra baixo, me irritei e resolvi falar, e a frase saiu rouca no começo e eu quase que não quis continuar: “seu tênis ta desamarrado”. E quando você se abaixou para amarrar, foi que o sol passou por cima da sua cabeça, bateu no meu rosto e eu me senti bem mais alta, você ali, abaixado, concentrado no cadarço, e eu consegui de novo falar: “Tem uma folha na sua cabeça”. Era o que eu via dali de cima, seu cabelo despenteado e liso, um raio de sol passando por cima, e uma folha presa nisso tudo. Eu sabia que a folha me salvaria. Você parou de amarrar e por um instante eu pensei que a folha havia me traído, e você seria estúpido e ela riria da minha cara. Você olhou pra cima e agora o raio de sol fico parado no seu rosto. Então, foi que você disse: “você é linda”. Nessa hora você já sorria, e eu lamento não lembrar do momento exato em que o sorriso se abriu, mas ele ainda é um retrato, junto com o raio de sol, e os pés na grama.

Eu esfreguei os pés no chão, pra ver se tinha chão ali embaixo, e eu sei que hoje eu sou no sol e descalça a menina mais bonita.