Hoje eu tive a prova de que o tempo passa e as coisas não mudam. Ou se mudam, é pouco, um detalhezinho aqui, outro ali. Acontece que meu pai foi me buscar na rodoviária e antes de vir para casa passamos num barzinho de uns amigos dele, coisa de família, desses que a gente entra atrás do balcão, pega a cerveja e tals. Cheguei lá e tava rolando um DVD dos Guns’n’Roses. Fiquei surpresa, achei que os caras tinham desaparecido total, que tinham mesmo caído no esquecimento, como dizem. Fiquei lá vendo o Axl e lembrando das letras (sim, eu era fã!), quando apareceu o dono do DVD: Jorge, 14 anos. Ele reparou na atenção que eu dedicava à TV e veio me perguntar “você curte?”. Não soube muito bem o que responder. Se falasse que sim estaria mentindo, porque, como disse, pra mim os caras agora não estavam mais com nada. Se falasse que não, de certa forma, mentiria também, porque há uns 5 anos havia um pôster do Axl na parede do meu quarto. “Já curti muito!”. O Jorge sorriu e me contou que só falta um CD pra completar a coleção. E continuamos assistindo ao show. E eu achei o máximo: a nova geração curtido coisas que eram sucesso quando eu tinha 14 anos! Porque o Jorge nasceu em 93, mais ou menos. Logo, já posso considerá-lo de uma outra geração que não a minha. Ele mal sabia que Guns tocou no Brasil, no Rock’n Rio. E eu fiquei louca pra ir. Ele não pode ver ao vivo um show com o Axl magrinho, enrolado na bandeira dos EUA. Eu vi, ainda que pela TV.
E daí pensei em mim: curtido Chico Buarque, Cazuza e me encantando pelo Ney Matogrosso. Coisas que talvez o Jorge, com seus 20 anos, curta também (sorte dele se assim for!). E tem o Bob Dylan, os Stones, Beatles. E ainda o Belchior, que disse sabiamente que apesar de ter feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais.
24 novembro 2007
Jurei mentiras e sigo sozinho...
Adeus. E caminhava, passo a passo, cigarro na mão queimando sozinho, sem trago. Coração batendo forte. Tenso e aliviado. O cigarro se consumia, assim como ele próprio fazia com seus pensamentos. Se consumindo, se remoendo e se aliviando a cada trago de si. Pensando agora no futuro, pois algo ficou pra trás. Caminhando sem pensar no que ficou. Por medo, por vergonha, por não ter opção. Feriu e agora paga com o sangue. Prometeu e não cumpriu. Paga com o mesmo sangue que lhe traiu: o seu. Traiu-se por querer, por desejar demais, por não se poder contentar, por não se bastar. Por ser alma demais, fogo demais, álcool demais. Andava pensando, sem querer pensar. E as juras? Sabia jurar sem cumprir e sabia que seria assim embora acreditasse – ou se enganasse – que poderia um dia fazer diferente. E seguia jurando e traindo. Sempre uma última vez. Sempre um último amor. Se doía e se sarava. E depois buscava, feria de novo. Era um veneno seu, que se não doasse, envenenava-se. Depois seguia em frente, sem pensar. Quase um delírio, uma doença. Um vício, talvez. Ou seria instinto? Jogava o cigarro no chão e amassava, ainda pela metade: era o seu jeito de desfazer-se com facilidade das coisas. Um gosto amargo na garganta lhe fez pensar no que deixou: dois anos e meio, uma casa, uma vida e uma mulher chorando na janela. Não foi por querer e não foi sem querer. Como explicar? Não dá. Deixou. Bebeu, fumou, seguiu sozinho, mais uma na lembrança....
...Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Meu sangue latino.
Adeus. E caminhava, passo a passo, cigarro na mão queimando sozinho, sem trago. Coração batendo forte. Tenso e aliviado. O cigarro se consumia, assim como ele próprio fazia com seus pensamentos. Se consumindo, se remoendo e se aliviando a cada trago de si. Pensando agora no futuro, pois algo ficou pra trás. Caminhando sem pensar no que ficou. Por medo, por vergonha, por não ter opção. Feriu e agora paga com o sangue. Prometeu e não cumpriu. Paga com o mesmo sangue que lhe traiu: o seu. Traiu-se por querer, por desejar demais, por não se poder contentar, por não se bastar. Por ser alma demais, fogo demais, álcool demais. Andava pensando, sem querer pensar. E as juras? Sabia jurar sem cumprir e sabia que seria assim embora acreditasse – ou se enganasse – que poderia um dia fazer diferente. E seguia jurando e traindo. Sempre uma última vez. Sempre um último amor. Se doía e se sarava. E depois buscava, feria de novo. Era um veneno seu, que se não doasse, envenenava-se. Depois seguia em frente, sem pensar. Quase um delírio, uma doença. Um vício, talvez. Ou seria instinto? Jogava o cigarro no chão e amassava, ainda pela metade: era o seu jeito de desfazer-se com facilidade das coisas. Um gosto amargo na garganta lhe fez pensar no que deixou: dois anos e meio, uma casa, uma vida e uma mulher chorando na janela. Não foi por querer e não foi sem querer. Como explicar? Não dá. Deixou. Bebeu, fumou, seguiu sozinho, mais uma na lembrança....
...Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Meu sangue latino.
02 novembro 2007
Depois
E depois da despedida foi que tudo lhe caiu sobre os ombros, a cabeça. É assim que acontece, às vezes não é bonança que se segue à tempestade, mas sim uma leve tormenta, talvez uma nuvenzinha preta fique lá no céu, incomodando. E assim foi. Passada a tempestade, pensava em como seria amanhã. Acordar sem ele ao lado. Não beijar, não dizer oi, não perguntar se sonhou. Sobraria mais tempo para o café da manhã. Talvez nunca mais chegasse dois ou três minutos atrasada no trabalho. Sobraria tempo no dia, poderia ler, caminhar, voltar para a academia. Poderia dormir mais ao invés de passar tardes conversando ao pôr do sol. E os filmes, como é mesmo ver um filme sozinha? Nem se lembrava mais. E sexo? Como serão os outros? Há anos era aquele o único homem de sua vida. Como beijar outro agora? Os olhares, ah, os olhares dele...E então pensou nas suas unhas que agora certamente voltariam a ser curtas, roídas, pois teria que se preocupar muito mais com o trânsito ou o trabalho do que com a música de hoje, ou onde almoçaremos amanhã, ou se ele fica melhor de vermelho ou azul. Teria que voltar às antigas preocupações. Olhou as unhas ainda compridas, o esmalte claro – porque escuro, segundo ele, deixa com mãos de bruxa – e sentiu saudades precipitadas das belas unhas. É assim, saudade precipitada é ansiedade disfarçada, confusa. Os olhos se encheram d’água por pena das unhas. E olhou pras mãos que agora seriam sozinhas também, sem as outras mãos. Coração apertou, doeu tanto que fez o corpo todo estremecer, inclusive os olhos, que derrubaram todas as lágrimas. E percebeu que chorando ficava feia, cara inchada, nariz vermelho. E sabia que choraria mais e mais. Os outros entenderiam? Ele entendia...E ele perdoava. Sentiu que o tempo livre talvez não fosse valer a pena, os outros não valeriam a pena, as unhas não valeriam. Entre o orgulho e a vaidade, optou pelo segundo e, chorando, escreveu: “Não precisa vir buscar suas coisas.”. Sabia que ao lado dele era muito mais bela.
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