24 março 2008
flor de menina
Ela lá sentada no degrau da porta, pernas no sol, encostada no batente, essas coisas de criança, vestido sujo e tudo mais.
Mas de cabeça baixa, cabelo despenteado, e segurava uma mecha desgrenhada entre os dedos, enrolando e puxando.
Do lado de fora, o gato dormia, barriga pra cima, desse jeito que dá preguiça só de olhar.
Cena de todo-dia, se ela não continuasse olhando para baixo sem dizer um “oi, me dá um bombom?”.
Silêncio de criança a gente sempre respeita, são naturalmente temperamentais, não precisam fazer cena. Silencie também. Depois, falei de coisas banais, como “dia bonito. Tem bolo, quer?”. Ela só “uhun, ahn, tá” e balançava a cabeça. A mecha de cabelo entre os dedos ainda.
O silêncio começou a me preocupar. Tirei os sapatos e fui colocar as pernas no sol também, ali do lado dela, no pedacinho de degrau que me sobrava.
Ela me mostrou que tinha lágrimas nos olhos, mas não eram tão dolorosas. Umas lágrimas fulgázes, talvez. No chão, entra as pernas, o vasinho de margaridas sem margarida nenhuma, só pedaços. Ela entendeu que eu me preocupava, pegou o vasinho com as duas mãos e me estendeu e nessa hora vi algo em seu rosto que apagava a expressão de vítima: “o gato comeu”. E olhou para ele, com ódio que não mete medo, cara de criança, parecendo brincadeira.
Depois olhou para o vasinho com pedacinhos verdes e a expressão de piedade voltou. Deixou cair mais duas lágrimas e eu fiquei em dúvida se o molhado da terra era água da torneira ou choro dela.
Senti que agora falaria, e falou. Contou que cuidava todo dia da plantinha e que, depois do colégio, colocava ela no sol. Falava esfregando os olhos. E hoje, não entendia porque, o gato veio e acabou com suas margaridas. Ela ganhou as margaridas do avô, quando ainda nem havia flores, só um matinho. Ela cuidou e viu as flores crescendo. Colocou nomes. Mostrou para as amigas. E o gato acabou com tudo.
Senti que ela havia decidido que passaria o resto do dia por ali, ao sol, olhando para o vasinho quase vazio. Quando o sol se for, ela entra.
Coisa tão importante merece respeito e silêncio. Levantei e, ainda olhando de longe, pensei que ela tinha acabado de descobrir o mundo.
14 março 2008
8.3 LOURO ENSANGUENTADO
As unhas vermelhas tamborilavam insistentemente sobre a caixa de tintura para cabelos. Em frente ao espelho do quarto, ela chorava.
De súbito, enxuga o rosto, limpa as lágrimas. Apanha a tesoura prateada, separa uma mecha dos longos cabelos escuros e corta. Com o corte, as lágrimas caem. Corta outra mecha. E outra. E chora.
Encara-se profundamente pelo espelho. Um silêncio incomoda. É como despedida. Pega a caixa de tintura e vai para o banheiro.
De fora, pode-se ouvir o som do choro, da tesoura caindo na pia, do chuveiro ligado, do secador.
Ela sai, coloca um vestido vermelho e vai para o espelho. Lá, há agora uma mulher de cabelos curtos e louros, que chora.
Encara-se novamente:
- A Deborah Secco falou na TV que com essa cor eu consigo qualquer homem. Tá feito. Se aquele desgraçado não me quiser dessa vez, tá danado.
Coloca o sapato de salto, pega a bolsa, passa pelo banheiro, pega a tesoura prateada, aperta-a, guarda na bolsa, respira fundo e sai.
[era um roteiro de um curta para a aula de "roteiros de audiovisual". virou um texto para o blog.]
06 março 2008
Woyzeck, de Georg Büchner
Hipocrisia. Mais do que na política, na polícia, na TV, ela tá dentro das pessoas. Ali, no coração, no sentimento, na cabeça. Hipocrisia e preconceito.
Todo mundo faz discurso em prol da sinceridade: “eu gosto de sinceridade”. “Sinceridade, pra mim, é o mais importante”. “minha melhor qualidade é a sinceridade”.
Ridículo. Tenta ser sincero com alguém pra você ver. E não falo daquela sinceridade superficial e inútil de quem só quer se mostrar sincero, tipo “olha, esse seu relacionamento não ta te fazendo bem”. Ou, “essa roupa não combina com você, sabia?”. Isso é fácil e todo mundo acha bonito “ser sincero” assim. É ridículo, isso não muda nada.
Eu falo de ser sincero assim: “eu gosto de você desde o dia que te vi”. “odeio essa música, porque ela me lembra alguém”.
Coisas assim. Falar de cheiro, cor, opção sexual, tesão. Faça isso. Seja sincero com as pessoas. Conte sua vida, o que você já fez de bom, de ruim, de cruel, de louco. Entregue sua vida a alguém, por pura confiança. Explique para essa pessoa o que te leva a hoje gostar de fotos em preto e branco.
Sabe o que acontece? Tristeza. Decepção.
As pessoas pedem sinceridade. Hipocrisia pura. Elas não sabem aceitar as verdades alheias, não agüentam o tranco. É isso. Problema grave, principalmente pra quem não tem medo de se mostrar.
Quem se liberta das máscaras acaba sempre apanhando no final. E, ainda, pode acabar só.
Melhor evitar. Fingir que gosta de umas coisinhas, uns filminhos, sorvete, cachorros. Sorrir para alguns, odiar outros e pronto. As pessoas gostam de gente medíocre.
A outra opção é continuar levando tapa na cara e rindo. É assim: quem sabe entregar seu mundo na mão de alguém, tem que saber agüentar a dor.
01 março 2008
Ai, ai saudade, não venha me matar
Há muito, muito tempo, eu brincava no balanço quando alguém me chamou e mandou tomar banho. “Vamos para o hospital ver a Gabi”.
A Gabi é minha prima e naquele dia, soube eu no hospital, que ela tinha nascido.
Fiquei tão importante: vou entrar no hospital! E mais feliz ainda, porque eu ia ter uma prima, uma boneca de verdade!
Tudo bem, eu já tinha um irmão, pequeno, mas não era a mesma coisa. Agora eu poderia colocar vestidinhos e passar maquiagem, pensava.
Cheguei ao hospital com um tanto de euforia e outro de receio: nunca antes eu entrara em um lugar daqueles, lugar de gente grande!
Foi então que me colocaram numa cama alta e me avisaram que eu ia segurar o bebê. Meu coração quase explodiu. Fiquei ansiosa, mas logo me decepcionei: me trouxeram aquela bola de pano com a cara vermelha. Pensando agora, acho que foi visível a minha cara de decepção. E foi grande o alívio quando tiraram aquela coisinha do meu colo.
Mas a boneca que eu esperava veio, depois de um tempo, e do jeito que eu queria: olhos azuis e cachinhos louros. A coisinha vermelha do hospital virou a minha melhor boneca, a mais linda!
Depois, eu comecei a ouvir, aqui e ali, conversas de adultos, coisas sobre mudar de casa. Mas, criança que eu era, não conseguia me preocupar com algo que fosse além de hoje a noite.
Só que um dia aconteceu: juntaram minhas coisas todas numa caixa, e eu só me dei conta do que acontecia quando vi que minha mãe chorava ao falar tchau para minha avó. Me chamaram, e eu só pude olhar para minha prima, sem falar nada e sem saber quando iria vê-la novamente. Fui embora olhando para ela pela janela do carro. Ela ficou.
Minha nova casa era longe, percebi, pois eu só voltava para a casa da minha avó quando tinha férias ou algo do tipo. E toda vez que eu voltava, me acalmava muito. Mas toda vez que tinha que ir embora, algo em apertava demais, assim, por dentro, e eu não sabia o que. Eu não entendia o que era aquilo, que me fazia tão triste por umas horas, e daí eu chorava. E como eu não sabia de onde vinha aquilo que me fazia chorar, eu inventava coisas: é que eu queria uma boneca!
E toda vez que eu voltava, alguém me dava uma boneca, aquela que eu pedi quando fui embora.
Com o tempo e as despedidas, consegui uma coleção de bonecas, e ainda assim chorava. Nenhuma daquelas bonequinhas bastava, eu continuava chorando.
Um dia, por sorte, a tristeza acabou e eu voltei pra minha casa antiga.
Eu cresci e hoje sei que o meu chorinho com mentira era saudade.
Hoje ainda choro, mas agora tenho ciscos no olho ou vontade de espirrar.