21 fevereiro 2008

nuvem

"...e até quem me vê
lendo o jornal
na fila do pão
sabe que eu te encontrei..."
(los hermanos)


E nem a tolha jogada no chão me incomoda: é evidência da presença dele, assim como aquele cheiro que fica no ar, cheiro doce e atraente, misturado com cheiro que tem o rosto da gente quando acorda.

É a presença silenciosa que me acalma e nunca me irrita ou cansa, por mais que tenha gestos com intenção de irritar. A gente finge irritação, que é porque encaixa com a brincadeira. Aquelas brincadeiras tão intimas que só quem está na cena entende, mesmo sem assumir que está brincando. Joguinhos de amor.

E quando ele faz coisinhas como cuidar da flor, ou trocar a TV de lugar, ou então lavar a louça, é aquele encanto silencioso, aquela vontade de: parar o tempo, congelar a cena, abraçar pra sempre, deitar no colo e sorrir, aconchegada.

Aquela presença tranqüila e alegre, de meias jogadas pelo chão, é que traz do fundo a vontade de ser criança pra não ter que fazer coisa alguma e só ficar por ali, olhando e inventando assuntos passageiros que duram toda uma tarde.

E quando ele aparece com sorrisos fazendo mil surpresas no meu dia, eu ai, nem sei o que dizer. E são supresinhas-chocolate, ou susto com beijo depois.

Quando ele diz que vai me fazer companhia, eu sei que é mentira: vai nada, vai encher meu dia de pequenas felicidades, borboletinhas coloridas.

É rotina que nunca cansa, porque a rotina se engana e se inventa o tempo todo. É sempre outra coisinha surgindo, às vezes briga, às vezes beijo, às vezes bolo de chocolate. Detalhes que vão garantindo que toda noite vai ter beijo e eu te amo, por telefone ou não.

Por isso que toda vez quando eu penso em fugir, paro, dou um passo pra traz e volto com os braços abertos. Ele me recebe e sempre me promete um fim de tarde lindo. E o fim de tarde sempre vem.


"...que pra nós dois
sair de casa já é
se aventurar..."

17 fevereiro 2008

a mesma velha história

Por que a gente é assim? A gente não cansa de se decepcionar, sabe? Burra, é isso que a gente é. Tapada. Inocente, não, que experiência é o que não falta.
A gente se encanta, se arruma, se perfuma, corre atrás. Fica bonita, põe saia porque ele disse que gosta. Usa menos batom, porque ele não gosta. Vai ao mesmo bar que ele vai, só pra dar uma trombadinha, um “oi, você por aqui!”. Entende? Traz mais um copo, por favor? E daí a gente liga, manda mensagem, faz tudo. Fica arrumando papo, falando do time dele até. Idiota. Odeio futebol, porra. Se demonstra interesse, ta fácil, se não demonstra, corre o risco de perder. Tem isqueiro? Brigada. Na dúvida, a gente se joga mesmo, pelo menos eu, boba que sou, com medo de perder. Depois bate ciúmes, essas amigas, mas a gente agüenta, finge que não é nada, se faz de liberal, compreensiva e fica guardando aquele amargo que é o ciúmes, poxa. Ciúmes mata né? Ficar guardando mágoa, ciúmes, essas coisas ruins, dá câncer. Mas como é que a gente vai dizer que tem ciúmes de alguém quando nem sabe se vai dar certo, nem sabe se é alguma coisa. Não dá. Daí é mais uma pra gente engolir. Tá tudo bem, tudo certo, imagina. A característica mais forte do meu signo é o ciúme, sabia? Pensa no quanto eu sofro, ai, como finjo. Sofro. Enche o copo. Brigada. A gente enfia o orgulho no rabo, né? Corre atrás, se mata. Eu sou besta de me apaixonar, eu devia era ser uma puta falsa e usar todo mundo, como esses desgraçados sempre fazem no final. Aproveitar e só. Pensa em como ia ser legal. “Oi gatão, com você só quero sexo!”. Mas não, quem consegue? Entende? Acabo comigo por esse merda que é o amor. Amor não, paixão, que eu sei bem que é a paixão que faz isso. Tem médico, eu li uma vez, que diz que paixão é doença, caso às vezes de psiquiatra. Teve uma menina que. Isso, pode encher, copo vazio não leva a nada. A menina, novinha, se apaixonou pelo Tom Cruise, teve que fazer tratamento. Ficou louca por ele. Queria casar. Fez tudo isso ai que a gente faz, a mesma história, mas o gatão nem sabia da existência da coitadinha. Vê se pode. Paixão é doença, das bravas. Fala pra mim que você nunca fez besteira por homem? Eu mesma lembro do...aquele bonitão...Jorge? Paulo? Haha. Não foi loucura? Paixão é loucura, é doença, meu bem. Se não fosse eu não tava aqui. Se fosse amor eu tava em paz, tava em casa vendo um filminho, feliz e tranqüila. Apaixonada não, tranquila. Você já percebeu a diferença entre amor e paixão? Existe, claro. E é grande. A paixão...É isso aí que eu to falando. Ah, como a gente faz besteira! Às vezes dá certo. O começo sempre dá certo. Ou é a gente que tá bem besta, toda apaixonada e se ilude e pensa que tá dando certo. Como a gente se ilude! Peloamordedeus, enche esse copo. A gente se ilude, acha que esse é diferente. Fica toda besta, se arruma, faz comida, dá presente, conta segredo. Eu que, ah, contei tanta coisa. Daí a gente para de usar a porra da saia porque ele não gosta. Pára de vez com o batom, que eu gostava tanto. Faz tudo isso pro maldito no fim sumir. Mas agora vai tudo mudar. Duvida? Essa semana acaba, eu falo adeus, vá pra sua mãe! Eu ponho saia curta, batom, pinto o cabelo, viro outra, você vai ver. Oh só o que ele me faz! Aquele desgraçado. Sabe onde ele tá agora? Nem eu, nem eu. Mas eu imagino, porque aquele filho da puta não presta. Não vale nada. Pede outra garrafa e me empresta um cartão telefônico. Ele não presta, não presta. Vou ligar pra ele, que quem não vale nada sou eu.

12 fevereiro 2008

Ressaca Vindoura

Foi necessária mais de uma taça de vinho pra chegar perto.

E depois, quase um litro todo pra manter a conversa.

E ela ria, mexia nos cabelos, arrumava a alça que insistia em mostra aquele pedacinho a mais de ombro: um presente!

Depois, precisou de champanhe pra conquistar de vez.

Conquistada, foram vinhos em jantares e conhaques em fins de noite.

Um dia então precisou sair sozinho.

E não era preciso, mas bebeu whisky olhando pra´quela morena de mini-saia.

E foram precisos três copos pra poder esconder a aliança e falar três ou quatro palavras no ouvido da moça.

E duas taças de champanhe foram suficientes para ela carimbar a gola da camisa dele com seu batom vermelho.

E o whisky e o champanhe da noite anterior foram suficientes para ele se esquecer das marcas e entrar em casa com a camisa.

E ela, a amada, nem precisou de bebida ou cigarro pra sair batendo a porta.

E naquela noite nem o dono do boteco da esquina soube dizer quantas doses de pinga colocou no copo do homem que chorava no balcão.

10 fevereiro 2008

Esse desenho é meu nome!

Dizem que a gente não consegue guardar na memória aquilo que passou pela nossa vida até os 3 anos. Então, digo que sei que, desde os meus 4 anos eu amo as letras. Antes não sei, não lembro.
Eu passava boa parte dos meus dias deitada numa rede em uma barraquinha de beira de estrada que minha avó tinha pra vender frutas para os viajantes. E minha vó tinha uma amiga, a Dona Maria, que, além de fazer bolos e contar histórias, cuidava de mim. A Dona Maria parecia a Dona Benta, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu deitava na rede e ela sentava do meu lado, numa mesinha de madeira. Eu pegava papel, caneta dava pra ela e falava: escreve Luciana. Ela escrevia. Agora Maria. E Carol. E bolo. Ela escrevia tudo e eu olhava, depois de trás pra frente e ainda de ponta-cabeça. E pensava que naquelas coisinhas que a Dona Maria fazia tinha um monte de coisas: a Luciana, minha prima, a Dona Maria do vestido florido e o bolo de fubá.
Eu tinha minhas canetas e livros. Eu via os livros e copiava os códigos na parede da casa da minha vó. Todos tortos, claro. Mas eu tentava aperfeiçoar cada vez mais. Um dia me ensinaram quais códigos formavam meu nome. Eram sempre os mesmo e tava lá: CAROL. Era só copiar, sempre na mesma ordem. Pronto. Meu nome! “Mas, mãe, e se eu colocar o da barriguinha no final? E se trocar o da barriguinha pelo outro do final?”. CALOR! Era tão simples!
Daí eu comecei a entender aqueles códigos, comecei a brincar com eles. Bolo. Lobo. E eles, de repente quase viravam frases: O bolo do lobo.
Me aperfeiçoei: o lobo é lindo. Que lobo lindo!
E se o lobo tiver flores? E se eles gostar de flores? E se ele gostar de flores e de bolos? E se fizer um bolo com flores?
Eu comecei a entender cada detalhezinho dos códigos e cada vez me apaixonava mais, porque eu criava mundos com aquelas coisinhas que ficavam paradas nos livros. Pegava daqui, dali, de lá e pronto. Tinha um bolo, uma flor, uma casa, e se tirasse um pouquinho, tinha uma asa.
Evolui e tive diários, coisa de menina-mocinha, sabe? Depois cadernos de histórias e logo o lobo tinha nome de Norberto ou de Jorge, com letra maiúscula, que é o certo.
As letras, quando percebi, já eram paixão. E eu usando e abusando delas, só pra aliviar o que se passava aqui por dentro. Era beijo, saudades, André, Paulo, tchau.
Daí eu vi que, além de brincadeira, elas me serviam pra muito mais. Eu poderia usar todas elas pra materializar a minha angústia, minha alegria e a minha imaginação.
Juntei então, um monte delas na minha sacola, de par em par, às vezes de trio, e deixo aí, à disposição. E se alguma me falta, eu fico triste. Às vezes acontece o contrário: fico triste e me faltam todas. Às vezes, quando fico muito feliz, exagero e repito o lindo, lindo, lindo. Quando algo me incomoda, é tormento, sofrimento. E quando tem coisa confusa, é só ir se misturando, variando, enlouquecendoando.
Eu cresci com elas, aprendi com elas a me colocar num papel e agora não paro, junto tudo por aqui e juro que não paro.