18 abril 2008

Até onde, amor?

Um dia ele quis saber por que você conversava tanto com aquele rapaz. E você, acreditando que ele havia esquecido, explicou: “é meu amigo, gosto dele”. Foi um lapso, você pensou. Todo amor tem seus delírios. Mas o amor é forte, você acreditava, e nada abala um grande amor.
Veio então o dia do decote: “não use, por favor, acho vulgar”, ele pediu. E você obedeceu. Respeitar os gostos do outro também faz parte do amor.
Outra vez, ele pediu para você não falar mais com seu amigo. Você se forçou a entender: pode mesmo parecer estranho. Amor tão grande merece pequenos sacrifícios. Com tristeza no peito, entendeu. Obedeceu. Foi o mudo fim de uma amizade. Mas o que não se faz para manter o amor?
Depois, teve a saia: ele pediu para não usar. Tudo bem, meu amor merece respeito, você pensou. E a saia, que era bela, ficou no fundo da gaveta. Ganhou cheiro de guardado. Mas o amor prosseguiu.
O amor prosseguiu, e com o grande amor vêm os grandes pedidos: deixe aqueles amigos, não use essa blusa, não saia sozinha. E você, que já não tinha mais tantos amigos, obedecia: vale a pena por amor?
E depois: porque as unhas vermelhas? Mas pra que passar batom? Quem foi que te ligou? E você, que não tinha mais para onde correr, obedecia.
E um dia, você sem seu esmalte, sem sua saia e sem seu amigo, se viu tão diferente e perguntou “o que foi que o amor me fez?”.
Você não se reconheceu e percebeu: o amor não te amava, somente te queria. E você, que só amava, se doou para o amor.
Foi então que você chorou todos os momentos doados. Foi então que você chorou por sentir o seu corpo dominado por outro alguém. Foi então que você quis saber como tudo começou. Foi então que você quis saber onde foi que ficou o amor.
O seu, você sabia, continuava no peito. Mas como entregar o amor, quando não se sabe mais onde fica seu coração? Como doar um amor se o seu corpo não é seu, se o outro dominou. O amor é egoísta, você pensou: ele não sabe aceitar. O amor é egoísta: só sabe amar o que lhe pertence.
Então, sem saia, sem decote, sem aquilo que um dia você foi, assim, despida e humilhada, você percebeu que o amor puro era o seu, que nada pedia em troca e que tudo aceitava.
E como quem se livra da mão que tapa a boca e sufoca, você se libertou. Procurou no fundo da gaveta a saia guardada e colocou. E no fundo da gaveta o que ficou foi o amor, que agora já tinha cheiro de guardado.

16 abril 2008

...mas o seu amor me cura de uma loucura qualquer...

O amor dói. Um dia você desconfiou de mim. Um dia eu errei. Um dia foi cada um para um lado.

Foram então portas batidas, cartas rasgadas, telefones desligados, costas viradas sem adeus, sem palavra.

Me doeu no peito, na garganta, na barriga, o fim do amor. Deu vontade de vomitar todo o amor engolido, todo o desespero guardado. Deu vontade de rasgar a roupa, quebrar o espelho, fugir de mim. Deu vontade de chutar a porta, bater o carro, pra extravasar a dor. Sair sem rumo, pra deixar pra trás o fim.

Veio dia de chuva e eu chorei. Veio dia de sol e eu nem vi.

Um dia você voltou atrás, me olhou nos olhos e me abraçou. Deu vontade de chorar, de ser criança, de ver o pôr do sol, de deitar na cama e me deixar só, com você.

O amor cura a dor.

12 abril 2008

Construção

Seu nome é João
Pedreiro de profissão
Vai ao bar dia sim, dia não
Não economiza pra pinga ou pro pão

Tem bigode, cabelo grisalho
Passou dos quarenta e três
Dá grande atenção ao trabalho
Vai ao parque uma vez por mês

Se perguntam o que faz, ele diz:
Eu faço casas.

Um dia conheceu Maria
E com ela se casou.
Mas depois veio a Luzia
E da Maria divorciou

Um dia Luzia teve filho
E depois mais um nasceu
O amor perdeu o brilho
João desapareceu

Teve então a Ana
E mais duas crianças
Depois a Rosana
Mais uma pra lembrança

E o João
Da construção
Da pinga
Do pão
E dos bares
Não faz só casas
Ele faz e desfaz lares

05 abril 2008

dolorida, dolorosa

É incrível como dói
A dor de ser deixada de lado
Acusada de um pecado
Que foi anti-pecado
Que a gente nem cometeu

04 abril 2008

Parada, mãos na cintura, ela olhava para as roupas penduradas nos cabides. Pensava em um vestido de abotoar, sem decote e florido. Pensava no vestido que não tinha: ele seria a peça perfeita. Mas como ele não fazia parte do seu modesto guarda-roupas, começou a buscar entre suas blusas a mais adequada.

Vermelha não. Nem preta. Nada pesado, nada de decote. Encontrou uma, azul. Azul é bom, é neutro. A blusa azul não era ainda o que queria, mas servia. Justa, mas nem tanto. Cobria a barriga. Decote discreto, em “U”. Era o mais próximo possível daquilo que imaginava.

Pensou que no dia em que comprou a calça jeans que usava agora, deveria ter comprado uma saia florida que viu na vitrine. Passava do joelho, com um botão na cintura, branca, com flores azuis. Seria perfeita. Se arrependeu por ser assim e nunca pensar em ocasiões especiais na hora de comprar roupas. Tudo bem, tudo bem. Escolheu mesmo a calça jeans, que nem era tão justa assim.

Sapatos. Nada de salto. Uma sandalinha preta, de tiras. Velha e gasta. De ir à feira. Mas ficava boa com a roupa.

Cada detalhe era importante, e por isso tirou os brincos de argola, pegou uma caixinha de madeira e lá no fundo encontrou dois coraçõezinhos prateados: presente do passado. Era hora de usá-los.

Parou em frente ao espelho. Olhou-se com estranhamento e satisfação. Pensou ainda no vestido das flores. Pensou agora nos cabelos e decidiu que presos ficariam bons.

Pegou a bolsa, a única, preta, de couro, colocou dentro o presente embrulhado e o papelzinho com o endereço e saiu.

Na rua, reparava em como as pessoas não reparavam nela. Achou aquilo estranho e confortável. Estava ali, tão comum, numa quarta-feira de sol e calor, às 2 da tarde, no meio das pessoas que iam às compras, que voltavam para o trabalho depois do almoço, que passeavam. E agora ela tomava consciência do que era fazer isso tudo, que sempre se faz sem perceber. Como se aquelas roupas a transformassem em outra.

Parou no ponto, esperou. Entrou no ônibus, pensou por 25 minutos que parecem 5. Desceu. Procurou na bolsa o papelzinho com o endereço: Rua Paraná, 356.

Depois de três quarteirões, estava procurando pelo número indicado. Deveria encontrar uma casa de portão cor de vinho, com um fusca branco na garagem. Quando percebeu que se aproximava, sentiu aquela dor de estômago que anuncia a sua ansiedade. Guardou o papelzinho amassado. Parou em frente ao portão vinho e bateu palma. Na porta, saiu uma senhora de avental. Atrás dela vinha um menino de pés no chão e roupa suja. Depois chegou uma moça parecida com ela, porém, mais jovem. A moça mais jovem abriu o portão. A outra entrou. As mulheres a olhavam com desconfiança, ainda que a mais jovem não conseguisse disfarça a felicidade. Ela se ajoelhou na frente do menino. Ele, de uns 5 anos, a olhava sem expressão. Ela reparou nos olhos verdes dele e os seus se encheram de lágrimas. A mulher do avental se afastou, muda, mostrando respeito pelo momento. Ela abriu a bolsa e de dentro tirou o embrulho: “pra você”. O menino aceitou, tímido. Ela ajudou-o a abrir. Era um caminhãozinho. Ele sorriu. Ela chorou. Foi convidada a entrar na casa. Entrou levando o menino pela mão. Sentou no sofá, tomou suco servido pela moça mais jovem, tentou conversar com a senhora do avental. Mas sua atenção era toda voltada para o menino. Queria saber se ele tinha amigos, se ia a escola, o que estava aprendendo, do que gostava de brincar. Ele respondia com monossílabos e sorria para os elogios dela.

Duas horas depois ela se despedia no portão, pensando se aquela sensação de conforto e medo era o significado de ser mãe e jurando que mataria qualquer um que um dia chamasse aquele menino de olhos verdes de filho da puta.